A Argentina, o principal parceiro comercial do Brasil na América Latina, busca oportunidades para nacionalizar a produção de autopeças com forma de diminuir o custo dos veículos produzidos em seu território. Por meio da sua nova política industrial, que tem como principal meta elevar a produção de 700 mil unidades por ano para 1 milhão de veículos em 2023, o governo dará vantagens fiscais à itens considerados estratégicos como rodas, cintos de segurança, turbos, peças estampadas e fundidas.
Segundo Gonzalo Dalmasso, da consultoria argentina Abeceb, especializada no mercado automotivo, estes componentes representam a oportunidade do país retomar a competitividade perdida nesses setores por razões políticas ao longo dos últimos anos. Além disso, há uma demanda reprimida por estas partes, sendo que algumas delas não possuem um competidor local que possa abastecer as grandes sistemistas instaladas lá: “Por não haver produção local, as fabricantes acabam importando os componentes e isso eleva o preço do veículo nacional. O que o governo pretende é diminuir o custo dos veículos nacionais para que não sejam canibalizados pelos importados”.
Segundo apresentação do consultor durante o Seminário AutoData Tendências de Negócios, essa nova política trará maior competitividade ao mercado, em função da abertura do mercado argentino aos veículos importados. No entanto, diferentemente do que ocorreu com o InovarAuto, a política industrial argentina não vai sobretaxar o veículo estrangeiro em benefício do que possuir maior conteúdo nacional, mas utilizar a isenção como forma de balancear um mercado onde os importados são livres de impostos: “Não há favorecimento de um grupo específico, como o setor automotivo, mas incentivo de produção em um país onde não há mais fábricas”.
O cenário proposto pela nova política industrial argentina pode pavimentar o caminho para empresas brasileiras se instalarem lá. Segundo avaliação da Abeceb, há potencial de aumentar a participação de conteúdo local para os segmentos de rodas, peças estampadas ou fundidas, e componentes como baterias, faróis e vidros. Outros segmentos que também são considerados inexplorados pela indústria local, e que possui um maior valor agregado, são sistemas eletrônicos de bordo, controles eletrônicos e turbocompressores.
Por outro lado, há setores na Argentina onde a presença de peças produzidas localmente pode ter menos oporuntidades. É o caso de componentes para powertrain e eixos. “A indústria Argentina perdeu competitividade por não ter conseguido acompanhar a evolução tecnológica da produção. Cenários políticos anteriores fecharam estas empresas e, agora, o governo quer estimular a retomada desta produção”.
Carlos Zarlenga, presidente da General Motors do Brasil, disse na primeira apresentação deste Seminário AutoData que a nova política argentina possui equívocos que podem diminuir a competitividade nos dois países. O executivo, que é argentino, disse que ambos os lados devem criar políticas complementares. Na prática, ele sugeriu que a produção brasileira esteja concentrada em uma linha de componentes diferentes aos da Argentina:
“A grande oportunidade não é concentrar os projetos em nacionalização. Isto limita a visão de negócio. A cadeia deve pensar em investir de forma a atender aos interesses da região como um bloco. E, como está sendo conduzido o tema nos dois países, percebemos dois competidores buscando o protagonismo, quando poderiam ser parceiros.”
A política industrial automotiva, também chamado de “Plan 1 Millión”, integra o plano nacional de produção que envolve todos os setores, o qual prevê investimentos de US$ 320 milhões para pequenas e médias empresas. A primeira meta da cadeia automotiva é viabilizar a produção nacional de 750 mil unidades de veículos em 2019, chegando a 1 milhão em 2023, prazo para a criação de mais 30 mil postos de trabalho. Outra meta é exportar ao menos um terço da produção para o mercado fora do Mercosul.
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