São Paulo – Otimista com o que o ano de 2022 reserva para a economia brasileira e para o setor automotivo, a despeito da crise dos semicondutores e do cenário marcado por juros, inflação e dólar nas alturas, além das projeções de PIB próximo de zero e das eleições em vista, o presidente da Toyota do Brasil, Rafael Chang, foi enfático ao garantir que acredita no País e que tem planos de médio e longo prazos para a operação local:
“A economia sempre tem essas dificuldades. Mas eu, pessoalmente, sou daqueles que costuma olhar essas questões com o copo meio cheio. E nosso projeto segue em frente. Estamos aguardando mercado acima de 2,3 milhões de unidades”.
Nisso ele está em linha com a projeção da Anfavea. O executivo projetou a venda de aproximadamente 200 mil Toyota este ano, acréscimo de dois dígitos na comparação com 2021, quando foram comercializadas 173 mil unidades. E os primeiros dois meses do ano já deram indícios de que as ações da companhia estão no caminho certo.
Enquanto algumas fabricantes registraram queda de até 40% nos emplacamentos e, no geral, as vendas dos 0 KM no bimestre caíram 26,7%, de acordo com a Fenabrave, a Toyota comercializou 23,2 mil veículos, 13,7% mais do que em janeiro e fevereiro do ano passado. Com 9,8% de market share ocupa a quinta posição no ranking do mercado.
Chang atribuiu o resultado ao fato de que, no primeiro bimestre de 2021, ainda não havia no portfólio o Corolla Cross, lançado em março. E ressaltou que mesmo em meio à pandemia e à consequente crise dos semicondutores os investimentos na fábrica de Sorocaba, SP, foram mantidos: para fechar ciclo de R$ 6 bilhões foi concluído aporte de R$ 1 bilhão, recursos dedicados à produção do SUV que possui versão de motor híbrido flex.
Em janeiro a fábrica passou a operar com três turnos e contratou quinhentos profissionais, metade mulheres. Destacou também o anúncio sobre a exportação de motores da unidade de Porto Feliz, SP, para os Estados Unidos a partir de setembro, que demandou o preenchimento de mais 150 vagas, o que refletiu positivamente na planta de São Bernardo do Campo, SP. Ao todo, a operação local emprega cerca de 5,8 mil funcionários.
Outro ponto mencionado pelo presidente Chang foi que, desde o ano passado, a Toyota tem sido uma das montadoras que sofreu menos os impactos da falta de semicondutores no Brasil: “Se olharmos para os períodos de paradas das empresas fabricantes por causa do problema, os nossos foram os menores. E isso se deve, sobretudo, ao sistema de planejamento que temos com nossos fornecedores. Ajudou muito para minimizar os impactos de falta de peças”.
Dois dias depois da entrevista exclusiva concedida a AutoData, entretanto, durante o evento Woman GR Day, no Circuito Panamericano, em Elias Fausto, SP, em que mulheres puderam testar veículos esportivos da Toyota Gazoo Racing e andar em carro da Stock Car, a empresa anunciou que a fábrica de Indaiatuba, SP, onde é feito o Corolla sedã, suspenderá a operação de 14 a 18 de março.
Sobre a guerra de Rússia e Ucrânia, e o potencial efeito de acirrar a crise dos chips, o dirigente disse esperar que os impactos sejam mínimos para a operação na região. A produção Toyota foi suspensa nos dois países.
Novo modelo? – A respeito da possibilidade de produzir mais um híbrido ou um elétrico no País o presidente da Toyota disse que “planos sempre há”, mas que isso dependerá de série de fatores conjunturais. E que , apesar das incertezas no curto prazo, a companhia tem planejamento de médio e longo prazos para a operação brasileira.
“Competitividade e previsibilidade são primordiais. Temos, por um lado, um dever de casa: ser mais eficientes, reduzir os custos, ser mais produtivos. Mas também precisamos, por outro, que o País seja competitivo, que o custo Brasil diminua, que a questão da carga tributária seja resolvida com uma reforma.”
“Nossos investimentos não são para amanhã. São para dois, três, cinco anos. E aqui não se trata somente da projeção de crescimento do PIB, mas de ter alguma certeza do direcionamento de políticas públicas. Por exemplo: agora muito se fala da importância de reduzir a emissão de carbono, o que tem tudo a ver com a nossa indústria, com os carros híbridos e elétricos. E trazer novas tecnologias gera impacto em toda a cadeia de fornecimento. É uma mudança que precisa ser planejada. E precisa ser escrita em linhas claras”.
Rafael Chang, presidente da Toyota do Brasil
O presidente da Toyota avaliou que o recente anúncio da redução do IPI ajudará a ativar a demanda e reconheceu que há esforço do governo em abrir mão de arrecadação fiscal, mas que se trata de medida pontual: “Precisamos resolver as questões estruturais”.
Plano – Enquanto isso, para driblar as dificuldades já postas, e acentuadas pela valorização do dólar, hoje em R$ 5,05, mas que durante todo o ano passado se sustentou em patamar de R$ 5,50, ele disse que o foco está em reduzir os custos com as ferramentas disponíveis: ampliar progressivamente a localização de peças, hoje em torno de 60% a 70%, dependendo do modelo, e as exportações, que antes da pandemia respondiam por 22% da produção e que, atualmente, são 30%: “Queremos exportar mais o Corolla Cross”.
Chang assinalou, ainda, que diante da realidade de necessidade crescente de tecnologias limpas, gostaria de avançar em um ponto:
“Nosso motor híbrido ainda é importado: estamos trazendo-o para o Corolla e o Corolla Cross do Japão. E para mudar isso é preciso ter escala. Até 2035 todo nosso portfólio terá versão eletrificada. E não é uma questão só da Toyota. Isso demandará maior nacionalização de componentes. Qual será a política nesse sentido? E não estou falando de incentivo, que para nós não é sinônimo de competitividade, porque tem um prazo. Estou falando das regras do jogo e de infraestrutura para podermos planejar o futuro e, consequentemente, os investimentos”.
Rafael Chang, presidente da Toyota do Brasil