O mercado de veículos comerciais está terminando este 2025 carregando duas leituras muito distintas — e, na minha opinião, igualmente relevantes — sobre o que está por vir. De um lado executivos da própria indústria e consultores importantes e experientes que ouvimos recentemente para a elaboração da edição e do Congresso Perspectivas 2026 apontam que, apesar de 2025 ter sido realmente mais fraco, o setor demonstrou nos últimos meses alguns sinais de pequena recuperação e poderá entrar no ano que vem com leve crescimento ou, no mínimo, estabilidade.
De outro lado a Anfavea reforçou ontem um alerta que vem sendo repetido há meses e que agora ganhou contornos ainda mais duros: nossa indústria de caminhões estaria diante de um risco de “iminente colapso”.
A pergunta é inevitável: qual destas leituras deve prevalecer no planejamento de quem atua no mercado?
Nos sinais vitais identificados pelos executivos e consultores durante as conversas conduzidas pelos jornalistas de AutoData para produzirmos a edição e o Congresso Perspectivas a percepção predominante foi de que o setor começa a emitir alguns sinais positivos.
Vamos aos fatos: 1) o segundo semestre de 2025 tende a fechar melhor que o primeiro; 2) 2026 não deve registrar explosão de demanda, mas já não aponta para queda relevante: ao contrário, mostra tendência de crescimento em torno de 5%; 3) a renovação de frota, principalmente de pesados, está represada nos grandes frotistas, e este adiamento tende a gerar demanda acumulada no futuro.
O ponto central dessas análises é simples: com juros tão altos adiar investimentos milionários é uma decisão racional, não é sintoma de desaparecimento da demanda. E há um dado que confirma esta percepção: a idade média da frota das grandes transportadoras já está se aproximando hoje de 9 anos, quando antes do ciclo de alta dos juros ficava abaixo de 6.
Nenhuma operação que depende diretamente da eficiência logística sustenta, por muito tempo, uma frota envelhecida. Esse elástico tem limite. E ele já está esticado.
A advertência da Anfavea
Os números apresentados ontem pela Anfavea reforçam o pessimismo da entidade que, cá conosco, também tem sua lógica:
- produção até outubro: 108,8 mil caminhões, queda de 7,3%;
- produção em outubro: retração de 31,3% na comparação anual;
- vendas acumuladas: 94,7 mil unidades, queda de 8,3%, e
- pesados: retração superior a 20%.
Com a Selic ainda muito elevada e sua redução mais consistente prevista apenas para o fim do ano que vem a entidade, em teoria, vê hoje pouca possibilidade de recuperação antes do final de 2026. O ponto que une as duas leituras refere-se ao fato de que a grande diferença das projeções não está no diagnóstico econômico mas no timing da recuperação.
Para os profissionais consultados recentemente por AutoData o represamento das compras é hoje talvez o componente mais relevante. Para a Anfavea o fator dominante é a paralisia provocada pelo custo do dinheiro, que sufoca a demanda no curto prazo.
Vistas em conjunto as duas leituras formam um quadro coerente: o mercado não encolheu estruturalmente: ele está suspenso pela Selic. Por isto, mesmo que 2026 ainda seja um ano desafiador, a lógica empresarial sugere que a retomada virá assim que a taxa de juros recuar de forma consistente.
É aqui que entramos no campo das apostas. O que me parece mais evidente, ao ouvir tanto a indústria quanto seus clientes, é que não há crise permanente em um segmento que opera com frota envelhecida, PIB positivo e safra volumosa. Há, sim, uma decisão racional: esperar o custo do financiamento cair.
Quem precisa desembolsar mais de R$ 1 milhão por um único caminhão faria exatamente isso. E, quando o travamento ceder a tendência, na minha opinião, é que a demanda reprimida poderá vir a surpreender até os mais otimistas. Ou seja: não estamos diante de um setor fadado ao colapso. Tampouco de um mercado às vésperas de um boom imediato. O que existe é uma disputa de narrativas sobre o tempo… não sobre o destino.
No fim tudo converge para a mesma variável: a trajetória dos juros. E para o momento em que os frotistas, finalmente, voltarão a investir. E quando isto acontecer dificilmente será um movimento tímido.
Por isto, senhores, façam suas apostas…