Marca ajusta estratégia para enfrentar concorrência maior em momento que a fábrica de Goiana opera no topo de sua capacidade
Mendoza e Potrerillos, Argentina – No ano em que, pela primeira vez, mais de 1 milhão de SUVs deverão ser vendidos no mercado brasileiro, com participação nas vendas de veículos leves acima dos 40%, a Jeep, marca que se dedica 100% ao segmento, traça planos para defender um território em boa parte sob seu domínio desde que começou, há dez anos, a produzir seus veículos no Brasil, na fábrica de Goiana, PE, inaugurada em 2015.
A demanda por SUVs no País cresceu tanto quanto o número de concorrentes neste segmento do mercado, o que foi turbinado pela chegada, nos últimos cinco anos, dos modelos elétricos e híbridos chineses.
“Em vinte anos no mercado nunca vi tantos lançamentos de SUVs”, afirmou o vice-presidente responsável pela marca Jeep na América do Sul, Hugo Domingues, em entrevista durante o lançamento do Commander 2026, na Argentina. “Só este ano já conto 23 lançamentos de SUVs, treze deles chineses nas categorias C-SUV [médios] e D-SUV [grandes, o segmento do Commander]. Diante disto é claro que precisamos ajustar as estratégias.”
Além de reestilizar os modelos e ampliar o pacote de tecnologias embarcadas a Jeep também aplica uma política mais agressiva de preços, com manutenções e até mesmo cortes relevantes com relação a versões anteriores – o Compass 2026 foi lançado com reduções de até R$ 20 mil e no caso do Commander 2026, o mais caro e sofisticado da linha de produtos nacionais e, portanto, com mais gordura para queimar, os descontos foram aplicados em todas as suas cinco versões, variando do mínimo de R$ 6 mil ao máximo de R$ 16 mil, este aplicado justamente sobre a opção mais cara da gama.
Mesmo assim a ideia com isto não é ampliar muito o terreno da marca, mas apenas defendê-lo, porque a fábrica de Goiana não tem capacidade para produzir muito mais do que as 160 mil unidades programadas para este ano dos três modelos Jeep nacionais, 130 mil para o mercado brasileiro e o resto para exportação para países da América do Sul.
Manter a fatia, no caso da Jeep, é segurar uma porção em torno de 5% das vendas totais do mercado brasileiro, e parcela de 12% a 15% do segmento de SUVs. Disse Domingues: “Se pudesse até venderia mais, mas estamos no máximo que a capacidade da fábrica pode nos entregar no momento”.
A grande maioria das vendas da Jeep é feita com a rentabilidade do varejo, inclusive aquelas com faturamento direto da fabricante a pequenos empresários são negociadas dentro das 248 concessionárias no País. O porcentual de negócios com locadoras, segundo o vice-presidente, “é muito baixo, algo como 7,5% a 8% do total este ano, não mais que 10 mil unidades”, volume bastante abaixo da média geral do mercado de locadoras, que em 2025 deve consumir de 650 mil veículos, de 20% a 25% do total projetado de vendas para o ano.
Segundo o executivo a Jeep está melhor posicionada dentre os C-SUVs, os médios, representada pelo Compass, que detém 28% das vendas do segmento. Dentre os pequenos B-SUVs – a mais concorrida do mercado com mais de quinze modelos na disputa, mas com pouca concorrência chinesa – o Renegade tem atualmente cerca de 8% das compras.
Já o Commander, na categoria dos D-SUVs grandes, divide quase que por igual as preferências com os outros dois concorrentes de sete assentos, mas no primeiro semestre deste ano ficou poucas centenas de unidades atrás do Caoa Chery Tiggo 8 e registrou 1 mil emplacamentos a menos que o Toyota SW4.
Os modelos nacionais híbridos da Jeep – o primeiro deles chega em 2026 – devem ajudar na disputa mas Domingues avalia que não deverão alterar muito o mix de vendas, pois os SUVs a combustão ainda representam de 75% a 80% das vendas do segmento no País: “Teremos várias tecnologias de híbridos e vários modelos, vamos ajustar de acordo com o mercado”.
Avenger vem aí
Avenger: SUV compacto será produzido em Porto Real, RJ, a partir de 2026. (Foto: Divulgação/Jeep)
A principal aposta da Jeep para, de fato, turbinar suas vendas no País será o início da produção nacional do Avenger, prevista para o ano que vem. O modelo compacto posiciona melhor a marca no segmento que mais cresce no Brasil, o de B-SUVs, e será produzido na fábrica da Stellantis em Porto Real, RJ, o que já o livra do problema da limitação de capacidade vivido em Goiana.
Na Europa o Avenger também tem versões híbridas disponíveis: “Lá o modelo é um sucesso, está faltando carro para entregar”.
Ele espera repetir no Brasil o mesmo sucesso que o SUV compacto está fazendo no primeiro país sul-americano a recebê-lo, o Chile, que não cobra imposto de importação e há dois meses começou a trazer o modelo de fábrica na Polônia: “Com o Avenger quase que dobramos nossa participação no mercado chileno. E lá 60% das vendas são do modelo a combustão com câmbio manual”.