Desenvolvimento em conjunto para ter peças únicas ajudaria a dar escala à cadeia

São Paulo – Trabalhar nos desenvolvimentos de seus veículos em conjunto, de modo a aproveitar a mesma especificação de determinado componente para modelos de mais uma marca, foi uma das alternativas levantadas por Ivan Witt, presidente da consultoria W1, durante sua apresentação no 5º Congresso Latino-Americano de Negócios da Indústria Automotiva, realizado por AutoData até a sexta-feira, 15.

Para o consultor, que tem anos de experiência na indústria, a alternativa geraria escala na cadeia, mais produção e menos custo. “As montadoras poderiam ter especificações em comum para os seus veículos, aumentando a escala dos seus fornecedores e reduzindo custos produtivos, o que poderia afetar positivamente o preço final. A Stellantis já faz isso nas plataformas de suas marcas. Mas é um tema polêmico quando se fala de empresas diferentes, porque cada uma quer fazer do seu jeito”.

Ganhar competitividade e aumentar as vendas é considerado de extrema importância por toda a cadeia automotiva pois, hoje, as concessionárias sofrem com o menor volume de vendas na comparação com a quantidade de lojas instaladas no País. A falta de um produto acessível e de volume é um entrave relevante para esta questão: um veículo de entrada no País custa em torno de R$ 70 mil e as marcas estão focando cada vez mais em SUVs, com tíquete médio maior.

Para um futuro mais distante Witt acredita que a indústria precisa focar no desenvolvimento do híbrido flex e trabalhar para ofertar a solução de mobilidade limpa como uma solução para países que não terão condições financeiras de acompanhar a eletrificação que acontece na China, Europa e Estados Unidos: “Podemos nos posicionar como o maior fabricante e exportador de veículos de baixa emissão”.

Se o Brasil conseguir tornar-se base exportadora, começaria a fazer sentido para as montadoras investirem em plataformas diferentes das globais, para atender a partir daqui demanda pelos híbridos flex em diversos países do mundo, afirmou Witt. Ele ponderou, porém, as dificuldades e concorrências de outros países, como a Índia, para aproveitar esta fatia de mercado, e possíveis entraves cambiais para conseguir os investimentos necessários para avançar.

Leilão do Caminho da Escola é adiado para adequação de regras

São Paulo – Previsto para a terça-feira, 12, o leilão do programa federal Caminho da Escola foi adiado, ainda sem nova data. A nova etapa, que prevê a compra de 16,3 mil ônibus e era aguardada com ansiedade pelas fabricantes de chassis e carroceria, teria seus efeitos sentidos apenas em 2024 por causa do tempo necessário para a produção do ônibus.

A razão é técnica: pelo edital da licitação publicado no fim do mês passado apenas uma fabricante de chassi, a Volkswagen Caminhões e Ônibus, poderia fornecer os ônibus. É a única a deter um dos certificados exigidos, de acordo com o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Moisés Selerges.

“Este certificado, em outras licitações, era exigido apenas nas entregas dos ônibus. Neste edital passou a ser solicitado agora e, no momento, apenas uma empresa o detém”.

O metalúrgico se reuniu com o ministro do MDIC, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, para explicar a situação e solicitar alterações no texto para que outras empresas, como Iveco e Mercedes-Benz, que no passado forneceram chassis para o programa, pudessem participar da nova licitação. De acordo com Selerges, o ministro entendeu as reivindicações do sindicato.

“Nós, metalúrgicos do ABC, entendemos que este projeto é importante porque trabalha com duas vertentes: a política industrial e social. O Caminho da Escola integra ônibus que transportam o futuro do Brasil, nossas crianças. A geração de emprego e renda também são muito importantes nesse projeto, pois não se trata de um produto de prateleira mas, sim, de uma demanda com suas especificações e certificados.”

Nota do Editor: Após a publicação da reportagem a Iveco entrou em contato e informou, por meio de nota, que “reúne todas as condições de participar desse processo de concorrência pública e que cumpre todos os requisitos necessários para participar da licitação” do Caminho da Escola. “A empresa tem longa tradição de participação no Programa Caminho da Escola e o considera de fundamental importância para que crianças de todo o país tenham acesso à educação básica de forma segura.”

Rota 2030 passará a ser chamado Mobilidade Verde 

São Paulo – A nova etapa do Rota 2030, em discussão no MDIC, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, foi rebatizada, segundo fontes ligadas à negociação afirmaram à reportagem da Agência AutoData: o programa passará a ser chamado Mobilidade Verde. Sua publicação é prometida para até o fim deste mês.

Uma reunião para debater o programa foi realizada na segunda-feira, 11, em Brasília, DF, com a presença de representantes do governo, indústria e trabalhadores. A mudança de denominação tem como objetivo destacar a mobilidade sustentável, um dos principais pilares da nova etapa do ex-Rota 2030.

Na semana passada o presidente da Anfavea, Márcio de Lima Leite, adiantou que temas estão em debate há alguns meses, como a mudança da medição das emissões para uma equação do poço à roda, pegando todas as etapas do ciclo do uso do combustível – hoje a mensuração é apenas do tanque à roda. A alteração favorece os veículos flex, que podem ser abastecidos com etanol, combustível com parte de suas emissões compensadas durante sua produção.

Como já ocorreu na primeira etapa será prometido desconto nos impostos para as empresas que cumprirem todas as metas e àquelas que excederem as metas. Os que não conseguirem alcançá-las pagarão multa. Na primeira fase todos atenderam às exigências.

O incentivo à pesquisa e desenvolvimento continuará sendo parte importante do programa, com a promessa do ministro do MDIC, Geraldo Alckmin, de desconto tributário para quem investir em inovação dentro das diretrizes estabelecidas pelo Mobilidade Verde.

Randoncorp amplia leque de testes no seu CTR

São Paulo – A Randoncorp investe R$ 16 milhões no seu CTR, Centro Tecnológico Randon, para ampliar a estrutura de testagem. Testes de Sistemas ADAS, sigla em inglês para sistemas avançados de assistência ao consumidor, laboratório de testes de segurança passiva e de durabilidade acelerada em laboratório estão contemplados no investimento.

A ideia, de acordo com seu executivo responsável, César Augusto Ferreira, é acompanhar a evolução da mobilidade e as demandas da indústria automotiva.

“São investimentos que nos possibilitam a realização de um conjunto ainda maior de ensaios, incluindo a avaliação de veículos completos. A nova estrutura trará maior agilidade no desenvolvimento e validação de novos produtos, com sensível redução de prazos e custos.”

Vendas financiadas em agosto foram as melhores desde dezembro de 2020

São Paulo – Em agosto as vendas financiadas de automóveis, veículos comerciais leves e pesados e motocicletas, novos e usados, somaram 550 mil unidades, de acordo com levantamento da B3. O volume representou aumento de 11,8% sobre julho e de 11,9% com relação a agosto do ano passado.

Em veículos leves o crescimento foi de 6,2% na comparação mensal e de 8,2% na anual. Em pesados, 15,8% acima de julho e 3,6% abaixo de agosto de 2022. As motocicletas puxam o crescimento: 30,6% sobre o mês anterior e 28,2% na comparação com o mesmo mês do ano passado.

“Registramos o maior número de veículos financiados desde dezembro de 2020”, afirmou Gustavo de Oliveira Ferro, gerente de planejamento e inteligência de mercado na B3. “Destaque especial para o segmento de motocicletas, que atingiu um total de 134 mil unidades financiadas”.

No ano as vendas financiadas já somam 3,8 milhões de unidades, alta de 7,4% sobre o período de janeiro a agosto de 2022, ou 264 mil unidades a mais.

BMW amplia capacidade de produção em Manaus

São Paulo – A fábrica da BMW Motorrad em Manaus, AM, ampliou sua capacidade de produção de 15 mil para 17 mil unidades por ano. O ganho de 13% decorre do investimento de R$ 50 milhões realizado pelo Grupo BMW no ano passado.

O diretor da fábrica, Alex Donatti, contou que o objetivo é expandir ainda mais a quantidade de motos produzidas ali, em 33%, para 20 mil unidades. O aporte inclui também a ampliação da área de 10 mil m² para 15 mil m² com a inauguração do Prédio 3 da unidade. Melhorias em sustentabilidade também geraram queda de 35% nas emissões de CO2.

O investimento inclui ainda reforço de portfolio com a BMW F 900 R, em produção desde novembro, e a nova S 1000 RR, a partir de março. Até 2025 mais cinco modelos serão lançados, com a scooter BMW C 400 X ainda este semestre.

Marcello Braga assume o marketing da Jac Motors

São Paulo – A Jac Motors anunciou Marcello Braga como seu novo diretor de marketing. A função foi criada para reposicionar a marca no mercado a partir de 2024 e para promover mudanças de produtos nos próximos meses. O executivo se reportará a Sérgio Habib, presidente do Grupo SHC e da JAC Motors Brasil.

Formado em administração de negócios pela Universidade de Boston, nos Estados Unidos, e com especializações em Sevilha, Espanha, e em Paris, França, Braga possui duas passagens pelo Grupo Caoa, em que trabalhou com as marcas Hyundai, de 2002 a 2006, como gerente de marketing, e com a Caoa Chery, de 2017 a 2023, como diretor de marketing.

Regimes especiais correm risco com a reforma tributária em tramitação

São Paulo – A reforma tributária, seus benefícios e pontos de atenção foram debatidos durante o primeiro dia do 5º Congresso Latino-Americano de Negócios do Setor Automotivo, realizado por AutoData. Em painel que contou com a presença de Paulo Paiva, vice-presidente de produtos e consultoria da Becomex, e Marcus Vinícius Slemenian, sócio líder de Impostos da KPMG no Brasil e América do Sul, foi dito que a reforma resolverá parte do custo Brasil e simplificará o sistema tributário, criando dois novos impostos, CBS e IBS, para substituir cinco atuais: IPI, Cofins e PIS no âmbito federal e ICMS e ISS no âmbito estadual e municipal.

A grande questão é como tratar os regimes especiais, que para Paiva precisam ser vistos de forma ampla: “Não há como fazer uma reforma sem incluir ISS e ICMS, por exemplo, para que seja possível colocar o País em igualdade na questão tributária”.

Ele acredita que desta forma a legislação nacional se aproximará de outros países que competem globalmente com o Brasil, melhorando a competitividade. 

Slemenian, da KPGM, disse que hoje, do jeito que a PEC transita no Senado, caso seja aprovada, a possibilidade maior é a de que os regimes especiais ligados ao setor automotivo deixem de existir até 2032, quando toda a reforma tributária estiver em operação: “Para que eles sejam mantidos é necessário um esforço para alteração da PEC para contemplar esta possibilidade. Hoje o único regime que está totalmente protegido na reforma é o da Zona Franca de Manaus”.

Os dois palestrantes concordam que a busca por uma forma de manter algum tipo de incentivo para que a industrialização se espalhe por todo o País é muito importante, caso contrário poderá gerar concentração ainda maior nas regiões que possuem mais estrutura e mão de obra. Mas para isto o governo federal deverá buscar meios de equalizar as contas e a competitividade dos estados.

A disputa dos estados para atrair a instalação de novas empresas e novos investimentos também continuará, com a decisão no âmbito federal, sem que cada Estado tenha sua própria política de recolhimento de impostos. E, caso um deles decida reduzir um determinado imposto, a decisão valerá para toda a indústria instalada e não apenas para uma empresa ou setor. 

A manutenção dos regimes especiais é um ponto de atenção, mas também existem temas cinzentos na reforma tributária e que são de interesse das montadoras, como o crédito acumulado dos impostos de exportação. A reforma prevê um mecanismo quase automático de devolução dos créditos. A grande questão é o valor que cada empresa já possui acumulado, pois a reforma projeta a devolução em vinte anos a partir de 2033, cenário que não é dos melhores, mas com o saldo corrigido. 

A possibilidade de o governo federal poder criar no futuro um imposto seletivo adicional, para determinados segmentos, também é um ponto que deve ser monitorado, porque pode gerar impacto na indústria automotiva e em outras que não produzem bens essenciais.

Exportação de autopeças para blocos regionais é saída para manter setor

São Paulo – Frente ao período de transição global para a eletrificação é uníssona a avaliação de que o caminho a ser trilhado por Brasil e Argentina será o de veículos híbridos, além dos tradicionais dotados de motores a combustão, que deverão ter vida longa, uma vez que a participação dos movidos a bateria no mundo é de 1,8% e que o período mínimo para a renovação da frota global, de 1,4 bilhão de unidades, supondo que todos os novos veículos fossem elétricos, seria de 17,6 anos. Dentro da realidade factível e esperada, de que 30% sejam a bateria, serão necessários 58,8 anos. Dito isto a exportação de autopeças para blocos regionais é projeto que deve ser intensificado a fim de que sejam atraídos olhares, demanda e investimentos.

Foi o que avaliaram os presidentes da Afac, Associação de Fábricas Argentinas de Componentes, Norberto Taranto, e do Sindipeças, Cláudio Sahad, durante o primeiro dia do 5º Congresso Latino-americano de Negócios do Setor Automotivo, realizado pela AutoData de forma online até a sexta-feira, 15.

Sahad apontou que de 2019 a 2022 os blocos regionais representaram 90% das exportações de autopeças. Destaque para a América do Sul, que consumiu metade do volume no ano passado, que rendeu US$ 4,1 bilhões – enquanto três anos atrás a fatia era de 34,2% e quem liderava as encomendas eram Estados Unidos, Canadá e México, com 36,8%. No ano passado o USMCA, antigo NAFTA, comprou 26% do total ou US$ 2,1 bilhões.

Neste período a União Europeia recuou de 16,6% para 13,6%, ou US$ 1,1 bilhão, os Brics também, de 3,2% para 2,8%, ou US$ 231 milhões, e demais países da América Latina, exceto o México, de 1,6% para 0,8%, ou US$ 69 milhões.

“O potencial é enorme e, para impulsioná-lo, é preciso estabelecer, imediatamente, o acordo com a União Europeia, a fim de expandir as exportações, incluir o setor automotivo no acordo do Mercosul e, claro, melhorar as condições internas de competitividade para reduzir o custo de produção. E assim fazer com que as multinacionais concentrem suas produções de motores aqui à medida que os países europeus e os Estados Unidos forem avançando à eletrificação até 2035.”

Outro dado apresentado pelo dirigente do Sindipeças foi que neste mesmo período, de 2019 a 2022, 11,6% das exportações totais de autopeças foram de motores e 26,4% de componentes para motores. Neste ano até junho os motores representaram 11% e seus componentes 22,8%.

“Com este potencial e diante do fato de que até 2050 só deverão restar três mercados com fabricação de motores a combustão, Brasil, Índia e China, sendo que os chineses deverão concentrar esforços nos elétricos, isto pode trazer receita que permita que as fabricantes invistam em tecnologia e inovação e assegurem sua sobrevivência.”

Taranto apontou que Brasil e Argentina complementam suas produções, uma vez que o país vizinho tem vocação para picapes e também tem a intenção de intensificar sua fabricação – atualmente apenas 55% da capacidade instalada de 1 milhão de unidades atuais é utilizada: “O futuro para a nossa região será híbrido, não há dúvidas. Se no mundo 1,8% da frota é elétrica na Argentina o porcentual é de 0,15%”.

Ele chamou a atenção, também, para o fato de que a fatia de mercado dos eletrificados no mundo avançou de 0,2% em 2013, com 206 mil unidades, para 13%, com 10,5 milhões, em 2022, crescimento que deve ser mantido na casa de 50% por ano.

O dirigente da Afac lembrou a participação dos dois países na produção mundial de veículos. Ambos mantiveram seus porcentuais, Brasil com 2,8% e Argentina com 0,6% ao longo de duas décadas, apesar de a quantidade fabricada ter saltado de 1,6 milhão para 2,3 milhões de veículos, no caso brasileiro, e de 340 mil para 537 mil no caso argentino.

Embora houvesse picos, como em 2010, quando Brasil alcançou 4,3% de representatividade devido a 3,3 milhões de unidades anuais e a Argentina com 0,9%, 717 mil unidades, a China saltou de 4% para 32% de 2000 a 2022, de 2 milhões para 27 milhões de veículos por ano.

“Precisamos ser mais competitivos para absorver a produção de países que deixarão de fabricar veículos e componentes a combustão e impulsionar a nossa, pois o motor a combustão terá vida longa tanto em OEM como na reposição.”

Produto brasileiro perde espaço na América Latina

São Paulo – Os veículos produzidos no Brasil estão perdendo espaço nos países vizinhos onde, pela distância, deveriam ser opções naturais. Como mostrado em estudo feito pela Anfavea no ano passado os modelos produzidos na China representaram 21,2% das importações dos países latino-americanos, enquanto os brasileiros ficaram com fatia de 19,4%. Há dez anos a porcentagem era 4,6% e 22,5%, respectivamente.

“Países da Ásia aumentaram, nos últimos anos, sua produção visando à exportação. Enquanto isso o Brasil andou de lado, perdeu competitividade e passou a perder espaço em sua própria região”, disse Márcio de Lima Leite, presidente da Anfavea, em sua palestra no 5º Congresso Latino-americano de Negócios do Setor Automotivo, organizado pela AutoData. “Este ano o mercado global de veículos cresce em torno de 7%. No Brasil e na Argentina as vendas ficarão em torno de 1,3% maiores.”

A solução para crescer a produção nestes dois países, portanto, é ganhar espaço nos mercados vizinhos. Mas, como mostrado por Lima Leite, o que vem ocorrendo é justamente o contrário.

Para o presidente da Anfavea o preço é questão importante. No Brasil, segundo ele, o custo aumenta de forma estrutural. A reforma tributária, que tramita no Congresso, ajudaria a eliminar parte das distorções: “A premissa desta reforma tributária é tributar o consumo. Hoje o Brasil exporta impostos que incidem sobre a folha de pagamento, por exemplo”.

Ganhar espaço na América Latina, e em outros mercados-alvo como a África, ajudaria ao Brasil a ter maior escala que, junto com correções de tributos, poderia elevar a competitividade do produto nacional. Hoje a batalha é dura: “Destas importações que citamos muitas são feitas por matrizes de montadoras já instaladas aqui. Em alguns casos é mais vantajoso importar de outros locais do que do Brasil ou da Argentina”.