Fenabrave engrossa o discurso contra as vendas diretas

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São Paulo – A Fenabrave decidiu escancarar o seu desconforto com as vendas diretas e aproveitou os holofotes do seu congresso, para o qual reuniu na terça-feira, 6, 1,5 mil representantes de concessionárias no Transamerica Expo Center em São Paulo, SP, para deixar claro que algo precisa ser feito para reduzir o ímpeto das montadoras nessa modalidade comercial. O tom conciliador do discurso da entidade adotado durante meses deu lugar ao do incômodo.

 

"Somos contra a diferenciação de preço praticado pelas montadoras. Falta isonomia, é isso que nos incomoda. Essa injusta diferença deve ser combatida. Sem isonomia, a rentabilidade das concessionárias fica comprometida e afeta os consumidores", disse o presidente Alarico Assumpção Júnior. “Não somos contra as vendas diretas, mas é preciso olhar mais para como elas estão sendo feitas. Estamos pagando mais e outras empresas menos.”

 

Nos últimos anos a modalidade de vendas direta tem aumentado sua participação, tomando espaço das vendas ao varejo. No pós-crise as montadoras observaram oportunidades de negócios – e de sustentação das linhas de produção – com empresas frotistas. Com isso a fatia das vendas diretas aumentou de 30% para 45% nos últimos três anos, reduzindo, assim, a participação das vendas via rede, que até julho representaram 55% das vendas totais.

 

Com a ofensiva comercial das montadoras a Fenabrave passou a dialogar com elas no sentido de equalizar os números e manter o negócio rentável. Vindo de uma época de crise e redução do número de lojas, o que se viu foi um setor conformado com a necessidade de mudança – era preciso adotar um novo modelo, mais enxuto, digital e baseado na oferta de serviços, diante de um quadro que, para as montadoras, veio para ficar.

 

No entanto o desconforto foi ganhando proporção à medida que o porcentual das vendas diretas só ganhava campo sobre as vendas no varejo, apesar do diálogo estabelecido. Em julho surgiu um primeiro indício de rusga com a situação: o agravamento da crise argentina levou as montadoras a recorrerem às vendas diretas para escoar dos estoques o volume que iria para o mercado externo.

 

A manobra comercial foi considerada pela Fenabrave como insalubre ao seu principal negócio. “Por causa da crise na Argentina houve uma oferta maior das montadoras no mercado doméstico. Os frotistas e as locadoras observaram oportunidade de negócio e houve esse crescimento, que não é saudável. Tem que ter um equilíbrio maior”, disse o presidente da entidade em julho.

 

O Congresso Fenabrave ocorreu, curiosamente, no mesmo dia em que a Anfavea divulgou o seu balanço mensal. O raro conflito de agendas, entretanto, não tornou inviável a presença de representantes das montadoras: Carlos Zarlenga, presidente da General Motors, por exemplo, se reuniu com o pessoal da Abrac, a Associação Brasileira de Concessionárias Chevrolet, e falou sobre o crescimento das vendas do compacto Onix no primeiro semestre -- 28,6% ante igual período em 2018.

 

Verde e amarela. A Fenabrave também tratou de aproveitar o congresso para demonstrar alinhamento ao atual governo. Se no ano passado o mote do evento foi Resiliência – um termo adotado pelo setor para ilustrar o cenário de adaptação às adversidades e incertezas no campo macroeconômico –, na edição deste ano a associação que representa a rede concessionária optou pelo reforço dos temas nacionais: o mote de 2019, Juntos Movendo o Brasil, remete à agenda e à publicidade da Presidência da República.

 

O presidente Jair Bolsonaro entrou no palco do Transamerica Expo Center pouco antes do hino nacional começar a ser entoado, com erros, por Helder Moreira, um cover do músico estadunidense Elvis Presley. Para que pudesse participar do evento o presidente foi escoltado por um grupo composto por noventa integrantes do Exército, homens e mulheres, que chegaram ao local em dois ônibus rodoviários Irizar e numa van Renault Master.

 

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Bolsonaro falou pouco sobre o negócio automóvel, assim como o prefeito de São Paulo, Bruno Covas. Disse, contudo, que trabalha para que o “Estado influencie cada vez menos no mercado”, o que agradou aos concessionários presentes -- que o aplaudiram. Alarico Assumpção Júnior, da Fenabrave, não hesitou em apresentar ao outro presidente o pleito do setor:

 

“Merecemos um Brasil onde se planta trabalho e se colhe crescimento. Não temos como suportar a maior carga tributária do mundo. Esses altos tributos são desumanos e incoerentes para país que deseja e precisa crescer. Com a aprovação das reformas estamos escrevendo um dos principais capítulos da nossa história e transformando o Brasil em potência".

 

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, também esteve presente e disse estar contente em ter antecipado a campanha publicitária da nova Chevrolet S10: “Fico feliz em apoiar empresas que valorizam o agronegócio”.

 

Foto: Divulgação.