JAC Caminhões promete fábrica local e busca 5% do mercado de caminhões

São Paulo – A JAC Caminhões lançou oficialmente sua operação brasileira, conforme antecipado pela Agência AutoData, totalmente independente do Grupo SHC, que mantém a representação comercial para vendas de caminhões elétricos e automóveis. O foco do voo solo por aqui, será, ao menos neste início, caminhões diesel, com o objetivo de conquistar 5% do mercado até 2030, de acordo com o diretor comercial Adriano Chiarini.

A matriz chinesa tem planos de instalar uma fábrica em território brasileiro até 2027. Neste início de operação, com vendas agendadas para a partir de janeiro, serão modelos importados: “Somos a fábrica, a matriz, não somos o importador. Desde que começamos a desenhar o plano para chegar ao Brasil ficou definido que era necessário ter uma fábrica. Estamos em fase de estudos e já temos vários estados oferecendo incentivos para instalação, como Goiás, Espírito Santo, Paraná e da Região Nordeste”.

De acordo com o diretor a intenção é ter uma unidade própria, sem parcerias com outras empresas, com operação CKD ou SKD para atingir os índices de nacionalização necessários para ter acesso a linhas de financiamento como as do BNDES. A fase atual é a de análise de incentivos.

As primeiras unidades dos quatro modelos iniciais da JAC Caminhões chegaram importadas por meio do Porto de Itajaí, SC, que será usado para receber os lotes ao longo de 2026. A expectativa é comercializar no mínimo setecentas unidades no ano que vem e, segundo Chiarini, o volume pode aumentar rapidamente caso o mercado demande, pois a fábrica na China tem capacidade para produzir. O prazo de importação é de noventa dias. 

As primeiras concessionárias estarão de portas abertas em janeiro. A projeção para 2026 é encerrar o ano com dezoito grupos de concessionários que terão de trinta a quarenta lojas em operação. Alguns concessionários foram apresentados durante o evento de lançamento da marca, como o Grupo Relimpp, que será o primeiro no Estado de São Paulo.

Até dezembro de 2027 a meta é de chegar a trinta grupos e a sessenta revendas: “Teremos dois modelos de concessionárias no Brasil: as tradicionais, com vendas e pós-vendas completo, e os PATs, Ponto de Atendimento, que nos ajudarão a aumentar a capilaridade para atender aos clientes e prestar os serviços em todas as regiões do País”.

A JAC está atenta ao pós-venda, de acordo com o seu gerente da área, Manuel Teixeira. Alguns pontos serão trabalhados, como treinamento presencial e online para os funcionários da rede para que eles sejam altamente capacitados, formação de equipes técnicas especializadas em caminhões e parcerias com fornecedores de peças e serviços. Ele acredita que estar perto de grandes marcas conhecidas ajudam a fortalecer o negócio:

“Trabalharemos para nacionalizar peças de reposição para oferecer preços competitivos no mercado, por meio de parcerias com empresas locais. Teremos, também, uma linha genuína de acessórios”.

O centro de distribuição de peças foi instalado no Estado de São Paulo, com sistema de gerenciamento eletrônico de estoque, e a maioria das entregas serão realizadas por caminhões, mas em casos emergenciais a JAC Caminhões estuda o uso de aviões. Uma assistência 24 horas também estará disponível para os clientes, por meio de parceria com grande empresa do segmento que não teve o nome revelado.

Na noite de apresentação do Kait, Nissan anuncia também o X-Trail e-power

São Paulo — No Parque do Ibirapuera, na Capital paulista, a Nissan apresentou globalmente o Kait, SUV desenvolvido para ser produzido na fábrica de Resende, RJ. Mas não foi a única surpresa: o X-Trail com tecnologia e-power foi confirmado como novidade em todos os países da América Latina a partir do último trimestre de 2026.

Será a estreia da tecnologia e-power no País, uma promessa feita em 2022. Ela funciona como um extensor de autonomia, pois o motor a combustão faz a recarga da bateria e a tração é sempre 100% elétrica.

“Cumprimos o que prometemos”, disse Gonzalo Ibarzábal, presidente da Nissan do Brasil. “Estamos entregando dois SUVs, o novo Kicks e o Kait, produzidos em Resende e fruto de investimento de R$ 2,8 bilhões. E vamos trazer o X-Trail com a tecnologia e-power.”

A estrela da noite

A primeira aparição do Kait no Brasil é simbólica, apesar de não inédita — em 2016 o lançamento da primeira geração do Kicks foi no Brasil, embora ainda produzido no México. Ele marca um ponto de virada no negócio da montadora, pois será exportado de Resende para mais de vinte mercados da região.

Pormenores serão divulgados na quarta-feira, 3, quando será aberta a pré-venda. As concessionárias começam a receber o carro em 11 de dezembro, mas as entregas começam a partir de janeiro.

Carro Sustentável segue impulsionando a venda de automóveis

São Paulo – Embora o mercado esteja desacelerando por causa das persistentes dificuldades de acesso ao crédito com juros altos, as vendas do Programa Carro Sustentável continuam em direção oposta, graças ao desconto no IPI, impulsionando o emplacamento de modelos e versões participantes da iniciativa.

De acordo com dados da Fenabrave divulgados na terça-feira, 2, desde o seu lançamento, em 10 de julho, até o dia 30 de novembro, houve acréscimo de 20% no acumulado das vendas do período, frente a igual intervalo em 2024: foram 213,8 mil unidades contra 177,5 mil, diferença de 36,3 mil carros.

Considerando as vendas gerais de automóveis e comerciais leves, foram emplacadas 227,1 mil unidades no mês passado, 5,8% abaixo de novembro de 2024, que havia registrado 241,2 mil 0KM. Frente a outubro, que contou com quatro dias úteis a mais e emplacou 247,8 mil unidades, a queda é de 8,3%. 

A média diária do comércio dos leves, no entanto, ficou 11% acima da de outubro, mostrando, na avaliação do presidente da Fenabrave, Arcelio Junior, melhora do ritmo de negócios, mesmo com o menor número de dias úteis, totalizando dezenove. 

“Os segmentos têm tido um resultado consistente ao longo de todo o ano e, desde julho, modelos que atendem aos critérios do Programa Carro Sustentável têm apresentado um ótimo resultado de vendas, mostrando que o consumidor está aderente à redução de preços.”

No acumulado do ano os 2 milhões 282 mil automóveis e comerciais leves vendidos ainda estão 1,8% acima do comercializado no mesmo intervalo em 2024. “A demanda segue estável, mesmo em um ambiente de juros elevados, que tornam o crédito mais caro e com critérios mais rígidos”, disse o dirigente.

No total, incluídos automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus foram emplacados de janeiro a novembro 2 milhões 409 mil veículos, 1,4% superior aos 2 milhões 376 mil unidades nos onze meses do ano passado. Vale lembrar que a projeção da entidade é de crescimento de 2,6%.

No mês passado foram licenciados 238,6 mil veículos, 8,5% abaixo dos 260,7 mil comercializados em outubro e 5,8% aquém dos 253,4 mil registrados em novembro de 2024. Para igualar o resultado do ano passado são necessários 224,7 mil vendas no último mês de 2025.

Após dois meses de crescimento, caminhões voltam a cair

As vendas de caminhões, no entanto, voltaram a desacelerar após dois meses consecutivos de crescimento. Foram comercializados 8,7 mil veículos no mês passado, 16% abaixo dos 10,4 mil de outubro e 11,3% aquém dos 9,9 mil de novembro de 2024. 

Nos onze meses de 2025 os 101,1 mil emplacamentos estão 8,3% inferiores às 110,3 mil unidades de igual janela em 2024. Para Arcelio Junior o mercado está mais seletivo: “Empresas de diferentes setores estão alongando o ciclo de uso dos veículos e avaliando, com mais cuidado, novos investimentos, à espera de um ambiente mais favorável e previsível”.

Ônibus são único segmento a apresentar alta em novembro

Foram licenciados em novembro 2,6 mil ônibus, acréscimo de 9,2% em relação aos 2,4 mil de outubro e de 14,3% sobre os 2,3 mil de igual mês no ano passado. No acumulado de 2025 as vendas de 26,3 mil unidades representam incremento de 4,8% na comparação com os 25 mil registros dos onze meses de 2024.

“O resultado mostra que projetos de renovação de frota urbana, escolar e rodoviária continuam em andamento, impulsionados por licitações e programas públicos”, avaliou Arcelio Junior. “Este é um segmento que responde às políticas de mobilidade e de transporte coletivo.”

Fiat Strada lidera mais uma vez e garante posto de mais vendido de 2025

São Paulo – A um mês do encerramento do ano a picape Fiat Strada, líder de mercado dos últimos três anos, garantiu o primeiro lugar também em 2025. A liderança em novembro, repetindo o feito de outubro, abriu vantagem confortável sobre o Volkswagen Polo e dificilmente será ultrapassada.

São 128,4 mil unidades contra 112,2 mil no acumulado até novembro, de acordo com dados da K.Lume Consultoria. Em novembro foram pouco mais de 13 mil Strada emplacadas, contra 9,4 mil Polo, o quarto mais vendido do mês

Desde o lançamento do Tera o hatch da Volkswagen perdeu terreno, o que indica que parte dos consumidores migrou para o SUV de entrada. O Tera foi, pelo segundo mês seguido, o vice-líder de mercado. 

Surpresa no ranking foi o retorno do Chevrolet Onix ao pódio: no acumulado do ano é apenas o sexto mais vendido.

Veja o ranking:

RZ 500e é o primeiro Lexus elétrico no Brasil

São Paulo – A Lexus lançou o seu primeiro modelo 100% elétrico no Brasil, o RZ 500e, que já pode ser reservado durante a pré-venda por R$ 500 mil. Quem comprar durante a pré-venda terá prioridade nas primeiras entregas do veículo, que está prevista para o segundo trimestre de 2026.

Equipado com dois motores elétricos, um em cada eixo, o RZ 500e tem potência combinada de 381 cv. Sua bateria é nova e agora tem 77 kWh, gerando autonomia urbana de até 600 quilômetros, de acordo com o ciclo europeu WLTP, e suportando recargas em eletropostos de até 150 kW, demorando 30 minutos para recuperar 80% de sua capacidade.

Para atrair clientes do segmento de luxo a Lexus preparou algumas condições diferenciadas durante a pré-venda, como financiamento pelo Lexus Privilege como taxa de juros a partir de 0%, dependendo do modelo de compra a prazo, e recompra garantida com pagamento de pelo menos 80% da tabela Fipe.

GM abre as portas da fábrica de São Caetano do Sul para o público

São Paulo – A General Motors abriu as portas da sua fábrica instalada em São Caetano do Sul, SP, para visitas guiadas. É a primeira vez que o público em geral poderá conhecer de perto as etapas de produção dos modelos Chevrolet Tracker, Spin e Montana.

O tour passa por áreas importantes da manufatura, como soldagem da carroceria, até a inspeção final. As visitas podem ser feitas sempre às quartas-feiras, das 13h30 às 16h, com duração média de duas horas. Os interessados devem se inscrever pelo do site https://www.chevrolet.com.br/tour-visita-fabrica-gm.

Nova geração do caminhão articulado Volvo A60 chega ao Brasil

São Paulo – A Volvo CE lançou a nova geração do caminhão articulado A60, o maior do Brasil. Ele integra o portfólio local da marca, que também oferece os modelos articulados A45 e A50.

O novo A60 chega com “visual renovado, mais eficiência e menor consumo de combustível”. O novo motor Volvo D16J, de 630 cv de potência, “garante 15% a mais de eficiência operacional com consumo de combustível 5% menor”.

Sua capacidade de carga livre na caçamba é de 55 mil quilos, com velocidade máxima de 57 km/h.

FPT divulga resultado de testes com seu motor multicombustível

São Paulo – Projeto desenvolvido pela equipe de engenharia da FPT em colaboração com os parceiros Mahle, Unifei, Universidade Federal de Itajubá, Unesp, Universidade Estadual Paulista, e UFPA, Universidade Federal do Pará, o motor F1C Multifuel teve sua viabilidade comprovada após quase três anos de teste.

Nos laboratórios do Centro Tecnológico da Mahle em Jundiaí, SP, foram dedicadas mais de 600 horas ao desenvolvimento dos protótipos dos componentes do motor e simulações computacionais, além de 300 horas de testes em dinamômetro, até a validação final do projeto.

Segundo a FPT os ensaios foram essenciais para comprovar a viabilidade do projeto, garantindo não apenas a conformidade das emissões como também a eficiência energética e a confiabilidade necessárias para aplicações reais. 

O motor multicombustível, que opera com etanol, gás natural e biometano, oferece flexibilidade de abastecimento por com dois sistemas independentes de injeção – um para líquidos, etanol, no caso, e outro para gasosos, gás natural ou biometano. Além de ampliar a autonomia dispõe de mais de uma forma de reduzir as emissões.

Turbi capta R$ 30 milhões com Santander

São Paulo – A Turbi anunciou a captação de R$ 30 milhões junto ao Banco Santander. A operação busca reforçar o caixa da empresa após a aquisição de 1,4 mil veículos no terceiro trimestre com recursos do Itaú e garantir o desenvolvimento de diversos projetos de eficiência operacional.

Hoje a Turbi conta com cerca de 7 mil carros em operação, o que significa que a locadora expandiu em mais de 100% sua frota total no comparativo com 2024. O objetivo é encerrar 2025 com receita em torno de R$ 400 milhões.

Segundo Daniel Prado, CEO e cofundador da Turbi, a empresa está dobrando de tamanho a cada ano, e este ritmo de expansão tem se refletido em indicadores recorde de receita, margem e utilização dos veículos.

No terceiro trimestre a receita líquida consolidada atingiu patamar recorde de R$ 113 milhões, avanço de 83,4% frente ao mesmo período no ano anterior e de 37,6% versus o segundo trimestre. A margem EBITDA de 54,5% mantém consistência de dez meses seguidos de margens acima de 50%.

Salão possível mostrou futuro impossível

Se todos os maiores salões de automóveis do mundo abrem uma janela que mostra o futuro do setor automotivo em produtos, tecnologias e tendências de mercado o renascido Salão do Automóvel de São Paulo apresentou um horizonte preocupante, pois deixou de mostrar o tamanho e a importância da indústria instalada no País, projetando um cenário dominado por marcas que vêm da China para montar carros com baixo ou nenhum conteúdo local – e, portanto, com baixa geração de emprego e renda no País –, inclusive com muitas associações com fabricantes já localizados no Brasil.

Por falta de recursos daqui e das matrizes no Exterior os fabricantes de automóveis decidiram, desde a edição de 2018, desdenhar do evento e do público que o visita com fervor quase religioso, colocando a culpa nos altos custos para enterrar o Salão do Automóvel, que assim deixou de ser realizado nas edições bienais que deveriam ter acontecido em 2020, 2022 e 2024 – a pandemia atrapalhou os planos mas muitas montadoras já estavam decididas a não mais participar antes mesmo da proliferação da covid-19.

Neste meio tempo muitos dos grandes salões de automóveis do mundo na Europa, China, Estados Unidos e Japão voltaram a ser realizados com grande participação das mesmas montadoras que não queriam mais participar do Salão de São Paulo, quebrando uma tradição de mais de sessenta anos.

Após sete anos de ausência e muita insistência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em pessoa, que com razão disse ter dado tudo que a indústria lhe pediu e o público brasileiro merecia ter seu salão de volta, a mostra voltou ao Anhembi, mas com tamanho muito menor do que já teve, descortinando certa fraqueza da indústria instalada diante da voracidade dos chineses.

O Salão encerrado no domingo passado traz o mérito de ter voltado a acontecer, não foi interditado, mas ficou longe de fazer jus ao propagado maior ciclo de investimento da indústria automotiva no País, que passa dos R$ 180 bilhões, incluindo montadoras e seus fornecedores, segundo sempre repetem Anfavea e governo, ainda que com alguns exageros e contabilidade criativa que inclui programas que já terminaram.

A mensagem que fica deste Salão é preocupante porque o evento insinua que o futuro da indústria será de mera montadora de carros importados desmontados da China, com alta dependência tecnológica das matrizes e baixo nível de industrialização local, na contramão de um país que quer se reindustrializar.

Neste aspecto, ainda bem, cabe o benefício da dúvida, pois a parte a indústria automotiva que esteve no Anhembi não representa o todo, as fabricantes locais e seus produtos nacionais ainda dominam mais de 80% do mercado brasileiro, mas as marcas chinesas estão chegando com produtos tecnologicamente mais avançados e alta voracidade, já têm juntas fatia de pouco mais de 10% do mercado, e o Salão do Automóvel representou bem esta parte da realidade.

Salão menor para mercado menor. Será?

Alguns dos grandes expositores dizem ter sido este o “salão possível”, com custos equivalentes de 15% a 20% do que gastaram em 2018, na última edição do evento antes da debandada. Isto porque os estandes foram homogeneizados, limitados ao máximo de 500 m2 de área total por marca – coisa de um quarto ou até menos do que eram alguns dos maiores espaços ocupados pelas principais montadoras e importadores.

Esta configuração retirou do evento a opulência e o glamour que marcaram os salões passados, fez parecer iguais os desiguais, mas também tornou desconfortável a experiência dos visitantes que disputaram espaços pequenos para ver os carros em exposição. Ou seja: o objetivo de mostrar novidades ao público ficou parcialmente comprometido.

Com estandes reduzidos e ausência de mais da metade dos associados da Anfavea, sobrou espaço. Assim quase metade do espaço do pavilhão de exposições do Anhembi foi ocupado pela orgulhosamente apresentada como “maior pista de test drives coberta do mundo”, na qual visitantes podiam ter a “experiência” de rodar a algo como 40 km/h com algumas das novidades apresentadas na feira, desde que pagando pelo ingresso VIP que chegou a R$ 640 nos fins de semana. Segundo a organização foram realizados ali 10 mil testes em nove dias.

Uma justificativa muito utilizada para realizar um salão empobrecido é o próprio encolhimento do mercado brasileiro nos últimos anos, que nunca mais chegou ao cume dos 3,6 milhões de veículos leves vendidos, em 2012, e hoje está estacionado abaixo de 2,6 milhões. Por esse raciocínio também seria impossível realizar os salões dos anos 1990, muito mais opulentos do que este, quando não se vendiam nem 2 milhões de carros por ano.

Isto para não falar da primeira metade da década de 2000, em que o mercado caiu abaixo de 1,5 milhão de unidades. Naqueles anos magros não se ouvia ninguém reclamar dos custos milionários do salão.

E há, ainda, um outro ingrediente para jogar no caldeirão do marketing: atualmente o mercado é menor mas os produtos têm valor agregado muito maior do que os carrinhos populares que a indústria não tinha vergonha de mostrar em estandes milionários.

Ou seja: hoje vende-se um volume relevante de veículos, que mantém o Brasil na lista dos dez maiores mercados do mundo – foi o sexto maior nos últimos três anos e um dos que mais cresceu porcentualmente em 2024 – e com produtos mais rentáveis do que no passado recente.

Visto por este ângulo o Salão do Automóvel de 2025 apresentou-se muito menor do que o mercado e a indústria que representa nos dias de hoje. Mas é o que foi possível fazer, justificam as empobrecidas montadoras que atuam há décadas no País. Impossível é assegurar que isto seja verdade, pois nenhuma das grandes multinacionais do setor divulga os resultados financeiros no Brasil, nenhuma expõe lucros ou prejuízos locais.

Também não cola a tese de que nada se vende no Salão. Talvez não durante a exposição propriamente dita mas o evento sempre foi considerado pelo setor como um promotor de vendas nos anos em que aconteceu. E este ano foi permitido fechar negócios, com bons resultados. O importador da Kia, o empresário José Luiz Gandini, que nos últimos trinta anos nunca desistiu de participar dos salões paulistanos com a representação da marca coreana, ficou bem satisfeito com os 119 carros que informa ter vendido no Anhembi – e já confirmou presença no próximo, em 2027.

Mais ausências do que presenças

O público somado de 516 mil visitantes em nove dias ficou abaixo das expectativas dos organizadores que esperavam 700 mil pessoas no Salão, e foi ainda menor do que as quase 900 mil pessoas de edições anteriores – talvez pelos preços dos ingressos e pela dificuldade atávica de acesso, este ano bastante piorada pela CET que fechou boa parte da avenida da entrada principal, desconectada do calendário oficial de eventos da cidade.

Ainda assim o público de meio milhão de pessoas não pode ser considerado irrelevante, como parece ter sido para parte relevante de empresas do setor. Dos quinze fabricantes de veículos leves associados à Anfavea, oito deram de ombros para os visitantes que foram ao Anhembi.

Algumas ausências chamaram a atenção pois parecem indesculpáveis em um evento de tão alta relevância para o público e que teve os custos tão reduzidos, fazendo parecer que os visitantes do Salão pouco importam.

A General Motors/Chevrolet, que este ano completou 100 anos no Brasil, mostrou seu momento de dificuldades ao não ir a um evento no qual esteve em todas as edições desde 1960. Mas dois elétricos Spark estiveram no Anhembi, expostos no estande do Pace, Polo Automotivo do Ceará, onde será montado o carro elétrico importado semipronto da China, produzido pela joint venture da GM com a SAIC-Wulling, em mais um arranjo que parece refletir a nova realidade da indústria.

Já a Volkswagen, marca de quase 73 anos no País que se orgulha de afirmar que todo brasileiro tem uma história com ela, não quis mostrar seu bom momento de desempenho no Salão – talvez por julgar muito pequeno o espaço que teria para se mostrar, ficando à sombra das seis marcas levadas ao Anhembi pela líder de mercado Stellantis.

O problema parece ser o novo formato do evento paulistano, pois a Volkswagen não abandonou os salões europeus nem os chineses, e escolheu para lançar o novo Tiguan – que certamente será vendido no Brasil – no menos badalado Salão de Los Angeles, Califórnia, realizado justamente na mesma semana do Salão de São Paulo, provando que a questão não reside no tamanho do mercado, pois a marca vende menos carros aos estadunidenses do que aos brasileiros.

Assim como a Volkswagen todas as marcas alemãs fugiram do Salão de São Paulo tal qual o aliviado chanceler Joachim-Friedrich Martin Josef Merz ao voltar para seu país, após a classificada por ele mesmo de desagradável passagem pela COP 30 em Belém, PA. Porsche, Audi, BMW e Mercedes-Benz não deram as caras, assim como as demais marcas premium como Land Rover e Volvo.

Dentre as marcas mais relevantes do mercado também não vieram Ford e Nissan, que sempre estiveram presentes nas últimas e tinham o que mostrar, a baixo custo.

Ao todo estiveram presentes dez marcas estabelecidas que produzem no Brasil e na Argentina – a grande maioria, cinco, de um só fabricante, o Grupo Stellantis com Fiat, Jeep, Ram, Peugeot e Citroën em estandes próprios para cada uma.

Também com fábricas brasileiras vieram ao Salão a Toyota, Honda, Hyundai, Renault, HPE Mitsubishi e Caoa Chery.

Outras onze marcas expostas, no momento, importam tudo que vendem ou venderão aqui, dez delas chinesas – incluindo aí BYD e GWM que estão iniciando operações de fábricas no País com a montagem de partes importadas.

Negócios da China

Com as marcas chinesas representando cerca de metade dos estandes de fabricantes de grande porte no Salão do Automóvel 2025 – apresentando veículos com altas doses de tecnologia digital que, há alguns anos, seriam apresentados como carros-conceito em qualquer grande salão do mundo – ficou ainda mais claro para o público que o Brasil tornou-se um alvo preferencial da China, pois é o maior dos mercados automotivos dentre os quais ainda pode entrar com menos barreiras.

A multiplicação de marcas chinesas na exposição apenas reflete a realidade do mercado brasileiro atual, com boa parte do crescimento que ainda resta concentrado nas vendas de carros elétricos e híbridos importados da China, tomando espaço dos fabricantes nacionais. Esta presença chinesa aumentada também é refletida na estratégia se-não-pode-com-eles-junte-se-a-eles: todas as dez marcas chinesas em exposição têm pretensão de produção local, a maioria com parcerias de empresas que já estão no Brasil.

Três delas – BYD, Chery [com a Caoa] e GWM – já têm linhas de montagem operacionais no País, e outras três anunciaram no Salão que terão produção nacional em sociedade com fabricantes já instalados, caso da Changan com a Caoa em Anápolis, GO, da Leapmotor com a Stellantis em Goiana, PE, e da Geely com a Renault em São José dos Pinhais, PR.

Além destas também a GAC estava no Salão prestes a anunciar parceria produtiva com a HPE para montar seus carros em Catalão, GO, enquanto Omoda Jaecoo – outra do Grupo Chery – e SAIC/MG reconfirmaram no Anhembi a intenção de instalar linhas nacionais de montagem, embora ainda sem anúncios concretos.

Completando o cerco a BYD apresentou no Anhembi sua marca de luxo Denza e informou que esta também é candidata à montagem em Camaçari, BA.

Em comum estas fabricantes produzem ou produzirão no Brasil, ao menos em um primeiro momento, com enormes quantidades de itens importados da China. Em maior ou menor grau todas são ou serão operações muito focadas em montar carros aqui para reduzir a tributação de importação que pesa sobre produtos prontos, com pouca ou nenhuma ambição de nacionalizar os componentes críticos.

Assim o Salão do Automóvel possível mostrou um futuro impossível de se imaginar há menos de cinco anos, com a indústria nacional diminuída em sua contenção de custos enquanto os chineses ocupam espaço cada vez maior. O próximo já está confirmado para 2027 e deverá comprovar, ou não, tudo que foi projetado neste 2025.