São Paulo – Após 28 anos a Toyota encerrou mais um capítulo em sua história: na sexta-feira, 19, saiu da linha de montagem o último sedã Corolla fabricado em Indaiatuba, SP, versão topo de linha Altis Premium híbrido 2026 na cor prata, colocando ponto final no processo de fim das atividades da unidade anunciado em março de 2024 e que terá suas portas fechadas, efetivamente, em 30 de junho.
Vencido o período de negociações, que envolveu paralisação, realocação de ferramental para outras fábricas e resultou no mais robusto acordo de PDV, programa de demissão voluntária, já visto no setor, com o pagamento de 45 salários mais dois por ano trabalhado, 36 meses de de vale-alimentação e 36 meses de convênio médico, adicionais à rescisão do contrato, 1 mil 470 funcionários seguiram trabalhando no chão de fábrica até a quarta-feira, 24, quando entram em licença remunerada até 1º de julho, dia em que o vínculo com a companhia chegará ao fim.
De acordo com Derci de Lima, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região, que abrange Indaiatuba, e funcionário da Toyota desde a inauguração da unidade, em 1998, agora só estão trabalhando no local aqueles profissionais designados para realizar o inventário de máquinas, equipamentos, móveis e outros objetos. Do efetivo total, 220 operários tinham lesão por acidente de trabalho, afirmou o sindicalista, e, destes, 150, ou cerca de 10% dos empregados, aceitaram a transferência para Sorocaba, SP, distante cerca de uma hora de Indaiatuba.
“Dependendo de como for e se tiver trânsito, pode dobrar este tempo. Não será algo viável.”
Outros quatrocentos empregados têm contrato temporário que se encerra em 2 de julho e, o restante, quase 1 mil pessoas, aderiram ao PDV. E, de acordo com o sindicalista, a maior parte das pessoas investirá o dinheiro ou empreenderá, mas não voltará ao chão de fábrica. Uma parcela foi aplicada para aproveitar o desconto a funcionários, de 15%, em um Corolla para chamar de seu.
“Inclusive eu, que tenho sequela por acidente de trabalho e que aqui, em Indaiatuba, tinha o direito à estabilidade até a aposentadoria, aceitei o PDV. Mas, em Sorocaba, a convenção é outra, dá este direito por 48 meses após o afastamento. Por isto foi feito acordo para que aqueles que fossem transferidos tivessem estabilidade até 2029, como um meio termo das duas fábricas.”
Isto justificou o fato de 30% dos lesionados terem aceitado o PDV, que a este grupo concedeu, adicionalmente, dois anos de convênio médico. Lima contou que, como está em vias de se aposentar, o melhor caminho foi integrar o programa de demissão voluntária.

Corolla foi quase o único carro produzido
Ao longo das quase três décadas de operação o Corolla reinou em Indaiatuba. Apenas por um curto período a Fielder, station wagon derivada do sedã, compartilhou o espaço, de 2004 a 2008. Com sua fabricação concentrada em Indaiatuba nos últimos meses estavam saindo da linha de produção 230 unidades/dia, sendo 117 no turno do dia e 113 no da noite, com o objetivo de formar estoque.
Somente este ano foram produzidos 23 mil unidades da décima-segunda geração do sedã no local. Com a decisão da empresa de migrar a produção do modelo para uma nova fábrica que abrirá as portas em Sorocaba apenas em novembro a produção estava dedicada a garantir veículos prontos até lá. A outra unidade produtiva na cidade, no mesmo terreno, fabrica o Corolla Cross e o Yaris Cross.
O que motivou a transferência, prevista no novo ciclo de investimentos anunciado há dois anos, de R$ 11,5 bilhões, segundo a Toyota, foi que, ao realizar projeção de um novo veículo para Indaiatuba, a unidade não oferecia condição de expansão.
Isto, segundo Derci de Lima foi motivo de grande insatisfação, pois havia a expectativa de que a produção de picape inédita híbrida, ainda não oficialmente anunciada pela Toyota, ocorresse justamente em Indaiatuba: “No começo o sentimento de perda, revolta e até mesmo de traição tomou conta do chão de fábrica. Todo mundo aguardava com ansiedade pelo projeto da picape”.

Carro foi escolhido estrear na América Latina
O carro que levou o nome de Indaiatuba para o mundo foi escolhido para estrear em solo latino-americano. À época a Toyota considerou aspectos logísticos e de qualificação da mão de obra para adquirir terreno de 1,5 milhão de m² receber posterior investimento de US$ 150 milhões.
As primeiras unidades do Corolla desembarcaram no Brasil em 1994, quatro anos após o início da abertura de importação no segmento de automóveis no País. E, em 1996, teve início a construção da fábrica, sendo que em setembro de 1998 foi produzido o primeiro Corolla brasileiro. De lá para cá 1,5 milhão de unidades saíram desta linha de produção.
Na virada do século foram injetados outros US$ 300 milhões para modernizar e ampliar o espaço, e preparar para a fabricação da nona geração do sedã. Foi justamente o sucesso do Corolla, que até 2004 acumulou produção de 100 mil unidades, que estimulou a ideia de lançar a Fielder, o que consumiu mais US$ 15 milhões. Em 2007 outros US$ 15 milhões estrearam a linha flex dos modelos.
Quando celebrou vinte anos foi anunciado mais um investimento, de R$ 1 bilhão em dezoito meses com o objetivo de preparar a unidade, num processo de modernização, para se tornar mais flexível e competitiva. Foi o primeiro investimento da indústria automotiva após o anúncio do programa Rota 2030.
No entanto agora a fábrica, que tornou-se a mais antiga da Toyota no País, após o fechamento da unidade de São Bernardo do Campo, SP, em 2023, após 61 anos de história, será desativada – até o momento não há informações sobre o futuro do espaço, se será comercializado ou se a montadora o utilizará com outra finalidade.
A montadora limitou-se a dizer que, “neste momento, a prioridade é concluir a transferência das operações e cuidar das pessoas envolvidas no processo. A destinação futura do site de Indaiatuba será definida
oportunamente”.
Quanto ao último Corolla produzido em Indaiatuba recebeu a assinatura dos operários que o fabricaram, durante evento realizado no sábado, 20, como marco do fim deste ciclo, e será exposto no Visitor Center, museu mantido em Sorocaba.




