São Paulo – Diante da progressiva perda de participação da Argentina nas exportações brasileiras de veículos, que já chegou a 70% e no ano passado recuou para 29%, a medida costurada pelo governo brasileiro a fim de estimular o comércio bilateral pode estimular a retomada do crescimento das vendas ao país vizinho.
Em visita recente à Argentina o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a possibilidade de importadores argentinos comprarem produtos brasileiros a partir do FGE, Fundo de Garantia à Exportação, que assegurará linhas de crédito de bancos públicos e privados para estimular os embarques.
O professor de macroeconomia da Fipecafi e do Pecege, Silvio Paixão avaliou que se trata de movimento positivo às relações bilaterais e que deverá impactar no aumento das exportações brasileiras, especialmente para o setor automotivo, haja vista que muitas montadoras e sistemistas possuem operações complementares.
Para Paixão, “o grande X da questão” é que quando se financia há o risco do crédito e, diante do contexto atual da Argentina, com inflação de quase 100% ao ano – para efeito de comparação, a nossa foi de 5,8% – tudo dependerá das condições financeiras do país:
“Quando o Brasil se coloca na posição de oferecer garantia de crédito quem está garantindo, na realidade, é a nação brasileira, ou seja, o contribuinte, pois em eventual caso de calote isso pode se reverter em aumento de impostos, por exemplo, diante da necessidade de gerar receitas para cobrir o prejuízo”.
A queda na demanda argentina é extensiva a todos os produtos made in Brazil por causa das restrições impostas à economia vizinha, que encerrou 2022 com inflação de 95%, a maior desde 1991, quando havia alcançado 102,4%. Nesse cenário a consequente dificuldade em reter dólares levou o governo a proibir o pagamento de importações com a moeda.
Procurada, a Adefa, entidade que representa a indústria automotiva local, avaliou, em nota, que a medida é vista com bons olhos e afirmou que a maior integração bilateral e regional é muito importante para o setor automotivo, uma vez que as vendas ao Brasil representam 40% da produção automotiva argentina e 63% das exportações totais.
“Entendemos, no entanto, que falar hoje sobre projeções e impactos de uma medida que ainda não foi regulamentada é prematuro. Devemos aguardar os pormenores técnicos.”
A Anfavea tem posicionamento semelhante, pois afirmou, também em nota, “apoiar um Mercosul cada vez mais forte”. Em relação às medidas para estimular o comércio bilateral, “entendemos que o caminho de iniciar o diálogo é válido, embora embrionário para termos um posicionamento detalhado”.
Ao longo do ano passado o presidente da Anfavea, Márcio de Lima Leite, vinha cobrando a falta de financiamentos para a exportação, o que, somado ao custo Brasil, diminuía a competitividade brasileira – o que vale para todos os destinos para os quais os produtos são embarcados.
Como deverá funcionar – Enquanto pormenores do mecanismo ainda não foram divulgados, sabe-se que a ideia do governo é que as operações comerciais sejam marcadas, individualmente, no FGE, a fim de que ele possa se certificar de que a Argentina não terá acesso aos reais para trocá-los por dólares. E que os reais obtidos pelo importador argentino serão enviados diretamente ao exportador brasileiro.
Os bancos brasileiros interessados em participar poderão cumprir com os trâmites ainda a serem definidos para acessar as garantias do FGE. Para não correr o risco do importador argentino, o governo brasileiro exigirá garantias reais que poderão ser feitas por meio contratos de commodities, a exemplo de trigo, mas não serão aceitos títulos públicos nem pesos argentinos.
A medida do governo brasileiro busca, além de recuperar participação argentina, não perder mais mercado para a China, que desde 2020 avança a passos largos no país vizinho e, inclusive, tirou do Brasil o posto de maior exportador – no total das vendas, pois no setor automotivo ainda detém esse título.
O país asiático ofereceu linha de swap cambial, que são trocas de moedas, permitido assim que os importadores argentinos tenham acesso à moeda chinesa e por meio dela façam as negociações.
No ano passado, de acordo com dados da Acara, Associação de Concessionários de Automotores da Argentina, as vendas de veículos no mercado doméstico cresceram quase 7%, com 407,5 mil unidades.