Metáfora desses tempos que vivemos

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Las Vegas, NV – Realizar a CES, mostra internacional de eletrônicos para o consumidor, em Las Vegas, Nevada, é metáfora em busca de comprovação: Las Vegas surgiu improvável, derramada no meio do deserto, território livre do jogo e dos cassinos para ficarmos no óbvio, uma inspiração para qualquer cidade do pecado – e é exatamente ali que o futuro tresanda, brilhante e barulhento, na forma de tecnologias avançadas. E não é um mundo que pertença só a veículos.

 

Trata-se de feira que também aceita mostrar os desenvolvimentos gerados no mundo dos veículos, mas que tem telas curvas para televisão, lentes para máquinas fotográficas, sistemas domésticos que facilitam as tarefas das famílias, geringonças para karaokê, suportes espertos para celular e tablet. E o escambau. De maneira geral essa edição da CES não trouxe materiais inéditos, absolutas novidades, e sim mostrou evoluções, até surpreendentes, de antigas novidades – tipo adaptação de comando por voz.

 

De novidade de verdade, pelo menos naquele pedaço de mundo que nos interessa, que é o de veículos, a do Mercedes-Benz CLA foi primeira apresentação mundial, um carro que tem 70% de infraestrutura para a direção autônoma, coisa avançadíssima pois a base dessa diferenciação é o uso abundante de inteligência artificial, ramo da ciência que tem sido tratado como se fosse um santo graal redivivo, avatar de alta têmpera, tal a importância de seus avanços e aplicações.

 

O apelo da CES sobre a mídia daqui é impressionante. Tivemos a imagem desse modelo CLA, particularmente o de cor vermelha ancorado no estande da Mercedes-Benz, mostrada à saturação para todo o país em todos os noticiários, TV e jornais. E sempre associada à já mítica inteligência artificial – parece que o futuro terá sua cor, cheiro e consistência e que os crentes podem se preparar para outros dias, diferentes dias. Com isto quero dizer que chegará a hora, também no Brasil, em que as bênçãos serão ungidas em nome da inteligência artificial, o mais novo Walhala da redenção humana.

 

E é fácil identificar os novos crentes, todos eles de telefone celular nas mãos prontos para registrar os ectoplasmas mais brilhantes da nova era – incluindo aí as placas dos banheiros: as hordas fotografam tudo e também têm profunda tendência a se juntar em filas, longas, inclusive nas portas dos banheiros. E também nas proximidades das lojas de café da Starbucks: não é incomum demorar 30 minutos para sair de lá com um expresso doppio nas mãos, que agrada a todos.

 

Eu não diria que a CES seja uma bagunça mas, sim, que é uma feira que democratiza os momentos de convivência de jornalistas com aqueles hunos dotados de celulares. É uma feira intratável, incobrível, dividida em quatro áreas simplesmente enormes em distintas regiões da cidade e refletida em centenas de painéis de discussão e de apresentações e em mais de milhar de estandes de empresas que julgam ter algo digno a mostrar para todos, consumidores e jornalistas.

 

Há uma particularidade nas feiras realizadas em países localizados acima da linha do Equador, como a CES: os executivos geralmente falam basicamente para as plateias locais, e têm dificuldade, por exemplo, de traçar sua perspectiva quando o objeto são as populações que habitam abaixo daquela linha, que determina a relação Norte-Sul. Com isto quero dizer que, quando eles falam a respeito do futuro da humanidade, da inteligência artificial, dos veículos autônomos e da sua eletrificação não necessariamente estão falando para consumidores brasileiros, por exemplo: seu alcance é universal mas sua aplicação é rigorosamente local, acima ou abaixo da linha do Equador.

 

A Ford tratou de usar linguagem mais universal para iluminar o caminho que escolheu para seus veículos autônomos, que chegam à região Norte já em 2021. Sherif Marakby, o chefão, CEO, da Ford Veículos Autônomos, e Amy Marentic, sua diretora de marketing global, disseram que seu objeto de trabalho, os autônomos, são, ainda, veículos muito caros basicamente por causa de seu “software extremamente pesado”. Estão em testes práticos em Miami, FL, e no ano que vem serão levados a Washigton, DC. Os testes na Costa Leste já vivem a fase 4, sem motorista.   

 

“Quando eliminamos o motorista significou colocar as coisas em um nível muito diferente de design, de serviço, de como você projeta o veículo e todo o serviço com call centers, aplicativos e coisas do tipo”, ele disse. “Porque é o fornecimento de mobilidade compartilhada sem motorista, e este é o desafio que temos, planejando serviço focado no consumidor, no cliente, e não mais no motorista, para transportá-lo e às suas mercadorias.”

 

Marakby considera fundamental a colaboração das cidades na criação da infraestrutra necessária para a existência dos autônomos. E que faz parte do seu trabalho tratar de descobrir o que os passageiros desejarão fazer com o seu tempo livre dentro de um carro no futuro. Um autônomo, claro. E que ele busca, como já aconteceu com a indústria aeronáutica, as redundâncias que existem em direção, frenagem e aceleração.

 

Ele reconheceu que as tecnologias que envolvem os autônomos surgem mais rapidamente do que a infraestrutra nas cidades, como a C-V2X, “sistema de comunicação do veículo-com-tudo pelo celular”, no qual a Ford tem a Qualcomm como parceira. Será utilizado pela Ford em todos os seus veículos novos a partir de 2022. A companhia descreve o sistema como “uma tecnologia de comunicação sem fio altamente avançada que permite aos veículos 'ouvir e conversar’ uns com os outros, com os pedestres e com a infraestrutura de trânsito para transmitir informações de segurança e para criar um sistema de transporte inteligente e conectado”. É assim que deverá ser com o não-anunciado-e-só-falado SUV Mustang.

 

Foi planejado, o C-V2X, para utilizar a rede de celular 5G.

 

“Atravessar cruzamentos, por exemplo, será muito mais fácil”, contou Don Butler, diretor executivo de veículos conectados da Ford. “Os veículos se comunicarão para negociar qual tem a preferência.”

 

Quem acompanha a vida da Ford mais de perto diz que a Equipe Edison tem tudo para tornar-se um mito na história da companhia. Um de seus líderes é Darren Palmer, diretor global de desenvolvimento de produto para veículos elétricos. Ele define seu trabalho como o “esforço para popularizar os elétricos, por meio da democratização da tecnologia e tornando-a disponível para a maioria das pessoas”.

 

Em conversa com jornalistas reafirmou que o maior desafio ainda são baterias com autonomia além dos 480 quilômetros, as decantadas 300 milhas – um bocado aquém daquelas cantadas por Peter, Paul & Mary nos anos 60. Quando se chegar a essa bateria, Palmer acredita,  o consumidor considerará que, “agora, o elétrico tornou-se viável para a minha vida”.

 

Palmer respondeu a algumas perguntas sobre baterias de íon, de lítio e solid state, e de consumo de 40 Ohms de energia por oito horas, mas foi papo técnico demais para ocupar o tempo de nossos leitores fiéis.   

 

A metáfora, como a sentimos, permanece em aberto, em busca de definição mais perfeita do que aquelas engendradas em fins de noite. Mas que a combinação de Las Vegas com a inteligência embutida nos temas da CES é explosiva é, sim, senhor. Coisa daquele médico, Fausto, que, dizem, habitou Goethe.

 

Fotos: Divulgação.