O dia em que o just-in-time parou a indústria

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29/05/2018

São Paulo – Uma das mais importantes criações da indústria automotiva, o TPS, Sistema Toyota de Produção, também conhecido como toyotismo, responsável por economizar milhões de dólares todos os anos em custos de estoque, pode ter sido um dos vilões do desabastecimento durante a greve de caminhoneiros, que chegou a seu nono dia na terça-feira, 29. O conceito logístico just-in-time adotado pelas montadoras brasileiras deixou todo mundo sem peças e interrompeu as linhas de montagem – desde a sexta-feira, 25, não se produz nenhum veículo no Brasil.

 

Não seria equivocado dizer que o sucesso do just-in-time na indústria automotiva levou outros setores de bens de consumo a repetir o expediente: diminuir ao máximo os estoques e desenvolver uma cadeia logística eficiente de abastecimento, que no Brasil está toda apoiada em caminhões.

 

Segundo o Lean Institute Brasil o TPS foi criado por Taiichi Ohno, chefe de produção da Toyota no Japão ao fim da 2ª Guerra Mundial. Um dos conceitos aplicados pelo sistema é o just-in-time, desenvolvido alguns anos antes pelo filho do fundador da montadora, Kiichiro Toyoda: ele determinou que a montadora não trabalharia com excesso de estoque.

 

“Estoque é custo. A contabilidade não calcula esse custo, mas o gerenciamento, sim”, conta Antônio Jorge Martins, coordenador do MBA de Gestão Estratégica de Empresas da Cadeia Automotiva da FGV. “O dinheiro dessas peças estocadas poderia ser aplicado no mercado financeiro ou em outro investimento da empresa, como o desenvolvimento de novos produtos.”

 

Pelos fatores explicitados por Martins as montadoras passaram a trabalhar com estoque mínimo. Ou seja, o estoque sempre está rodando nos caminhões do fornecedor à fábrica. Com a greve que atravessou mais de uma semana todas as fabricantes deixaram de ser abastecidas: “Se foi zerado o abastecimento de um componente específico fundamental para a produção já é necessário parar a linha toda”.

 

O coordenador da FGV pondera, entretanto, que há duas visões para a situação, também relacionadas a estoques – mas dessa vez de carros. Segundo ele montadoras que estavam muito estocadas poderão aproveitar-se da greve para regular os níveis de veículos nos pátios e nas concessionárias – que, inclusive, também estão vendendo menos com a greve.

 

No sentido contrário, outras poderão sofrer com a greve e perder participação de mercado: “Os custos trabalhistas podem ser equalizados. As montadoras dispensam os funcionários durante a greve e estes acumulam banco de horas, que serão usados no retorno da produção”.

 

Martins se esquivou de projetar o prazo para que a produção brasileira de veículos restabeleça o ritmo anterior ao da greve. Segundo ele dependerá da estratégia adotada por cada empresa: “Alguns colegas relatam que há comitês de gerenciamento de crise dentro de empresas avaliando a possibilidade de manter as linhas mais tempo paradas para que haja retorno mais adequado à realidade do mercado”.

 

Certo mesmo é que os dados de produção de maio serão afetados pelos dias de paralisação dos caminhoneiros. Em abril a média de produção diária chegou a 12,6 mil veículos – e já são três dias úteis sem produzir automóveis, caminhões ou chassis de ônibus no País.

 

Foto: Divulgação.