O automóvel visto como commodity

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São Paulo – A demanda crescente por veículos que dispõem de recursos digitais, como conectividade e navegação, levou as montadoras de veículos a costurarem parcerias com empresas de tecnologia para acompanharem o ritmo da inovação dentro do setor automotivo. Existe o temor de que, caso fiquem para trás, o automóvel se transforme em commodity – ou plataforma onde serão explorados, por empresas alheias ao setor automotivo, serviços mais rentáveis do que a venda do veículo em si.

 

Estudo desenvolvido pela KMPG em 2017 mostrou que o potencial de receitas com exploração de serviços atrelados aos automóveis é de US$ 137 bilhões nos próximos cinco anos, no mundo. Apontou também que as fabricantes estão alguns passos atrás na disputa com as empresas de tecnologia por estas oportunidades de negócios. O cenário de protagonismo dessas companhias pode ser observado na área de exposição do evento de mobilidade WTM18, realizado na terça-feira, 30, em São Paulo, Capital.

 

No espaço a predominância era de empresas apresentando serviços que, em comum, tem como plataforma automóveis de diversas montadoras. Estas também marcaram presença com a exposição de seus principais modelos, como foi o caso da Audi, com o SUV Q3, e da Volvo, com o XC60. Para Flavio Tavares, organizador do evento, há razão para tal: “Hoje, quando o assunto é tecnologia veicular, quem está na vanguarda são empresas de tecnologia. Observam oportunidades muito mais rápido que companhias gigantes, como as montadoras”.

 

Uma das empresas que participou do evento foi a Localiza, que atua no segmento de venda de veículos seminovos e locação. A companhia também possui em sua oferta gestão de frotas, um segmento que, no terceiro trimestre cresceu mais de 20% em termos de receitas na comparação com o ano passado, segundo o balanço divulgado. Sua plataforma de gestão informa aos clientes dados sobre a frota, por meio dos quais é possível construir planejamento de manutenção e aferir custo por quilômetro rodado.

 

Segundo Ricardo Bacellar, diretor do setor automotivo da KPMG, as locadoras constituem exemplo de como maximizar a rentabilidade de um veículo, e que as montadoras e rede de concessionários poderiam utilizar como modelo: “As locadoras compram veículos em grande volume, rentabilizam a operação com locação, gestão de frota e, ao final do processo, fazem a venda do seminovo. As montadoras ainda vendem carros e componentes”.

 

A Alelo, operadora de cartões, observou oportunidade de expandir sua atuação em mobilidade ao desenvolver uma plataforma de gestão de frota que também fornece informações sobre veículos, motoristas e realiza rastreamento. De acordo com a executiva de negócios Sharlene Santos, sinais do mercado levaram a companhia a expandir o serviço. Desde setembro, por meio de parceria firmada com a locadora Unidas, a Alelo passa a fornecer os ativos aos clientes que contratarem seu sistema de gestão.

 

Os serviços que utilizam o carro como plataforma também são alvo das pequenas empresas de tecnologia, as chamadas startups. Participou do evento de mobilidade a SUIV, que criou um sistema de gestão de manutenção de frotas de veículos. Há três anos no mercado, já instalou seu sistema em cliente grandes, como TicketLog e B2W. De acordo com Maximiliano Porta, CEO, a ferramenta utiliza dados sobre partes e peças fornecidos pelas montadoras para que o cliente realize cotação de componentes:

 

“É um tipo de serviço que nem os sistemas das concessionárias conseguem fazer com precisão. Percebemos o espaço e criamos um produto específico para manutenção”.

 

Não é bem assim – O automóvel continuará sendo relevante no futuro ainda que a tecnologia abra espaço para a entrada de outros concorrentes. A afirmação é de Fabrício Biondo, vice-presidente de comunicação, relações externas e digital do Grupo PSA, que participou de palestra sobre como será o carro do futuro: “Todas as montadoras estão se preparando hoje para, nos próximos anos, oferecerem mais serviços do que hoje”.

 

O executivo disse que a PSA, que agrupa Peugeot, Citroën e DS, tem um plano até 2030 que contempla investimentos nesta área. A Continental também trabalha para a exploração de mais serviços em seus veículos, de acordo com José Campassi, gerente de novos negócios. Foram realizadas aquisições nos últimos anos para ganhar musculatura no desenvolvimento de novas soluções:

 

“É estratégico para o nosso negócio. Se no futuro cair o volume de vendas de veículos, em função da entrada de outros meios de mobilidade, será também menor o nosso volume de peças vendidas. De forma que a empresa rastreia parceiros e fortalece seu time de engenharia para acompanhar a evolução tecnológica”.

 

Foto: Divulgação.