São Paulo – Depois de permanecer por nove meses no patamar de 15% ao ano a Selic foi reduzida em 0,25 ponto porcentual, para 14,75% ao ano, na reunião do Copom de quarta-feira, 18. Embora em escala menor do que se esperava, de 0,5 ponto porcentual, esta foi a primeira redução determinada pelo Banco Central em quase dois anos, desde maio de 2024, quando a taxa passou de 10,75% para 10,5% ao ano.
A decisão, que na opinião da indústria demorou a ser tomada, foi mais branda devido aos reflexos da guerra movida por Estados Unidos e Israel contra o Irã, que segue pressionando o preço do barril do petróleo: anteriormente ao conflito gravitava em US$ 60 e, agora, em US$ 115, praticamente o dobro. Justamente pelo cenário, na avaliação de Ricardo Balistiero, professor do núcleo de negócios do Instituto Mauá de Tecnologia, demorará para chegar na ponta do crédito tanto por se tratar de uma redução muito pequena quanto pela possibilidade de o recuo da Selic ser neutralizado pela alta no petróleo:
“Até o mercado refletir a baixa nos juros serão necessários alguns meses. Caso o Banco Central continue reduzindo a taxa pode ser que no fim do ano o consumidor sinta impacto no crédito”, afirmou Balistiero. “Mas, vale dizer: a queda deverá seguir em velocidade menor. Antes era esperado que em 2026 a Selic terminasse em 12% ao ano e, agora, de 12% a 13% ao ano.”
Sílvio Paixão, professor da Fipecafi e do Pecege, concorda que a queda de 0,25 ponto porcentual tem caráter mais simbólico, uma vez que, segundo ele, seu efeito é praticamente nulo na ponta do custo dos financiamentos.
Paixão assinalou que, de fato, é preciso aguardar a evolução do conflito para traçar qualquer projeção, uma vez que a insegurança mundial será a principal bússola do Copom: “Qualquer inferência sobre os próximos episódios seria imprudência. Tecnicamente falando o Copom não deveria pautar a atividade econômica nem a taxa de desemprego em suas decisões acima das tendências inflacionárias”.
Impopular nos Estados Unidos guerra pode não se estender muito
Sobre os ataques de Israel e Estados Unidos no Irã Balistiero ressaltou que a ação está consumindo US$ 1 bilhão por dia, o que a torna bastante impopular com os estadunidenses, com reflexos não somente na imagem do presidente Donald Trump como sobre a economia local. Isto o leva a crer que o conflito não se estenda por muito mais tempo e a projeção do preço do barril de petróleo futuro, de US$ 79, possa se concretizar.
Enquanto isso, no Brasil, até o momento os estados não atenderam ao apelo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na semana passada, após desonerar o diesel e pleitear que as alíquotas de ICMS também sejam reduzidas temporariamente a fim de reduzir a pressão sobre o setor do transporte, o que já está se demonstrando insuficiente.
“Em 2022 algo semelhante ocorreu e houve impacto fiscal superior a R$ 50 bilhões, com a conta ficando para o governo seguinte, em 2023, no caso, do próprio Lula”, lembrou o professor da Mauá, ao ponderar que desta vez a história não se repetirá com o PIS/Cofins devido à compensação na sobretaxa das exportações: “A grande questão é que a medida tem prazo de validade e, se o governo emparedar os estados, assim como em 2022, a conta poderá, mais uma vez, sobrar para o próximo governo”.