São Paulo – Traz outra preocupação o cenário de juros altos e crédito escasso, que reduziu a demanda e acendeu o sinal amarelo para o setor automotivo, especialmente para as fabricantes de veículos comerciais, que realizaram a transição de motorização para o Euro 6, o que encareceu os veículos de 15% a 25%: a manutenção dos investimentos e o engavetamento de projetos.
Foi o que ponderou o vice-presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, durante a abertura do Fórum Veículos Comerciais 2023, realizado na segunda-feira, 17, e na terça-feira, 18, de forma online pela AutoData Editora.
“Não é só a mudança para o Euro 6”, disse, referindo-se ao fato de que do total emplacado no primeiro trimestre apenas 6,4% do total, ou 1,8 mil unidades, tinham o novo motor. São também os juros elevados, as incertezas em torno dos rumos da política econômica, se haverá ajuste fiscal, a projeção de crescimento do PIB inferior a 1% este ano, e o custo de captação das empresas no mercado financeiro, que, conforme Moraes, ficou acima do retorno esperado. Assim as pequenas e médias empresas também entendem que talvez não valha a pena tomar recursos para fazer investimentos:
“Sem uma mudança no cenário de curto e médio prazos talvez a gente tenha dificuldade e projetos podem ficar engavetados. Esta é a preocupação do setor. A expectativa para 2023 é que o investimento terá um baixo crescimento e, no nosso caso, de caminhões e ônibus, é investimento do setor privado. Esta é, portanto, uma preocupação nossa”.
O vice-presidente da Anfavea citou que os aportes das montadoras para promover a transição ao Euro 6 totalizaram R$ 2,4 bilhões, isto sem colocar na conta desembolsos adicionais com segurança veicular e mudança nas cabinas.
Em meados de 2021 a Selic chegou a 2% ao ano, lembrou Moraes, enquanto que, hoje está em 13,75% ao ano, mesmo patamar desde agosto de 2022.
“Nós, fabricantes, percebemos que as vendas ao atacado, para as concessionárias, estão com uma demanda menor, e uma das razões para isto são os juros elevados. Por causa das consequências da pandemia e da disparada da inflação não só no Brasil como ao redor do mundo os bancos centrais resolveram elevar as taxas. Mas atualmente, com exceção da Argentina, temos a maior taxa básica de juros do planeta.”
Na ponta, se o cliente conseguir financiamento por meio de Finame, ele arca com taxa em torno de 21% ao ano ao passo que, se o empréstimo for por meio de CDC, isso vai a 29% ao ano. Para Moraes o Finame tem a responsabilidade de promover a indústria. Este é um dos pleitos da câmara de pesados, da qual faz parte, que faz a interlocução com o governo federal.
“Precisamos ter um Finame Euro 6, considerando seu benefício ambiental, com juros mais atrativos, pois esse patamar é muito elevado. Se uma empresa que decide renovar a frota desembolsa R$ 100 milhões, ao fim de um ano, só de juros, gastará R$ 22 milhões. Sem contar os custos de manutenção dos veículos e dos empregos.”
Segundo Moraes o Brasil está muito atualizado em termos de redução de emissões. Agora é a hora de fazer com que isso retorne com benefícios à sociedade em termos de menor nível de poluentes no ar: “Precisamos fazer com que uma quantidade cada vez maior de veículos menos poluentes passe a rodar no País. Por isto é preciso haver uma política de estímulos. Na Alemanha, por exemplo, o pedágio é gratuito para Euro 6”