Lei do frete trouxe aumento de cotações

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24/08/2018

São Paulo – Assinada pelo presidente da República no começo do mês, a política do frete mínimo para o transporte de cargas, uma das reivindicações dos caminhoneiros para abrir as estradas e encerrar a greve do fim de maio, tem agitado os departamentos comerciais das empresas fabricantes de caminhões. Desde pouco antes da sanção presidencial, quando a tabela dos fretes foi divulgada pela ANTT, Agência Nacional de Transportes Terrestres, embarcadores começaram a fazer contas para avaliar a possibilidade de investir em frota própria.

 

Isso porque a tabela do frete mínimo elevou o custo do frete rodoviário. Pela lei fica vedado qualquer acordo ou convenção que resulte em pagamento inferior ao piso mínimo estabelecido pela agência. Imediatamente representantes da agroindústria entraram com ações na Justiça alegando inconstitucionalidade. A reclamação ganhou eco em setores da indústria, especialmente as siderúrgicas – o presidente da Usiminas, Sérgio Leite, por exemplo, afirmou em evento recente que espera que o STF a considere inconstitucional.

 

O setor de autopeças também não gostou da medida. Para Dan Ioschpe, presidente do Sindipeças, ela “não é a melhor solução do ponto de vista do livre-mercado”. Segundo ele as empresas fabricantes de autopeças, que já têm os seus custos pressionados por outros fatores, passam a ter um adicional:

 

“Há reflexos no setor de maneira a exercer pressão sobre o custo operacional. Dependendo do contrato de fornecimento a empresa custeia o transporte do seu produto ao cliente, e nesse caso pode haver reajustes de preços por causa do frete. Quem está mais fraco sofrerá mais uma pressão sobre o custo”.

 

No caso da Zen, fabricante de componentes com fábrica em Brusque, SC, o tabelamento do frete exerce pouca pressão, uma vez que sua produção é basicamente dirigida ao mercado externo – o que, na prática, significa que o custo da operação logística fica na maioria dos casos nas mãos do cliente, segundo Gilberto Heinzelmann, seu presidente: “É preciso ver como ficará a tabela após decisão do STF e observar os reflexos na indústria do aço, o que, de fato, pode exercer pressão no nosso negócio”.

 

Enquanto o STF avalia os pedidos da indústria e do agronegócio, as montadoras de caminhões, que indiretamente também são afetadas pelo aumento do custo do transporte, se preparam para receber volume maior de pedidos de empresas que cogitam investir em frota própria. Do setor agrícola a Cargill e a JBS anunciaram intenção de comprar caminhões – a fabricante de proteína animal, que já possui frota própria, efetivou alguns pedidos. Do lado automotivo, a General Motors sinalizou em entrevista ao Valor Econômico que estuda adquirir caminhões para reduzir os custos operacionais do frete.

 

“Estamos recebendo muitos pedidos de cotação de embarcadores”, afirmou Alcides Cavalcanti, gerente nacional de vendas de caminhões da Volvo, no Fórum AutoData Veículos Comerciais, em Caxias do Sul, RS. “Eles estão avaliando se vale a pena investir na frota própria.”

 

Segundo Roberto Leoncini, vice-presidente de vendas da Mercedes-Benz, a empresa vem sendo consultada por companhias interessadas em fazer cotações: “Muita demanda de grande embarcador pedindo cotação de caminhão, principalmente clientes de carga de baixo valor agregado, como grãos”.

 

De acordo com Leoncini são as empresas que atuam no transporte de commodities que sofreram mais com encarecimento do frete, e são eles que devem representar demanda por caminhões: “Todas tentarão comprar caminhão, no pior dos cenários apostar no leasing ou no aluguel de frota. A Mercedes-Benz está recebendo as propostas e tentando mostrar a estes clientes a melhor compra ou pacote de serviço para a necessidade deles”.

 

Luis Antonio Gambim, diretor executivo da DAF Caminhões, disse ter recebido relatos de clientes transportadores que estão cobrando de 25% a 30% mais no frete. “Por isto alguns embarcadores nos consultaram, pensando em montar frota própria”.

 

A mesma situação ocorre na Iveco. No mesmo Fórum AutoData, Idam Stival, seu gerente comercial de caminhões, relatou ter recebido diversas consultas. Não há, porém, grandes negócios fechados ainda. É preciso tempo para que os possíveis clientes façam as contas – e há, também, a possibilidade de o STF derrubar a lei.

 

Indústria pede calma –  Embora tentadora, por significar mais encomendas, a situação é vista com cautela por executivos das fabricantes de caminhões. Todos os entrevistados por AutoData ponderaram que operar uma frota não faz parte da atividade principal da empresa que cogita comprar caminhões próprios e a medida pode ter efeito contrário ao desejado.

 

“Não que seja impossível, mas a questão é que não é fácil transportar carga”, afirmou Leoncini, da Mercedes-Benz. “Não é a especialidade das companhias e é uma mudança que envolve mais investimento, contratações e a criação de uma nova estrutura.”

 

A preocupação da empresa, nesse sentido, é evitar que se crie um problema setorial a partir de uma eventual onda de compras de caminhões. Leoncini apontou que as companhias precisam estudar bem a melhor opção para evitar o frete mais caro.

 

Ele acredita que o tabelamento do frete seja uma forma de ajudar o transportador que mais sofreu com aumento dos preços do transporte de cargas. Embora não considere a medida como a ideal: “Acho que a tabela não é a melhor solução do ponto de vista do livre mercado, mas também tenho a consciência de que houve um achatamento do valor do frete e isso chegou num momento inviável. A tabela criou um pouco mais de energia pra quem quer comprar caminhão”.

 

Colaborou Bruno de Oliveira

 

Foto: Divulgação.