Dias atrás um familiar veio me consultar: é verdade que a BYD está contratando milhares de chineses e montando uma cidade ao lado de Camaçari, BA, onde está instalada a sua fábrica brasileira? Achei estranho o questionamento: o que tinha conhecimento é que, de fato, a BYD emprega alguns trabalhadores chineses na unidade, mas não milhares. E o que é usual em multinacionais aqui instaladas, especialmente nas recém-chegadas.
Fui pesquisar e me deparei com uma enxurrada de fake news, publicadas por perfis de rede social e, o pior, amplificada por agentes políticos. Sim, um deputado estadual baiano republicou a desinformação e ainda culpou a oposição de seu partido pela invasão chinesa na Bahia.
É uma mentira que meus colegas da área de comunicação da BYD terão trabalho em explicar à população. Em recente comunicado foi informado que 97% dos 3,5 mil trabalhadores da fábrica são baianos, 56% de Camaçari. Mas na era das redes sociais a velocidade pela qual as notícias, sejam elas verdadeiras ou falsas, trafega faz com que muita mentira se torne verdade e muita verdade seja alardeada como mentira. Uma pena.
Da mesma forma lamento que a vítima de uma mentira como esta seja a protagonista de outro relato não verdadeiro que, recentemente, começou a ser difundido se não com o aval, certamente sem a devida preocupação em corrigir: em mais de um veículo de imprensa foi publicado que o Dolphin Mini tornou-se o veículo mais vendido do Brasil.
Para não falar que é mentira usarei a palavra desinformação.
O Dolphin Mini foi o veículo mais vendido no varejo em fevereiro, como informa o relatório publicado pela Fenabrave com base nos dados oficiais do Renavam, somando 4,8 mil licenciamentos. Mas, como diz o mesmo relatório, o veículo mais vendido no Brasil em fevereiro foi a Fiat Strada com 11,2 mil licenciamentos.
É notável, de certa forma, alcançar a liderança nas vendas no varejo. Ter a preferência dos frequentadores dos showrooms é bom para o marketing e para a imagem da marca. Mas, na prática, há muito carro emplacado como venda direta neste relatório da Fenabrave que foi negociado pelas concessionárias, nos showrooms.
Isto não é possível medir, com o atual sistema do Renavam, porque é classificado como venda direta o veículo que teve a nota fiscal emitida pela montadora. É o caso, para dar um exemplo, de carros vendidos ao público PcD: foi a concessionária que fez a negociação e entregou o veículo ao comprador, recebeu sua comissão, mas na estatística entrou como venda direta, pelo faturamento ter sido feito pela fabricante.
Mesmo com tudo isto a BYD pode dizer que teve o carro mais vendido no varejo em fevereiro. Mas é mentira que o Dolphin Mini, um elétrico, foi o carro mais vendido no Brasil. Como é mentira que milhares de chineses contratados pela BYD estão formando uma cidade perto de Camaçari.