Lentes vê magna cum laude

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01/11/2018

São Paulo -- Em pleno novembro está por pouco a publicação, pela Anfavea, do edital convocatório da sua próxima eleição, como sempre para a escolha das novas diretorias do complexo Anfavea/Sinfavea, que tomam posse em abril. Tenho ouvido coisas que, pelo inusitado, me remetem, bem a propósito, às gestões de André Beer, presidente de 1983 a 1989 e até hoje considerado a grande referência histórica no desempenho do cargo.

 

O que ouço das diretorias contemporâneas é que, na média dos mais jovens, são compostas por profissionais não tão comprometidos com o negócio veículos como se via anos trás – profissionais nem sempre exatamente picados pela mosca azul do setor automotivo. E que as empresas associadas estariam designando profissionais para as vice-presidências da entidade mais como uma obrigação do que numa atitude de representação consciente.

 

E que esses vice-presidentes mais jovens nem sempre dispõem da plena compreensão do papel associativo da Anfavea, de sua história e de suas tradições instituídas.

 

André Beer chegou à presidência como vice-presidente da segunda gestão de Newton Chiaparini. Newton acompanhou Mário Garnero no Brasilinvest e abriu espaço para o já veterano André. Veterano e já respeitado. Mas André pretendia as mentes daqueles cavalheiros com os quais dividia a mesa de reuniões da diretoria, não tão comprida como a atual mas já suficientemente complexa: já havia a Fiat querendo entrar no rodízio e a Mercedes-Benz fazendo o papel de mandato tampão pleno diante dos pleitos vindos de Betim. Havia desconfianças no ar.

 

Que fez André naquele começo para garantir a lealdade da rapaziada, habituada a observar com lupa as atividades da presidência? Como conquistar aquela diretoria? Ele governou para todas as associadas e, propositadamente, abriu mão de alguns interesses, secundários, da sua empresa, a General Motors – para deixar claro que se interessava pelos pleitos de cada uma das empresas associadas. Algo, quem sabe, inspirado na literatura do conde de Lampedusa.

 

Foram várias as suas atitudes de aparente desapego, que valeram ao mítico André Beer a qualificação de “mestre de todos nós”, pespegada por um admirador e sucessor igualmente cheio de méritos.

 

Quero dizer, com isto tudo, que o cargo de presidente de entidades como a Anfavea não é disputado como o de um grêmio estudantil. O sujeito é indicado por sua empresa e começa a ter a grande oportunidade de demonstrar duas virtudes diante dos seus confrades, que o tempo todo o tem em processo de avaliação: firmeza na defesa dos interesses da empresa e disposição de trabalho conjunto na defesa dos interesses comuns da indústria. Ou seja: o sujeito começa servindo na infantaria sem muita intendência à disposição – com o tempo, e à custa de bons serviços, colhe suas dragonas.

 

O que parece acontecer na Anfavea, hoje em dia, a se observar a disposição de alguns vice-presidentes, é a atitude de magna cum laude ainda no jardim da infância.

 

Foto: Reprodução/Google Street View.