Locadoras compraram quase 100 mil veículos até março

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Foto Jornalista Bruno de Oliveira

Por Bruno de Oliveira

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27/05/2020

São Paulo – A retração da atividade comercial acentuada a partir de março, por causa do avanço da covid-19, resultou no aumento dos estoques de veículos das três maiores locadoras de veículos do País, Localiza, Unidas e Movida. Diante da situação as empresas pretendem evitar pedidos adicionais às montadoras no curto prazo e, também, redesenhar suas ofertas iniciando um novo ciclo.

 

Até março o estoque total das três empresas era formado por 613 mil veículos, considerando as unidades alocadas em todas as unidades de negócios – gestão de frotas, aluguel e venda de seminovos – e o volume de veículos comprados pelas três empresas no período, 96,5 mil unidades.

 

Os canais de vendas limitados e empresas e motoristas locatários devolvendo veículos, devido à demanda decrescente de passageiros e de deslocamentos nas cidades, foram apresentados como fatores resposáveis para um inevitável processo de elevação do nível dos seus estoques, o que, em um primeiro momento, gerou preocupações com os custos.

 

Mas antes disso há evidente atenção voltada para as maneiras disponíveis para desmobilizar a frota para nível considerado saudável. De acordo com Fernando Trujillo, consultor da IHS Markit, as vendas de usados normalmente ganham participação de mercado sobre o mercado de veículos novos em épocas de crise. "No entanto esta crise está sendo totalmente atípica e muito mais forte do que as últimas pelas quais o setor passou. A renda está sendo muito afetada, principalmente nas classes mais baixas.”

 

Medidas. O quadro apresentado pelo consultor se mostra como entrave àquelas empresas que, como é o caso das locadoras, estão com pátio cheio. O movimento aparentemente óbvio de se reduzir os preços das tabelas para chamar a atenção do consumidor, entretanto, não parece ser aquele realizado pelas locadoras.

 

Segundo Renato Franklin, presidente da Movida, há estoque suficiente para três meses de vendas e a empresa pretende diminuir o ritmo das compras nas montadoras. Para liberar o estoque a companhia tratou de reduzir os preços a partir de maio:

 

“Quando falamos de preço entendemos que a estratégia foi de derrubar para manter o máximo possível de ocupação. Agora já está sendo possível puxar o preço um pouco para cima na locação. Quando olhamos para seminovos é a mesma coisa: fizemos o tanto que queríamos vender e selecionamos os carros que desejávamos vender com o preço que queríamos”.

 

A Localiza, por sua vez, observa o cenário de incertezas à frente mas considera, ao contrário da concorrente, um movimento de reajuste de preços, de acordo com seu diretor financeiro, Maurício Teixeira: “Se o preço do carro novo subir o do seminovo também subirá. A gente sabe dos desafios que temos em cenário de alto desemprego, de restrição ao crédito e de dificuldade na venda, por esses motivos. Então o líquido desses efeitos é difícil de dizer agora”.

 

Luis Fernando Porto, presidente da Unidas, também sinalizou para reajuste nos seminovos para acompanhar o aumento promovido pelas montadoras. Para ele um estoque saudável está concentrado de 7% a 8% da frota total da companhia. No caso da Unidas, de acordo com balanço do primeiro trimestre, esteve acima de 10%.

 

As medidas reagem a um cenário visto em abril, que foi apresentado pelas locadoras de forma preliminar em seus balanços. A Unidas, por exemplo, alegou ter deixado de vender 4 mil veículos por causa do fechamento das lojas. A Movida baixou os preços para manter os volumes na transição abril-maio.

 

À frente. Enquanto as empresas se debruçam sobre planejamentos de vendas em tempos de pandemia, as mesmas cabeças que se esforçam para criar meios de desmobilizar a frota também estão pensando em novas formas de explorar serviços na plataforma automóvel. É um sinal claro de que exergam um novo contexto comercial tão logo as medidas de isolamento sejam abrandadas gradativamente.

 

A Movida fala em modelos pague-pelo-uso, quando o locatário remunera a locadora por quilômetro rodado. O presidente da companhia afirmou que ainda existem pilotos de produtos com este perfil, mas que eles serão algo inevitável no futuro próximo: “O modelo resolve a questão do custo de armazenamento do veículo e mantém o cliente na carteira. Também vemos o carro por assinatura como o futuro do setor”.

 

Para o professor Antônio Jorge Martins, da FGV SP, especialista na cadeia automotiva, o período serviu para acelerar medidas que seriam tomadas pelas companhias em algum momento: “Neste período houve uma certa demonstração de que grandes volumes geram grandes custos quando as empresas se deparam com situação críticas. Ter um estoque elevado representa muito bem este cenário delicado em que as empresas se vêem na necessidade de desmobilizar a frota em contexto de consumo desaquecido pela pandemia”.

 

Os resultados obtidos pelas três empresas no trimestre, contudo, foram positivos, apesar de o período ter sido marcado pelos princípios da pandemia e pela queda nas vendas. O balanço consolidado do primeiro trimestre mostrou alta nos principais indicadores envolvendo o braço de maior receita das companhias, a venda de veículos seminovos. Foram vendidos, no período, 68,9 mil veículos, volume 8,5% maior do que o registrado no janeiro-março de 2019. O negócio teve uma receita líquida de R$ 2,8 bilhões, alta de 15%.

 

Foto: snowing/Freepik.