A prefeitura de São Paulo instituiu em 2009 a Política de Mudança do Clima, cuja principal meta era chegar a 2018 com 100% da frota de ônibus movida a combustíveis alternativos na cidade. Há pouco menos de nove meses para o prazo estipulado expirar, no entanto, a realidade do transporte público do município está longe da projetada na legislação. Segundo dados do SPTrans, empresa que opera o sistema na capital, 211 dos 14 mil 607 ônibus que circulam na cidade não utilizam combustível fóssil em seus motores. A maior parte utiliza uma mistura de diesel com biodiesel, mistura que, segundo especialista em mobilidade, não é o suficiente para que as emissões sejam reduzidas de acordo com a lei.
Segundo Claudio de Senna Frederico, vice-presidente da Associação Nacional dos Transportes Públicos, ANTP, e especialista em mobilidade urbana, as iniciativas de redução de emissões que surgiram na cidade a partir da vigência da lei, em 2009, fracassaram por não terem sido criadas com base na escolha das matrizes energéticas alternativas. À época, uma série de veículos movidos a combustíveis renováveis, como etanol e biodiesel, foi testada nas ruas da capital e não vingaram.
Diz ele: “Não ficou clara a proposta que a cidade tinha para reduzir as emissões. Foram testadas várias matrizes que depois se mostraram inviáveis por razões técnicas e econômicas. O mais indicado seria estudar qual a melhor matriz energética para o perfil do transporte da cidade e então concentrar os esforços em sua aplicação, e não apostar em diversas frentes”.
A principal iniciativa bancada pelo município de 2009 para cá foi o Programa Ecofrota, na gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab. O objetivo do programa era promover os veículos movidos a biocombustíveis e veículos elétricos. Eram 1 mil 621 ônibus que prometiam, juntos, reduzir as emissões entre 40% e 50%. No entanto, a proposta falhou na estimativa do prazo necessário para que essas opções tecnológicas se revelassem viáveis técnica e financeiramente às empresas de transporte. As metas anuais não foram cumpridas e, em abril de 2014, o programa foi cancelado.
Neste ano, a frota de ônibus movidos a alguma matriz renovável é de 216 unidades de um universo de mais de 14,5 mil veículos, entre trólebus e ônibus movidos a etanol, segundo dados da SPTrans. A maior parte da frota circulante utiliza uma mistura de biocombustível com o diesel S10, uma versão do diesel comum que emite menos partículas de enxofre em sua queima. Para Cláudio de Senna, da ANTP, a mistura não pode ser considerada uma alternativa “limpa” que permita o município atingir a meta estipulada na lei de 2009. “Se é mistura então não podemos chamar de biocombustível. Para se chegar ao patamar anunciado, a cidade deve ter ônibus novos ou adaptados às legislações ambientais mais recentes, e isso demanda tempo para as empresas se adaptarem”.
No mercado, as principais fabricantes de ônibus do País chegaram a produzir veículos para atender às demandas do município. No entanto, muitas recuaram após observarem que o modelo de diversificação utilizado pela capital paulista estava impondo uma série de desafios para as empresas de transporte. Sobre isso, Rogério Rezende, diretor de assuntos institucionais e governamentais da Scania Latin America, afirma que as empresas possuem tecnologias viáveis para atender demandas ambientais, e que os entraves para a massificação de veículos “verdes” na cidade têm origem na estratégia econômica.
O executivo conta: “Todas as montadoras possuem veículos que atendem diversas legislações ambientais até porque na Europa, onde estão as matrizes, as leis são rigorosas neste sentido. No caso de São Paulo, levou-se em consideração apenas a questão da matriz energética, e não os numerosos fatores econômicos que viabilizam um projeto deste porte”. Entre eles, Rezende aponta, por exemplo, o custo de certos combustíveis e o reflexo nos números operacionais das empresas. “Esta foi uma reclamação recorrente entre os operadores do sistema”, completou.
Luiz Carlos de Moraes, diretor de assuntos institucionais da Mercedes-Benz, ressalta também a questão da idade dos ônibus em circulação em São Paulo. “A idade média da frota de São Paulo está em aproximadamente cinco anos, mas há linhas que operam com veículos com dez anos de uso, por exemplo. A renovação é uma saída mais viável do que um eventual processo de retrofit dos veículos que estão circulando. Demanda um pouco mais de tempo, mas todos conseguem equacionar custos e benefícios de maneira mais assertiva.” Segundo dados do SPUrbanuss, o sindicato das operadoras de transporte urbano da capital, a idade média da frota é de 5 anos e 6 meses.
O assunto da idade da frota em São Paulo voltou à tona nas últimas semanas. No final de março, o Tribunal de Contas do Município determinou que dois consórcios de ônibus da capital devolvam aos cofres públicos R$ 1 bilhão por não cumprirem, entre outras coisas, as cláusulas do contrato de concessão de 2003 que previam renovação da frota. Os consórcios são o Unisul, da Zona Sul e o Plus, da Zona Leste. Segundo o Tribunal, as empresas rodavam com uma frota velha. Procuradas, as empresas não atenderam à reportagem.
Notícias Relacionadas
Últimas notícias