São Paulo – Não é injustificado o atraso na divulgação da segunda fase do programa Rota 2030, agora chamado de Mobilidade Verde. Pessoas envolvidas nas discussões com o governo ouvidas pela reportagem da Agência AutoData afirmaram que alguns impasses no novo cálculo de eficiência energética, do poço à roda, empacou as negociações. Porque elaborar essa matemática considerando apenas um combustível, como o etanol, conforme sugeriu o governo, segundo essas fontes seria algo muito difícil de calcular: não há como garantir que todos os consumidores usem apenas o biocombustível no tanque. E ainda, além dos impasses, outros argumentos estão sendo apresentados e deverão ser incluídos no projeto da nova política setorial automotiva do Brasil.
Deverão fazer parte dessa proposta novas regras para impulsionar a transição da mobilidade limpa, que terá como base a eletrificação, no caso dos veículos leves. Empresas estão se reunindo individualmente, ou por meio das associações, com representantes do governo para levar sugestões na elaboração das novas regras. A temporada de encontros deverá seguir até a próxima semana.
Segundo Ricardo Bastos, diretor de relações institucionais da chinesa GWM, até o fim do mês o texto final do Mobilidade Verde precisa ser enviado à Câmara dos Deputados para dar sequência aos trâmites necessários à definição da nova política setorial ainda este ano: “É uma questão de dias, ou ^de duas semanas, para que este projeto seja apresentado pelo governo federal”.
Bastos esteve na quinta-feira, 14, na sede do MDIC, no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em Brasília, DF, onde a cúpula da GWM teve encontro com o ministro e vice-presidente Geraldo Alckmin, o secretário de desenvolvimento industrial, comércio, serviços e inovação, Uallace Moreira, além da secretária de comércio exterior Tatiana Prazeres. Após a reunião, reportagem conversou com ele:
“Levamos uma série de sugestões, como dar ênfase aos programas de pesquisa e desenvolvimento para que novas tecnologias sejam produzidas no Brasil. É melhor apoiar com mecanismos robustos de incentivo o P&D nacional, garantindo a criação de valor para a produção e a escala local, do que dar incentivo regional em cima do preço do veículo. Reforçamos essa ideia e recomendamos esse tipo política ao ministro Alckmin”.
A GWM pretende criar um parque de fornecedores locais capaz de produzir baterias, motores elétricos, sensores e todo o tipo de tecnologia necessária para essa nova geração de veículos. E a nova política setorial precisa incorporar essa realidade, impulsionando tanto empresas nacionais já estabelecidas quanto novos fornecedores para que possam realizar investimentos e atender as necessidades não só da GWM mas, também, de outros fabricantes, segundo Bastos: “O segredo, aqui, é a escala e vale para todas as montadoras”.
A questão da nacionalização de componentes para veículos eletrificados também é um importante argumento para conter o avanço de asiáticos, sobretudo chineses, em todos os mercados da região: “Precisamos que os veículos feitos no Brasil possam competir em todos os quesitos, mas, principalmente, no que diz respeito a seus preços com os carros chineses. Além da escala produtiva invejável, notável, sabemos que as marcas chinesas dominam as tecnologias de veículos eletrificados. O que queremos é recuperar a participação com o veículo nacional, que foi tomada pela nossa própria matriz. Nossos executivos na China acreditam que este é o caminho correto. E os investimentos no Brasil demonstram essa intenção”.
Todos esses pontos deverão ser contemplados na elaboração do Mobilidade Verde. As sugestões da GWM durante o encontro no MDIC foram além. Um olhar estratégico de longo prazo também está sendo contemplado no arcabouço dessa nova proposta para o setor automotivo e a mobilidade limpa: “Sugerimos mecanismos para incentivar tecnologias e toda uma cadeia ao redor do hidrogênio verde. Neste contexto o etanol não será apenas um biocombustível mas uma matriz energética essencial para a mobilidade totalmente livre de emissões”.
Ricardo Bastos ressaltou que todos esses pontos levados para a reunião com três dos principais atores na elaboração da política de Estado para o setor automotivo ainda são apenas sugestões, que podem contribuir para impulsionar toda esta cadeia a partir de agora. Não há garantias de que serão incorporadas no texto final, mas apenas por terem sido recebidos e, mais ainda, ouvidos pelo governo, já é um importante sinal de que o Mobilidade Verde poderá apresentar um novo caminho para a indústria nacional no futuro.