São Paulo – Apesar do notório aquecimento do mercado de caminhões e de implementos a produção afetada por falta de componentes não será capaz de atender a toda a demanda. Passados quase oito meses de 2022 as fábricas das empresas conseguiram aumentar o ritmo, mas o resultado do ano já foi comprometido. Por isto esperam, no máximo, por um honroso empate com o volume de vendas de 2021 – o que pode ser considerado bom diante das adversidades produtivas.
Este ano será realizada a Fenatran, de 7 a 11 de novembro, que terá casa cheia de expositores e compradores no São Paulo Expo, ao mesmo tempo em que antecede o lançamento de caminhões mais caros, com motorização Euro 6, para atender à nova fase da legislação brasileira de emissões para veículos pesados, o Proconve P8, que entra em vigor a partir de janeiro de 2023.
Em tempos normais, sem limitações de produção, estes dois fatores combinados poderiam gerar um boom de vendas, como aconteceu em 2011, quando os clientes correram para comprar caminhões mais baratos Euro 3 antes da entrada em vigor do Proconve P7 com os modelos Euro 5, e houve recorde histórico do mercado nacional de caminhões, com 173 mil unidades vendidas naquele ano.
Hoje a avaliação é que nem mesmo estes dois fatores concomitantes serão capazes de recuperar a produção perdida. Em evento de pré-lançamento da Fenatran, realizado na terça-feira, 23, na sede da NTC&Logística, Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística, em São Paulo, os presidentes das associações setoriais participantes da feira reafirmaram suas projeções revisadas em julho passado: por falta de estoques de modelos Euro 5 não será possível atender integralmente a qualquer movimento de pré-compra de caminhões e os resultados devem ser assemelhados aos de 2021.
Desempenho lento – Este ano, de janeiro a julho, foram emplacados 69,2 mil caminhões no País, o que revela pequena queda de 2,2% na comparação com o mesmo período de 2021. A Anfavea, que reúne os fabricantes de veículos, espera que o aumento de ritmo nos meses finais de 2022 recupere um pouco o desempenho e as vendas deste ano venham a somar de 128 mil a 130 mil caminhões, o que equivale a crescimento insignificante de 0,5% a 1% sobre o ano passado.
Os fabricantes de implementos rodoviários, carretas e carrocerias de carga, que costumam rodar pari passu, ou lado a lado, com o mercado de caminhões e também estarão em peso na Fenatran, têm projeções parecidas. Apesar de não terem a mesma dependência de semicondutores para produzir também enfrentam desde 2021 a falta de alguns insumos, especialmente pneus.
Segundo dados da Anfir, entidade que reúne os fabricantes de implementos, no primeiro semestre deste ano foram vendidos 75 mil unidades leves e pesadas, o que significou leve recuo de 2,3% sobre o resultados do mesmo período de 2021. Com isto a entidade, que no início deste ano projetava crescimento de 10%, agora também prevê empate com 2021, com a venda de 165 mil unidades.
Presente no evento de pré-lançamento da Fenatran, José Carlos Spricigo, presidente da Anfir, considerou que este “é um número bom, ficamos felizes com ele, porque repete 2021 e mostra a superação das dificuldades que tivemos para produzir este ano”.
Este ano, segundo Spricigo, os resultados dos dois principais segmentos de implementos, leves e pesados, devem se inverter. Em 2021 o maior crescimento do setor veio das vendas de carretas e em 2022 a projeção da Anfir é de 80 mil unidades, o que significa queda de 10% sobre o ano passado. Já o segmento de carrocerias sobre chassis, que teve retração um ano atrás, agora deve crescer de 11% a 12%, para 85 mil unidades.
Cláudio Sahad, presidente do Sindipeças, que reúne cerca de quinhentos fornecedores da cadeia automotiva, disse que está mais otimista do que seus interlocutores que participaram do mesmo painel na NTC&Lógística: “Tivemos um primeiro semestre surpreendente, com aumento de 26% no faturamento de componentes às montadoras, as exportações de autopeças cresceram 6% e o fornecimento ao mercado de reposição avançou 13%. Por isto acho que a produção crescerá e que poderá atender aos pedidos de antecipação de compras de clientes que querem evitar os aumentos do Euro 6. Isso ainda pode puxar o resultado do segundo semestre e o ano pode surpreender”.
Produção – O Sindipeças estima que as montadoras produzirão 154 mil caminhões este ano, em linha com as projeções dos fabricantes, “isto porque temos exportações crescentes [de caminhões] para países como Chile e Peru, o que deve garantir a produção de 150 mil a 154 mil”, contou Márcio de Lima Leite, presidente da Anfavea.
“Depois de tantos problemas existe uma mudança de pensamento: a pró-localização. Aqui não houve falta de peças, nenhum fornecedor no Brasil deixou de fornecer. As empresas estão vendo que é melhor ter um fornecedor ao lado do que do outro lado do mundo”, observou Sahad. “Isso também nos dá uma oportunidade de ouro de ser um porto amigável que pode fornecer para o mundo inteiro. Mas para isto precisamos trabalhar ombro a ombro com o governo para melhorar nosso ambiente de negócios.”
“Temos defendido a localização da produção de componentes e o Sindipeças é parceiro da Anfavea nesta proposta”, afirmou Leite, da Anfavea. “O mundo está indo para a eletrificação e o Brasil poderá abastecer muitos países com carros com motor a combustão que continuarão sendo necessários por pelo menos mais vinte anos à frente. No caso de veículos pesados também temos tecnologias para descarbonizar as emissões e elas passam por muitas rotas tecnológicas que dependem da aplicação e da região: pode ser a eletrificação nas cidades e os biocombustíveis, como o HVO e biometano, em longas distâncias.”