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26/09/2016

Indústria pede mais previsibilidade para lidar com o legado de Dilma

Por Michele Loureiro

- 26/09/2016

Há pouco mais de vinte dias, Dilma Rousseff deixou oficialmente de ser presidente do Brasil depois da conclusão do processo de impeachment. Apesar do cenário político conturbado dos últimos meses, Dilma deixou um legado para a indústria automotiva – é inegável que os veículos ganharam eficiência energética e o número de fábricas instaladas no País subiu de 54 para 67 no período. Mesmo vivendo uma queda de 23,1% nas vendas de veículos no acumulado de 2016, em comparação com 2015, algumas conquistas do último governo serão importantes para ajudar na recuperação da indústria.

Segundo Milad Neto, gerente de desenvolvimento de negócios da consultoria Jato Dynamics, o Inovar-Auto foi o principal feito do governo Dilma. O programa de fomento à indústria automotiva implantado em 2012 mudou as regras de eficiência energética dos motores, consumo de combustível e outros elementos vinculados a diminuição das emissões. Se há cinco anos praticamente nenhum modelo à venda por aqui atingia metas de eficiência estabelecidas, atualmente temos automóveis movidos a combustão com índices de consumo próximos aos dos híbridos. “Antes do Inovar-Auto a defasagem do Brasil em relação a mercados como Europa e Estados Unidos era muito maior. O gap tecnológico foi reduzido e ganhamos mais credibilidade no mundo”, diz.

Expressões como downsizing e motores turbo ganharam força na indústria, que viveu uma transformação da motorização. Antes da posse de Dilma, 47,2% dos veículos comercializados no Brasil tinham motor 1.0, no ano passado esse índice chegou a 33,8%. “Isso tem a ver com o aumento do poder de renda dos consumidores ao longo dos anos e também dos aprimoramentos de engenharia que foram incentivados”, afirma Milad.

Outra consequência foi o estímulo à expansão da capacidade produtiva local. Segundo dados da Anfavea, associação que representa o setor, de 2012 a 2018 serão investidos R$ 85 bilhões na indústria automotiva nacional, o que culminará em capacidade produtiva de 5 milhões de veículos ao ano.

Nos últimos anos também a questão da segurança ganhou mais força – mesmo com atraso de décadas em relação aos maiores mercados do mundo. Em 2014 freios ABS e airbags dianteiros passaram a itens obrigatórios em qualquer veículo comercializado em solo nacional. A exigência dos airbags já estava prevista na redação original do Código Nacional de Trânsito em 1997, porém foi vetada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso sob a justificativa de que poderia criar dificuldades técnicas para os motoristas e a fiscalização. 

Entre os outros acertos do governo Dilma também está a redução de tributação para veículos elétricos, o que deve impulsionar esse mercado, que por enquanto ainda é insipiente. A frota total é estimada em 4, 7 mil unidades pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico – a grande maioria propriedade de empresas.

Os acordos bilaterais também foram destaque nos últimos anos, apesar de ficarem aquém das expectativas do mercado. Ainda que com negociações lentas, o Brasil fechou parcerias importantes com México e Uruguai, sendo este último o primeiro acordo de livre-comércio do setor no país.

O que não deu certo

Mas a lista de coisas que não deu certo também é grande. Entre os vacilos estão o caso da saga dos extintores ABC, que deveriam ser obrigatórios no início de 2015 e acabaram como item opcional depois de inúmeras idas e vindas. Além disso, após anos de discussão ainda não saiu do papel o Siniav, chip de rastreamento que prometia ser uma espécie de RG dos automóveis.

Segundo Rubens Baptista Jr., consultor independente do setor automotivo, a pior parte do legado não atingiu apenas o segmento. “Foi a crise de confiança, aumento do desemprego, dificuldade nos financiamentos e política econômica. Isso prejudicou o País e o desempenho da indústria ao longo desses anos”, afirma.

De acordo com dados da Anfavea, quando Dilma assumiu, em 2011, eram licenciados 3,5 milhões de veículos por ano. O número caiu para 2,6 milhões em 2015 – e deve ser ainda menor em 2016, perto de 2 milhões. A produção seguiu o mesmo ritmo e passou de 3,5 milhões para 2,4 milhões. Houve ainda recuo nas importações, de 660 mil unidades em 2011 para 414 mil em 2015. Nem mesmo as exportações, que ganharam fôlego recentemente por conta da desvalorização do dólar, escaparam dos índices negativos e caíram de 767 mil em 2010 para 442 mil unidades no último ano.

Outro ponto observado pelos consultores é a falta de continuidade e planejamento do governo. O Inovar-Auto, por exemplo, só vigora até 2017 e não há sinais claros sobre uma segunda fase do programa. “Precisamos entender até onde vai esse legado. A indústria trabalha com cinco, dez anos de planejamento e no Brasil isso é extremamente difícil”, diz Baptista Jr.

Para Antonio Megale, presidente da Anfavea, o desafio do novo governo é justamente falar do longo prazo. “Precisamos saber para onde a nova política industrial vai nos levar. É importante manter os ganhos obtidos com o Inovar-Auto, mas temos de buscar maior competitividade “, diz.


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