Mendonça de Barros: retomada em 2021 com uma nova indústria.

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Foto Jornalista  Bruno de Oliveira

Por Bruno de Oliveira

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17/04/2020

São Paulo – Se o cenário atual torna inviável qualquer tentativa de desenhar projeções pós-pandemia, pelo menos o comportamento da economia fornece alguns subsídios para aqueles que buscam entender qual caminho, dentre tantos, o setor automotivo escolherá seguir nos próximos meses. Luiz Carlos Mendonça de Barros, presidente do Conselho de Administração da Foton e que, no passado, exerceu o cargo de presidente do BNDES, diretor do Banco Central e ministro das Comunicações, acredita que as pistas fornecidas durante o período de isolamento social indicam mudanças bruscas na indústria e, claro, retração comercial.

 

Primeiro de tudo no segmento de caminhões, área que escolheu seguir após longa carreira em Brasília, DF, as vendas ficarão 10 mil ou 15 mil unidades menores do que as projetadas pela Anfavea para o ano – 143 mil unidades. A diminuição se dará, segundo sua análise, em função da retração do consumo no País, ainda que o governo federal “tenha acertado em criar medidas de socorro às pequenas e médias empresas e aos autônomos”.

 

“Quando o governo sinaliza com ajuda econômica, de alguma maneira reflete na cadeia de transportes porque algo será consumido. Por outro lado a menor demanda que deriva desse cenário torna inviável a renovação, porque a frota circulante dá conta do recado”, ele disse à Agência AutoData na sexta-feira, 17. “O caso dos automóveis é similar. Quem compraria o veículo pensou duas vezes e contingenciou o dinheiro que tinha disponível para aplicação em outras necessidades.”

 

Só em 2021. Ainda que os números apontem para baixo, segundo sua ótica, no fim do ano, o presidente da Foton vê algumas diferenças desta crise e de outras passadas – como a de 2008 – que podem servir de alento ao setor automotivo que, por ora, busca novas maneiras de manter o fluxo das receitas. Uma delas seria o controle do Estado imediato no mundo e o fato de nenhum banco ter quebrado – como houve há doze anos nos Estados Unidos.

 

“A diferença desta para outras crises que ocorreram é a falta de previsibilidade que o vírus proporciona. Ninguém sabe quando e nem como o mundo voltará ao normal outra vez. De qualquer forma o perfil da crise é similar à ocorrida em 2008 e por isso que o Banco Central e o setor financeiro como um todo se articularam rapidamente para mitigar os riscos, como, por exemplo, aplicar o auxílio financeiro aos que precisam como forma de manter a economia funcionando de alguma forma.”

 

No ponto de vista de Mendonça de Barros não houve uma “guerra nuclear como muitos pensam”, uma vez que as fábricas , disse, “continuam instaladas apesar da interrupção da produção”. Por isso, continuou, a retomada das linhas deverá ocorrer dentro de sessenta dias e a situação deverá sobremaneira acalmar a indústria e o mercado. Por outro lado, seguiu, a indústria voltará diferente daquela que existia antes da pandemia:

 

“Quando falamos de tecnologia é difícil voltarmos atrás. Estamos experimentando um período de forte apelo virtual, o mundo está se acostumando de forma forçada a realizar muitas coisas virtualmente. Não será diferente nas fábricas, que deverão manter o regime do home office em algumas áreas, por exemplo, e em casos mais avançados, na esteira da indústria 4.0, a trabalhar mais com manufatura enxuta, quando se faz mais com menos e de forma conectada ao pedido do cliente”.

 

Keynes e o Estado. Ele admite a existência do risco, por exemplo, de que a flexibilização dos contratos de trabalho, matéria em trânsito no Congresso por meio da MP 936/2020 que estabelece redução de jornada e salários em caráter emergencial, perca o caráter temporário e se torne algo permanente na indústria. A adoção da tecnologia 5G, cujas frequências deverão ser submetidas a certame pelo governo federal em breve, também favorecerá, segundo Barros, a prevalência do mundo online nas relações comerciais e de trabalho.

 

Ele trabalha com a possibilidade do mercado voltar à normalidade em 2021, com o PIB se estabilizando em patamar observado no período pré-crise. Será neste período, de acordo com o presidente da Foton, que  se poderá enxergar os efeitos da inflação – se ela ocorrer:

 

“Segundo a lógica keynesiana quando há crise e a indústria deixa de ter receita, o trabalhador deixa de ter receita, e o Estado perde arrecadação. E é ele o único agente dos três que pode interferir. Como? Injetando recursos, imprimindo moeda. Como não há demanda cai o risco de inflação lá na frente, porque haverá tempo de o Estado, em tese, recuperar via tributo ou papeis do tesouro o dinheiro que injetou para recuperar a economia”.

 

Foto: Divulgação.