Livre-comércio com México bate à porta

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11/02/2019

São Paulo – Salvo alguma mudança de rota o livre-comércio no setor automotivo passará a ser realidade nas relações bilaterais do Brasil e México a partir do mês que vem. O atual acordo comercial que os dois países mantêm para o comércio automotivo, com cotas para as duas correntes, se encerra em 19 de março e no dia seguinte passará a vigorar a troca comercial de veículos isentos de imposto de importação.

 

Fontes da indústria argumentam que este novo cenário na relação comercial dos dois países, neste momento, escancararia as deficiências de competitividade brasileiras. Uma grande preocupação é a atração de investimentos: com o México podendo abastecer o principal mercado da América do Sul com veículos livres de imposto, existe o temor do redirecionamento dos aportes destinados a novos produtos das companhias, todas globais, para o parceiro comercial da parte Norte do continente, por ele ser mais competitivo aos olhos das matrizes.

 

Antonio Megale, presidente da Anfavea, disse na semana passada que a entidade articularia junto ao governo a prorrogação do acordo vigente com uma cota maior, para permitir que mais veículos fossem exportados ao México, de forma que o excedente pudesse ajudar as montadoras a compensar as perdas de volume nas exportações para a Argentina, em crise:

 

“Uma cota maior seria o ideal para a nossa indústria, de forma a ajudar as empresas a ter um mercado maior para atuar frente a diminuição dos embarques para o mercado argentino. Abrir o mercado brasileiro, hoje, poderia representar trazer desafios para a nossa indústria em termos de competitividade”.

 

Na lógica da entidade que representa as fabricantes de veículos o ideal seria que o País negociasse com o governo mexicano uma cota anual maior do que o US$ 1,6 bilhão estabelecido pelo acordo comercial atual. O quanto maior, segundo Megale, seria o principal desafio nessa questão que deve mobilizar a indústria e ministérios em Brasília nos próximos dias, já que “não poderia haver um desbalanceamento no desembarque de veículos mexicanos”.

 

Entretanto, existem outros desafios além do apontado pelo presidente da Anfavea. Segundo executivo do setor ouvido por Agência AutoData, indústria e governo ainda não sentaram à mesa para discutir o futuro das exportações ao México – a nova equipe econômica tem agenda alinhada à abertura do mercado nacional em diversos setores e, por isso, há temor dentro da indústria de que haverá entrada de volume expressivo de veículos importados no País: “O livre-comércio, agora, mostraria ao mundo todas as nossas deficiências do portão para fora”.

 

A indústria, em linhas gerais, segundo a fonte, é favorável a um cenário mais flexível no que diz respeito às importações, mas é necessário tempo para uma adequação: “Não é o tempo da maturação do Rota 2030, de se modernizar as linhas. É um tempo mais breve, o das reformas que o governo prometeu fazer, o das melhorias na infraestrutura portuária do País. Precisamos ser tão ou mais competitivos do que o México para que a indústria nacional continue sendo relevante sob o ponto de vista da atração de novos investimentos”.

 

Há cláusula no acordo que se encerrará em março que estabelece que, na situação de livre-comércio, a quantidade de conteúdo nacional nos veículos envolvidos na corrente comercial aumente de 35% para 40%. Isso é visto como algo a ser respeitado pelos países no cenário futuro, contou a fonte: “Reza o acordo que a regra de origem poderá ser negociada pelos países, e esperamos que isso seja respeitado. Do contrário, poderia haver problemas na cadeia de fornecedores”.

 

O setor automotivo do México vem passando por dificuldades nas vendas internas em função da taxa de câmbio e escassez de crédito. As linhas de produção vêm sendo ocupadas nos últimos anos pelas demandas das exportações – e não apenas para os parceiros regionais de longa data, como Estados Unidos e Canadá, mas para outras regiões, como Brasil e países europeus.

 

De acordo com dados da Amia, a associação que representa as montadoras daquele país, as vendas no acumulado do ano caíram 7% na comparação com o volume vendido em, 2017, chegando a 1 milhão 421 unidades. As exportações cresceram 6% na mesma base de comparação, atingindo um volume de 3 milhões 449 mil 201 unidades embarcadas. A produção foi de 3 milhões 908 mil 139 veículos, praticamente o mesmo volume de 2017 – 0,6% menos.

 

O México representou 12% das exportações de veículos nacionais no ano passado, ao passo que as exportações ao Brasil representam 2,3% do total vendido pelas montadoras instaladas no país da América do Norte em 2017.

 

O modelo mais vendido no mercado mexicano, no ano passado, foi o Nissan Versa. No segmento de comerciais leves, uma picape da empresa, a Nissan MP300, é o veículo mais vendido, seguido por modelos também produzidos aqui, como o Nissan Kicks e o Honda CR-V.

 

Foto: Divulgação.