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04/07/2016

Setor automotivo celebra novo governo com cautela

Por Michele Loureiro

- 04/07/2016

O início do governo provisório foi recebido com otimismo – e cautela – pelo setor automotivo. Com vendas 26,6% menores nos primeiros cinco meses deste ano com relação ao mesmo período de 2015, o setor espera que a nova postura econômica ajude a tirar as montadoras da situação delicada de hoje. Com capacidade ociosa de 50% a indústria voltou a patamares observados em 2005.

Segundo o presidente da Anfavea, Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, Antônio Megale, ainda é cedo para prever como as mudanças no governo impactarão na venda de veículos. Porém o otimismo é evidente. A associação já dava 2016 como um ano perdido e agora acredita que os últimos meses podem começar a sinalizar uma retomada nas vendas: “A nomeação da equipe econômica foi bem recebida e isso pode tranquilizar os investidores”;

Para ele um dos pontos principais apresentados pela nova gestão é a questão do avanço na área de comércio exterior: “As exportações têm sido fundamentais para reduzir a capacidade ociosa no País. A nova equipe já afirmou que quer fechar mais contratos bilaterais e buscar novas parcerias”.

Megale disse que ainda não se reuniu com novos integrantes do governo, mas a Anfavea já solicitou encontro para tratar das demandas do setor.

“Devemos nos encontrar nas próximas semanas. Não estamos contando com nenhum incentivo, como redução de IPI, pois sabemos que o momento é de cortes severos.”

O executivo acredita que os próximos dois meses serão decisivos para a retomada de confiança.

Na avaliação de Valdner Papa, consultor do setor automotivo e professor das faculdades Dom Cabral e ESPM, a mudança do governo pode resultar em uma previsibilidade fundamental para o setor. Afinal de contas as montadoras trabalham sempre no longo prazo. Por exemplo: em 2012 a Anfavea previa um mercado nacional de 5 milhões de unidades para 2017 – o que deve ficar abaixo dos 3 milhões este ano. Para atender às previsões mágicas as montadoras investiram e ampliaram a capacidade, que agora está ociosa: “As previsões não se concretizaram. Vivemos em um cenário instável nos últimos anos e isso comprometeu a indústria”.

O consultor destaca que a venda de veículos é movida pela confiança dos consumidores:

“É natural observar essa queda nas vendas. O desemprego aumentou, o poder de renda caiu, a inflação cresceu. Enquanto essa equação não mudar não haverá mágica”.

Para ele um dos acenos mais positivos da nova equipe é a questão do ajuste fiscal. Isso porque o segmento é extremamente dependente do crédito: “Nós sangraremos. Será um período difícil”.

Papa ressalta que atualmente as condicionantes dos bancos estão rígidas e sem flexibilidade, com aprovações muito baixas: “Com os ajustes deve haver uma recuperação gradativa do emprego e uma consequente baixa na inadimplência, o que deixaria as instituições financeiras mais maleáveis e o crédito voltaria a girar”.

Papa ressalta que as mudanças não acontecerão da noite para o dia:

“Na minha avaliação o caminho é longo. O segmento de caminhões deve ser o primeiro a sentir uma melhora, no início de 2017. Havendo carga para transportar, tudo começa a girar. Acredito em alta de 3% a 5% do mercado de veículos no ano que vem”.

Letícia Costa, sócia da Prada Consultoria, não é tão otimista com uma retomada já em 2017. Para ela é cedo para avaliar o tamanho da mudança com o novo governo.

“Ainda não sabemos as manobras que o antigo governo tentará fazer para voltar ao poder e isso pode deixar o cenário conturbado. Até agora temos nomeações e discursos. Precisamos esperar para ver se essa equipe terá poder de fogo.”

Segundo ela iniciativas como as relacionadas às agências regulatórias já começam a dar mais credibilidade ao País: “Isso pode atrair investidores com um maior rigor fiscal”.

Outra tendência do novo governo apontada como positiva para o setor automotivo é a reforma trabalhista: “Poderemos ter uma negociação sobre a CLT, o que traria mais flexibilidade para a mão-de-obra. Isso seria bom para lidar com os ciclos da indústria. Precisamos esperar para ver e esse pode ser um período penoso”.

 


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