Efeito Argentina turbinou vendas diretas

Imagem ilustrativa da notícia: Efeito Argentina turbinou vendas diretas

São Paulo – A participação das vendas diretas nos licenciamentos de automóveis e comerciais leves realizados no primeiro semestre chegou a 45%, porcentual que representa fatia recorde no mercado nacional: nunca, em toda a história, as vendas diretas chegaram tão perto de representar a metade do volume total no período. O índice incomodou a Fenabrave, que considerou, na terça-feira, 2, o cenário atual "insalubre ao principal negócio das concessionárias".

 

As vendas diretas já vinham aumentando participação desde a consolidação das locadoras e frotistas no mercado, ao passar a obter mais receita revendendo carros seminovos do que nas demais áreas em que atuam -- o aluguel de veículos e a gestão de frotas. Para se ter uma ideia do avanço, no primeiro semestre do ano passado foram vendidos via varejo 671 mil 706 automóveis e comerciais leves, e 455 mil 346 unidades de forma direta.

 

No primeiro semestre deste ano, por outro lado, as vendas diretas cresceram 23,5% ante o volume do ano passado, chegando a 562 mil 747 unidades, ao passo que as vendas realizadas nas concessionárias avançaram 2%, com 686 mil 152 unidades licenciadas.

 

A entidade atribuiu o aumento da participação ao fator Argentina – segundo o presidente Alarico Assumpção Júnior, com o mercado vizinho retraído e buscando formas de retomar as vendas, as montadoras passaram a destinar as unidades produzidas em princípio para o principal parceiro comercial para o mercado interno:

 

“Por causa da crise na Argentina houve uma oferta maior das montadoras no mercado doméstico. Os frotistas e as locadoras observaram oportunidade de negócio e houve esse crescimento, que não é saudável. O volume tem que ter um equilíbrio maior”.

 

Na prática, ele contou, o segmento de locação absorveu esse contingente que não foi vendido aos argentinos em condições especiais de preço: “Realmente houve mais oferta doméstica, mas não foi apenas a questão da oferta que incomodou também. Os descontos praticado consideramos ilegais e imorais porque existe uma lei [Ferrari] a ser cumprida”.

 

O porcentual de 45% contabiliza também as vendas diretas que passam pelas concessionárias, como PCD. Embora a entidade não tenha como aferir com precisão a quantidade de vendas diretas que são realizadas na rede, o presidente da Fenabrave afirmou que a fatia maior diz respeito ao modelo montadora-cliente final.

 

Até junho, segundo o balanço divulgado pela Fenabrave, a FCA foi a empresa que registrou maior faixa porcentual de vendas diretas de automóveis e comerciais leves considerando suas duas marcas, Fiat e Jeep, respectivamente 18% e 7,36%. A General Motors, por sua vez, apresentou participação de 19%, a Volkswagen de 16%, a Renault de 9,9% e a Ford de 9%.

 

Por modelo o mais vendido por via direta foi o Chevrolet Onix, com 52 mil 76 unidades licenciadas até junho. O Volkswagen Gol ficou em segundo lugar, com 26 mil 579 unidades. Jeep Renegade, 23 mil 587 unidades, Ford Ka, 21 mil 639 unidades, e Chevrolet Prisma, 19 mil 665 unidades, completam a lista dos cinco mais emplacados no primeiro semestre.

 

A projeção da Fenabrave é a de que o patamar de 45% nas vendas diretas seja mantido no segundo semestre do ano, uma vez que fica cada vez mais fraca no mercado e na indústria a crença de que o mercado vizinho se recupere ainda este ano, quadro que levou montadoras a buscarem novos mercados e até a diminuirem a produção, como foi o caso da Toyota nas unidades paulistas de Sorocaba e Porto Feliz.

 

A entidade reafirmou que não é contra a venda direta e que pouco se pode fazer de forma ativa a respeito do avanço das vendas diretas no setor, uma vez que as concessionárias mantém convenções negociadas em particular com as montadoras que representam, uma espécie de autoregulamentação do mercado. No entanto foi criado um grupo interno em 2017, composto por representantes das associadas e seus advogados, para tratar do tema em âmbito nacional.

 

Segundo o presidente da Fenabrave dos 26 estados, mais o DF, dezesseis fiscalizam e autuam empresas que praticam a revenda antes dos doze meses, como explicita a Lei Renato Ferrari, medidas que foram tomadas com o auxílio da entidade de classe.

 

Foto: Divulgação.