Presidente Rodrigo Navarro contou que entidade lançou manifesto e MDIC criou GT Pneumáticos com reuniões quinzenais para dar celeridade às questões de competitividade
São Paulo – De 2020 para cá o mercado brasileiro de pneus mudou bastante, com o aumento crescente da participação de produtos importados em detrimento dos nacionais, e a inversão de representatividade. Se àquela altura os itens made in Brazil eram 73% do mercado de reposição no ano seguinte passaram a 60%, em 2025 chegaram a 41% e, em janeiro, despencaram para inéditos 28%.
A estatística reforçou a preocupação do setor, escancarou a luz vermelha e motivou a redação de um manifesto pela Anip, Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos, endossado por quinze entidades, e endereçado ao MDIC, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Em resposta ao pleito do setor, que já se arrasta há alguns anos e compreende também a indústria de borracha, o MDIC criou o GT Pneumáticos, grupo de trabalho que propõe reuniões quinzenais a fim de identificar o que tem desequilibrado este mercado e estimulado presença cada vez maior de marcas que não produzem localmente.
Foi o que contou à Agência AutoData o presidente da Anip, Rodrigo Navarro, que completa oito meses à frente da entidade com a premissa de inibir a entrada “desenfreada” de itens importados que, segundo ele, muitas vezes são vendidos por valores que não cobrem o custo da matéria-prima nem cumprem com normas ambientais como a execução de logística reversa e a reciclagem de itens inservíveis.
“O problema da assimetria de preços refere-se, principalmente, aos pneus asiáticos vindos da China, do Vietnã, do Camboja e da Indonésia. Países latinos, como o México, têm tarifas que protegem sua indústria, com 35%, então cresce a quantidade de produtos que entram aqui, uma vez que nossos impostos estão em 25% para os pneus de passeio e 16% para os de carga, que ficaram zerados por dois anos. Temos uma situação altamente injusta.”
O diagnóstico já está dado, nas palavras de Navarro, uma vez que os números da Anip comprovam a gravidade da situação. Em janeiro foram comercializados 2,6 milhões de pneus pelas fabricantes nacionais, queda de 11,5% frente aos 2,9 milhões de unidades um ano atrás.
Os dados da entidade mostram que o maior recuo foi observado no segmento de pneus de carga, 21,6%, sendo que as vendas dos produtos para carros de passeio diminuíram 9,6%. A retração na demanda das montadoras foi 18,5% e, na reposição, 7,8%.
O plano é, durante as reuniões do GT do MDIC, pleitear maior controle da entrada dos importados assim como uma proteção imediata, com a celeridade na análise das investigações antidumping em curso. Quanto às compras públicas é sugerido que priorizem produtos locais, que estimulam a indústria da borracha natural no Brasil.
“Dos R$ 70 bilhões que acabaram de ser anunciados pelo NIB, Nova Indústria Brasil, para serem ofertados pelo BNDES até o fim do ano, uma parcela poderia ser dedicada a programa que fomente a troca de pneus, por exemplo, para os caminhoneiros, a fim de que tenham acesso a linha de financiamento com juros subsidiados para comprar pneu com conteúdo local, que cumpram metas ambientais e com itens de segurança e conformidade técnica.”
A perspectiva da Anip, segundo seu presidente, é que, como 2026 será marcado por troca de governo, excesso de feriados com ponte e Copa do Mundo, as ações não tardem a acontecer: “O ano foi encurtado. Temos até junho para conseguir com que medidas sejam adotadas. Não pode ficar para 2027”.
Anip espera respostas até abril
Para Navarro um dos primeiros prazos para se obter uma resposta expira em 4 de abril, quando espera-se a substituição de alguns interlocutores, como o ministro do MDIC, Geraldo Alckmin – que deverá entregar o posto ao seu braço direito, o secretário executivo, Márcio Fernando Elias Rosa, para disputar eleição, mesmo prosseguindo na vice-presidência – em quem o dirigente coloca bastante expectativa de auxiliar o setor.
“Há questões que só dependem do governo. Por exemplo: no caso de pneus de motocicletas e bicicletas, que estão perdendo o antidumping agora, poderia ser estabelecida alíquota de 35%. Por que não? Em uma próxima reunião do Gecex, isto já poderia acontecer.”
O presidente da Anip afirmou que a expectativa da entidade é ampliar o apoio ao manifesto, com a inclusão de entidades como Anfavea e Sindipeças. E reiterou que o objetivo não é polarizar importados versus nacionais mas estabelecer ambiente de maior equilíbrio a fim de preservar as onze fábricas de pneus que empregam, diretamente, 35 mil profissionais e, indiretamente, 500 mil.