Excesso de capacidade pode se tornar problema no pós-pandemia

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Foto Jornalista  Bruno de Oliveira

Por Bruno de Oliveira

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29/05/2020

São Paulo – O cenário desenhado para o pós-pandemia de covid-19 para o setor automotivo indica trajeto oposto àquele trilhado nos últimos anos pela indústria, que ampliou sua capacidade produtiva de olho em um potencial mercado em ascensão. Antes da chegada do novo coronavírus era consenso que a crise de 2014 ficara para trás e o caminho a ser percorrido era de subida de volumes de vendas e, um pouco menos, de produção, devido ao fator Argentina.

 

Agora, passada a pandemia, dois fatores jogam para baixo as estimativas do setor: a economia enfraquecida do principal sócio regional, a Argentina, faz com que as fabricantes percam fração importante daquilo que chegaram a produzir em passado recente. No mercado interno é esperado que o isolamento social produza marcas na faixa de consumo de massa a ponto de quem tiver recurso disponível para compra de um veículo novo considere antes outras aquisições.

 

Diante do cenário tornam-se maiores as chances das montadoras acentuarem medidas de redução de custo que já estavam em curso e antecipar movimentos que redundem no enxugamento do parque produtivo. “A produção sai pior do que a venda quando a pandemia perder a força. Temos uma indústria desenhada, por exemplo, para atender as exportações à Argentina, que está mal e não oferece previsibilidade”, disse Paulo Cardamome, consultor da Bright.

 

O especialista aponta para a diminuição da máquina projetada para fabricar em três turnos cerca de cinco milhões de unidades/ano – em 2013, segundo dados da Anfavea, saíram das linhas o volume recorde de 3,7 milhões de unidades. A produção do ano passado, em ascensão na comparação com anos anteriores, chegou a 2,9 milhões de unidades e, ainda que a associação das fabricantes ainda não tenha se arriscado na revisão da sua projeção para o ano, a expectativa é de óbvia retração.

 

O consultor lembra que a busca pela rentabilidade, mantra entoado com fervor pelas subsidiárias que estão pressionadas por suas matrizes – como é o caso público de General Motors, Ford e Mercedes-Benz, por exemplo – ganha força neste momento e este caminho passa pela redução do custo que se paga para produzir localmente.

 

“Uma vez planificado o tamanho do mercado para os próximos anos fica mais claro que as montadoras vão buscar rentabilidade em modelos de maior preço que não garantem, necessariamente, volume às fábricas a ponto de se preencher a capacidade que existe”, disse Fernando Trujillo, da IHS Markit.

 

Já há indícios desta movimentação em termos produtivos. O mais célebre é o da Ford, que saiu do mercado de caminhões e, segundo seu planejamento global, deverá focar o desenvolvimento da sua oferta em modelos que podem ser rentáveis, como os SUVs. “A indústria espera que as compras de veículos aconteçam daqui pra frente na faixa de famílias com renda superior a R$ 5 mil. Este consumidor quer conteúdo e pagará mais por ele, sem falar que este extrato social é o que sofre menos com a crise. Logo o interesse das montadoras no nicho”, disse Cardamome.

 

O executivo disse que o mercado potencial de consumidores de SUVs, no Brasil, gira em torno de 1,3 milhão de pessoas. Nos últimos meses o mercado viu chegar produtos fruto de uma nova onda de investimentos cuja estratégia comercial tem aderência ao que propõe o consultor da Bright. A General Motors lançou em março o Chevrolet Tracker, considerado o mais importante dos sete lançamentos projetados para o ano. A Volkswagen, por sua vez, lançou o Nivus, que terá preço acima dos hatches e sedãs premium. No ano passado a montadora lançou o T-Cross com as mesmas pretensões comerciais.

 

Reduzir o custo operacional ajustando os projetos de veículos a esse propósito também aparece como importante ferramenta às montadoras e também já vemos algumas iniciativas. Plataformas modulares, como a MQB, da Volkswagen, a TNGA, da Toyota, e a CMP, da PSA, são mostras de que a indústria corre para produzir mais com menos. A aliança Renault Nissan Mitsubishi divulgou na quinta-feira, 28, planejamento de racionalização de plataformas e produção no Brasil, no qual ficou estabelecido a produção de sete modelos na plataforma CMF-B, em duas fábricas. Na América Latina o grupo mantém cinco.

 

Pessimismo. São poucos aqueles que buscam projetar cenários para o segundo semestre, dadas as incertezas em torno do combate ao vírus. No entanto, são muitos os agentes que projetam retomada lenta do consumo e do retorno da produção aos níveis pré-crise. O Banco Mundial divulgou em maio relatório a respeito da economia da América Latina durante a pandemia: o que se concluiu é panorama de forte pressão de custo sobre a produção industrial.

 

“Efeitos diretos e indiretos da epidemia podem desencadear recessões graves. Em um ambiente de distanciamento social, muitas empresas passam a ter valor agregado negativo, pois o custo dos insumos excede a produção bruta. Embora muitas empresas não consigam vender seus bens e serviços, elas ainda precisam pagar a massa salarial, dívidas, aluguéis e impostos. Muitas podem falir e ter de demitir seus funcionários, o que, por sua vez, reduzirá a demanda agregada”, justifica o relatório do Banco Mundial.

 

“Havia esperança de expansão em busca de novos mercados para ocupar a capacidade da nossa indústria, como foi o caso do acordo com a União Europeia. Mas o europeu, eu acho, está mais interessado na nossa comida do que em nossas peças e veículos”, analisou Paulo Cardamome, da Bright.

 

Foto: Divulgação.