Base do setor está longe da inovação

Imagem ilustrativa da notícia: Base do setor está longe da inovação

São Paulo – O Sindipeças realizou pesquisa sobre o nível de adoção de tecnologia nas empresas associadas e o quadro desenhado a partir dos dados mostra um universo de pequenas e médias empresas, situadas dos tier 2 para os tier 3, distantes da indústria 4.0, conceito que vem se tornando realidade dentro das montadoras. A notícia é ruim porque são estas empresas que, afinal, representam a base da cadeia de fornecedores no País e pode representar um gargalo no futuro.

 

A entidade que reúne as empresas produtoras de autopeças entrevistou 61 companhias, 13% de sua base, nacionais e de capital estrangeiro, e constatou que o uso de software e sistemas de produção avançados está aos poucos se fazendo presente na gestão das PMEs do setor, mas ainda falta muito para que elas alcancem o padrão visto nas empresas para as quais fornecem peças e partes.

 

O sistema ERP, que integra todos os dados da empresa, da produção ao administrativo, é realidade dentro das empresas entrevistadas pelo levantamento do Sindipeças. O sistema Lean Manufacturing, por sua vez, foi adotado por 66% das companhias que integram o estudo. 90% das companhia não dispõem de processos digitais de produção e 81% não têm orçamento para investir em equipamentos digitais necessários para o patamar 4.0.

 

De acordo com George Rugitsky, presidente da Freudenberg do Brasil e conselheiro do Sindipeças, o setor sofreu com a crise que derrubou as vendas de veículos nos últimos anos e ainda não conseguiu se recuperar a ponto de elevar seu nível tecnológico ao das fabricantes sistemistas: “Quem sobreviveu ao baixo volume e às dívidas hoje está concentrado em manter os contratos que tem. São poucas as que têm caixa para investir em inovação”.

 

Para o executivo, que participou do Encontro da Indústria de Autopeças, realizado no segunda-feira, 22, no São Paulo Expo, a indústria precisa criar meios para resgatar o segmento das autopeças nos aspectos financeiro e tecnológico. Não é consenso, ainda, o caminho para chegar até a ajuda necessária. O tema é polêmico e divide opiniões: a, digamos, mão que puxará as pequenas e médias companhias do fundo do vale serão mãos públicas ou privadas?

 

Para David Wong, consultor da AT Keaney, as autopeças ficaram fora do radar das grandes políticas setoriais, como é o caso do extinto Inovar-Auto e o recém-nascido Rota 2030, um quadro que, aos seus olhos, representa um erro e foi apontado como responsável pela letargia nas autopeças: “No boom do mercado houve muito investimento público no País, mas nos lugares errados. Hoje todos estão pagando o preço por terem negligenciado uma cadeia de fornecimento importante”.

 

A Bosch foi uma das grandes empresas sistemistas que tiveram de criar meios para ajudar seus fornecedores. O presidente Besaliel Botelho apontou os incentivos concedidos pelo governo federal, como a desoneração da folha de alguns componentes, como fundamentais para a geração e a manutenção do emprego no setor de autopeças, e citou exemplos internos aos quais a Bosch recorreu:

 

“Participamos há dois anos de um programa em parceria com o poder público de capacitação de 25 fornecedores da nossa cadeia que precisavam se atualizar e, assim, se adequarem ao ritmo e à qualidade da nossa produção. Hoje executamos um segundo programa dedicado à indústria 4.0. Muita coisa foi feita durante a crise para que houvesse sintonia na cadeia de fornecedores”.

 

Foto: Divulgação.