Sistema foi elaborado em parceria com a Volvo e a ACR
São Paulo – Diante da dificuldade de lidar com falhas em serviços executados por caminhões adaptados para operar por controle remoto, sem ninguém a bordo, ao mesmo tempo em que percebia demanda crescente por esse tipo de veículo em obras de grande risco, a empreiteira Andrade Gutierrez firmou parcerias com a Volvo e a ACR para desenvolver um sistema próprio, que torna o trabalho bem mais eficiente.
Depois de quase dois anos de estudos e testes, o protótipo batizado 4.Zero incorporou tecnologia que melhora sua precisão em manobras conduzidas por um joystick, conectado por ondas de rádio aos comandos do caminhão, o que reduziu falhas na operação, segundo o gerente de inovação da Andrade Gutierrez, André Medina.
Ele conta que esta era uma demanda urgente para a operação da empresa de engenharia de infraestrutura, que tem forte atuação no segmento de mineração, com intervenções em áreas perigosas onde não é seguro nem permitido operar com pessoas, como no descomissionamento de barragens ou na retirada de rejeitos em locais sob risco de desabamento: “Trata-se de um mercado que exige esse tipo de tecnologia [de veículos não tripulados]”.
Até então a companhia utilizava caminhões com adaptações mecânicas para que pudessem realizar o trabalho por controle remoto. Esses veículos, no entanto, cometiam erros, porque foram os primeiros a desempenhar missões do tipo com tecnologia ainda não aperfeiçoada.
Havia atraso de comunicação nos comandos do joystick e a reação do caminhão era irregular. “Conseguimos deixar esse atraso estável. Por exemplo: eu freava o caminhão pelo joystick e depois de 3 segundos ele reagia. Em outro momento demorava 5 segundos. Isso acontecia por causa do sistema de rádiocontrole utilizado. Hoje esse tempo [de latência] é sempre o mesmo, embora a transmissão também seja feita por rádio, pois temos uma conexão direta [com os sistemas do veículo]”, explica Medina.
Também houve ganho com o aumento da distância que o caminhão pode ser operado remotamente, agora de até 2 quilômetros, contra não mais que 1,5 quilômetro com o uso do sistema anterior. Isso reduz o risco de perda de controle do equipamento.
“A distância máxima depende das características do local de operação. Quanto mais limpo o ambiente melhor a qualidade do sinal. Ambientes com muita interferência podem diminuir o raio de distância do operador ao caminhão.”
André Medina, gerente de inovação da Andrade Gutierrez: “Nós conectamos o veículo à tecnologia”.
Agilidade – A alternância imediata de veículo tripulado para não tripulado era outro grande desafio, lembra Medina: “Nos equipamentos de que dispúnhamos, para mudar o modo de controle eram necessárias alterações mecânicas e isso demorava muito tempo, perdíamos produtividade. E o veículo não podia rodar em estrada pois não era homologado para tal”.
Com o uso do modelo FMX da Volvo, que tem sistema de direção inteligente VDS instalado de fábrica, a transmissão de dados de operação é recebida diretamente pelos sistemas eletroeletrônicos do veículo, sem necessidade de instalar atuadores mecânicos. Basta virar uma chave para alternar o modo tripulado ou não tripulado.
O executivo relatou que é possível controlar o veículo mesmo sem visualizar o local onde ele está, pois sete câmeras monitoram todo o entorno do caminhão e transmitem as imagens ao operador distante, inclusive para acompanhar o levantamento de báscula, carregamento e descarregamento.
Embora o caminhão possa ser adquirido para ser usado de forma tripulada quem detém o know-how para transformá-lo em não tripulado é a Andrade Gutierrez, a Volvo e a ACR: “Nós conectamos o veículo à tecnologia”. Ele não informou o investimento realizado para desenvolver o sistema.
Medina lembrou que já existia tecnologia bastante avançada desse tipo em uso no País para máquinas de construção, como tratores e escavadeiras não tripuladas, mas não para caminhão – a não ser modelos sem cabine, o que não atendia à necessidade da companhia.
Próximos passos – O objetivo agora, de acordo com Medina, é conseguir ganhar produtividade quando se trabalha com mais de um equipamento ao mesmo tempo, para que o mesmo operador possa dirigir à distância até cinco veículos simultaneamente. Enquanto uma retroescavadeira enche a caçamba de um deles, por exemplo, outro pode se deslocar e se revezar. E ao sair da área de risco um motorista já pode assumir rapidamente a direção para realizar o descarte dos rejeitos.
“Outra grande vantagem em operar de forma não tripulada, além de preservar a vida, é a possibilidade de trabalho remoto, pois com o tempo que demoraria até chegar à frente de serviço eu poderia já estar operando. Queremos contratar PCDs [pessoas com deficiências] para essa função. Alguém que tenha problema de mobilidade na perna e que não conseguiria tripular um caminhão pode movimentá-lo pelo joystick.”
Caminhão não tripulado é controlado por joystick a até 2 quilômetros de distância
O gerente de inovação da Andrade Gutierrez contou que foram adquiridos dez caminhões Volvo para oferecer o serviço aos clientes: “Acredito que no mercado de mineração somos pioneiros em apresentar essa solução”.
André Medina afirmou que já estão em negociação para a oferta desse serviço: “Comparando com caminhões não tripulados existentes nós temos o melhor custo-benefício. Ao torná-lo não tripulado o valor dele é dobrado, mas o da Andrade Gutierrez tem incremento de 60%”.