São Paulo – Um dos maiores desafios para o setor de veículos pesados na América Latina é a imensa diferença de condições dos países, seja em relação às características geográficas ou quanto a legislações veiculares. Mas na visão de Márcio Querichelli, presidente da Iveco para a América Latina, isso pode representar um campo de oportunidades. Essa foi a principal mensagem dele durante palestra no terceiro dia do 6º Congresso Latino-Americano de Negócios do Setor Automotivo, organizado por AutoData.
“Estamos numa região com potencial enorme e sempre quando se fala de desenvolvimento econômico, os caminhões e os ônibus são chaves para esse processo”.
A América Latina, afirmou, tem recursos abundantes, mercados emergentes e muitas possibilidades de crescimento com sustentabilidade. Ele citou agricultura, mineração, petróleo e gás e construção civil como algumas das áreas que se destacam e acabam originando negócios.
Sobre números, o mercado de caminhões acima de 3,5 t tem projeção de 130 a 140 mil unidades no Brasil, de 15 mil na Argentina e de 70 mil no consolidado dos demais países das Américas do Sul e Central. No caso dos nossos vizinhos argentinos, é um volume bem abaixo dos 25 a 30 mil exemplares já registrados. Mas Querichelli analisa que o cenário macroeconômico mostra sinais de revitalização, com inflação em baixa e nível mais saudável das reservas cambiais, apesar da instabilidade política.
Ainda melhor é a situação do Chile, com PIB em alta e juros e inflação caindo. Entretanto, é o país com a maior presença asiática. Não apenas pelos chineses, que dominam 85% do segmento de caminhões leves até 7,5 t, por exemplo, mas de produtos da Coréia do Sul e Japão.
Dentre os dados que o dirigente da Iveco apresentou, o Brasil se coloca como o maior fornecedor geral de caminhões e ônibus em todos os países, com exceção do já citado Chile e do México, que é uma nação latina mas está na América do Norte e tem grande participação de veículos da China.
O mercado chileno ainda se destaca por ser o que primeiro recebe novas tecnologias em veículos pesados, dentro da região.“É o segundo maior consumidor mundial de ônibus elétricos”, disse. “E a Colômbia também já conta com uma frota muito representativa nesse sentido.”
Nesse caso específico, quase tudo é made in China.
Adaptar para sobreviver
“É preciso conhecer muito bem as especificidades de cada mercado e se adaptar a elas para ter alguma chance de sucesso na América Latina”, declarou o dirigente da Iveco, que atua em 20 países da região.
Uma boa amostra é a situação dos níveis de emissões de poluentes: Brasil e Colômbia estão com a norma Euro 6, a Argentina ainda está com Euro 5, bem como Chile e Uruguai, mas nestes já existem combustíveis e veículos compatíveis com a lei mais rígida.
“Por sua vez, o Peru é Euro 4 e vai mudar direto para Euro 6 em 2026, enquanto Equador e Paraguai ainda estão com Euro 3, o que resume bem como são os desafios nesses mercados”.
Sem falar que alguns países nem têm legislação de emissões. O executivo frisou que um cenário como esse obriga as montadoras a adaptar motorizações com tecnologias anteriores para atender às especificações dos combustíveis de certos países. “É uma forma de ver o copo meio cheio.”
Já o Chile representa outro extremo quando se pensa nas necessidades da mineração. Segundo ele, esse setor demanda veículos com níveis de segurança e controle de emissão de poluentes ainda maiores do que os exigidos no Brasil.
Outro ponto que exemplifica a diversidade da região é a geografia dos montanhosos países andinos, que obriga o desenvolvimento de produtos que funcionem bem em altitudes de até 5 mil metros. Chile, Peru e Colômbia retratam bem essa questão.
Obstáculos
Dentre as dificuldades para atuar na América Latina Querichelli citou que certos países, como Bolívia e Paraguai, além da maior parte da América Central, é possível importar veículos usados com facilidade. O presidente da Iveco também lembrou que os financiamentos representam dois terços das vendas de caminhões e ônibus, o que torna o setor muito dependente de apoio governamental, como a criação de linhas de crédito para exportações.
Contudo, ele reforçou a aposta da marca na região, que está recebendo investimentos de R$ 1 bilhão em suas fábricas de Sete Lagoas, MG, e Córdoba, Argentina. E os resultados já estão aparecendo neste ano, com crescimento nas vendas de 58% em veículos e 41% em peças de reposição.