São Paulo – A eletrificação veicular ainda engatinha no mercado brasileiro, embora a oferta de modelos híbridos e elétricos seja cada vez maior. Segundo a Anfavea de janeiro a maio foram emplacados 10,4 mil veículos eletrificados, ou 1,2% do total de automóveis e comerciais leves licenciados no período. Parte das empresas a maior demanda: muitas, para alcançar suas metas de redução de emissões, têm migrado suas frotas para modelos elétricos.
Pesquisas indicam que, no Brasil, a eletrificação será puxada por veículos comerciais, vez que não há incentivo governamental para os automóveis de passageiros. “Existe ainda uma série de barreiras para sua [dos eletrificados] adoção, mas no caso específico dos veículos comerciais o andamento é mais rápido em função da demanda dos clientes”, afirmou Max Fernandes, diretor de vendas da Arval. “Empresas multinacionais, por exemplo, têm metas de emissões a cumprir, e isso acelera a constituição de uma frota mais sustentável.”
No estudo Mobility and Fleet Barometer 2021, produzido pela Arval, 70% das empresas multinacionais entrevistadas já implementaram ou estão considerando adotar pelo menos uma das seguintes tecnologias nos próximos três anos: veículos híbridos, híbridos plug-in e veículos elétricos a bateria. 39% deste conjunto afirmaram que já utilizam pelo menos um destes veículos em suas frotas.
O estudo afirma, ainda, que empresas instaladas na Holanda, na Suíça e no Brasil são aquelas que lideram a lista global de interessados na aplicação de veículos elétricos: "A velocidade da renovação de frota aqui é maior na comparação com outros países, de forma que neste processo a tendência é a da compra de veículos mais atualizados".
Nessa esteira surgiu o maior negócio envolvendo caminhões do tipo no País, a compra de mais de cem unidades do Volkswagen e-Delivery pela Ambev, que após anos de teste e desenvolvimento de fornecedores será lançado em julho.
A DHL é outra empresa que está diversificando sua frota com a aplicação de veículos elétricos. A companhia adicionou recentemente cinco unidades do furgão Renault Kangoo Z.E à sua frota de veículos elétricos, que agora soma 25 unidades. A companhia tem meta de redução de emissão de carbono até 2050 e realiza um redesenho de sua frota globalmente.

"Há também, neste contexto, uma demanda do cliente, que procura hoje formas mais sustentáveis de transporte", disse Mauricio Almeida, diretor de operações do setor automotivo da DHL, lembrando que a empresa teve, assim como a Ambev, de desenvolver um modelo de negócio a partir da aplicação de caminhões elétricos.
A Telhanorte iniciou testes em sua operação de uma unidade de caminhão elétrico alugada da Osten Fleet. Segundo a diretora de logística, Michelle Oliveira, “o teste ocorre em um momento em que a empresa está focando em muitas metas sustentáveis globais”.
Até 2022 a Nestlé terá, pelo menos, 43 vans elétricas para aplicação na distribuição de seus produtos, de São Bernardo do Campo, SP, até São Paulo. A companhia instala pontos de carregamento em suas unidades para atender às necessidades de recarga da frota.
Segundo o vice-presidente de logística, Marcelo Nascimento, manter uma logística sustentável é um grande desafio em um país como o Brasil, com dimensões continentais e grandes questões de infraestrutura: “Entendemos o nosso papel, como uma grande empresa de atuação global e nacional, de promover e estimular mudanças em toda a nossa cadeia, trazendo junto nossos fornecedores e várias partes da sociedade para evoluírem conosco, entregando um produto com segurança, qualidade e sustentabilidade até o nosso consumidor”.
Wilson Morais, diretor de produtos e soluções e-mobility da ABB Eletrificação para a América Latina, observou que a consulta por soluções de carregamento e infraestrutura para veículos elétricos por frotistas cresceu muito nos últimos meses: “O mercado não caiu durante a pandemia. Muita gente aproveitou o momento para se aprofundar nos estudos de migração para frota elétrica”.
Ele também vê muito espaço para o segmento de veículos comerciais, especialmente. As vantagens são grandes naquele chamado último quilômetro, o caminhão que fará a entrega ao cliente final nos grandes centros: “No caso de abastecimento de supermercados, por exemplo, há uma grande oportunidade: o caminhão elétrico não faz barulho e as entregas podem ser feitas de madrugada”.

Mas não é só em comerciais: há empresas fazendo contas para substituir seus automóveis. A Atos, da área de tecnologia, traçou como meta substituir sua frota de cerca de 5,5 mil automóveis para modelos elétricos até o fim de 2024. Com essa mudança a empresa pretende reduzir as emissões de carbono de sua frota global em 50% dentro de três anos, em linha com a sua ambição de atingir emissão zero até 2028.
A empresa se comprometeu a instalar estações de carregamento nas suas unidades. Há estimativa de que sejam mais de quinhentas estações até 2024. Além disso oferecerá aos funcionários que utilizam um de seus carros elétricos a oportunidade de instalar uma estação de recarga em casa.
“O custo da bateria caiu e enxergamos que há uma tendência ainda maior de queda. No mundo comercial este fator conta muito porque as empresas também estão de olho no menor custo operacional”, contou Masao Ukon, consultor da área automotiva do Boston Consulting Group.
Estudo realizado pela consultoria projeta que os eletrificados serão responsáveis por mais da metade dos veículos vendidos globalmente em 2026. No Brasil será mais devagar, mas a tendência é de que até lá o segmento deixará de engatinhar para dar seus primeiros passos mais firmes.
Foto: Divulgação e Freepik.