São Paulo — Francês com coração brasileiro. É assim que Thomas Gautier, CEO da logtech Freto, se define logo no início da entrevista. Desde 2013 no País, se encantou com o setor de logística e batalhou para conseguir a independência do então projeto da multinacional Edenred, dona da Ticket, criado do zero justamente por não encontrar similar no mercado brasileiro.
Em ação desde 2019 e emancipada neste ano, a startup se propõe a fazer a ponte entre caminhoneiros e cargas por meio de uma plataforma digital. Com R$ 8 bilhões movimentados em frete desde então, e recente rodada de investimentos que injetou R$ 22,5 milhões na operação, os planos são dobrar o faturamento, cujo valor não é informado, ainda neste ano.
A empresa agora é controlada pelas famílias Corrêa da Silva e Stumpf, empreendedores gaúchos que fundaram grandes ativos no Brasil, como Getnet, Embratec, Saque e Pague e Banco Topázio. O aporte também conta com a família Galló, representada por Christiano Galló, cofundador da Quartz Investimentos e Edenred Capital Partners, o fundo de venture capital da Edenred.
O aplicativo que dá match entre o caminhoneiro e a carga é como um Tinder – ferramenta virtual que junta casais – do transporte, nas palavras do executivo. “No estilo Netflix, o caminhoneiro tem a página dele com as cargas que correspondem melhor às características do caminhão. É diferente do sistema de um carro por aplicativo, em que você entra nele rumo ao seu destino independentemente de quem é o motorista. Quando se trata de carga, há regras a serem respeitadas de acordo com o tipo de mercadoria e do veículo, o trajeto, o monitoramento da transação. Há uma ficha técnica por trás para que haja o melhor casamento possível.”
Atualmente, o Freto possui base ativa de 125 mil caminhoneiros e transportadores que movimentam, diariamente, 3,5 mil cargas. O intuito é dobrar esse volume no ano que vem. Até o fim de 2022, a projeção é que os motoristas realizem média de quatro viagens de longa distância por mês. Hoje, são 2,6 viagens.
Para alcançar esses números, Gautier afirmou que a ideia é, além de ampliar as funcionalidades da plataforma, humanizá-la. No início da pandemia, ele relatou que havia enorme dificuldade em localizar estabelecimentos comerciais abertos na estrada para que os caminhoneiros fizessem suas refeições. Então foi criada ferramenta para que tivessem acesso aos mercados e restaurantes abertos. Também foram financiados testes de Covid.
Para o ano que vem, o Freto vai lançar iniciativa que disponibilizará, em parceria com startup especializada em saúde, pacotes a custo baixo para esses profissionais. “Em pesquisas que fizemos 70% dos caminhoneiros não têm convênio médico. Queremos levar a saúde dentro da boleia por meio de telemedicina, uma vez que eles vivem na estrada. Vamos oferecer planos que tenham também seguros embutidos, caso precisem se afastar do trabalho sem perder seu rendimento. A ideia é montar pacotes de soluções acessíveis.” Gautier disse que mais para frente, talvez no fim do ano que vem, planeja amadurecer projeto que amplie o acesso à educação desses profissionais.
Com relação ao acesso à plataforma, o CEO do Freto assegurou que mais de 90% dos caminhoneiros possuem smartphone e estão conectados o tempo todo. E que para garantir o ingresso no aplicativo em regiões em que o sinal de internet e telefonia apresentam problemas de conexão, a ferramenta continua funcionando no decorrer da viagem, independentemente da cobertura. “Ou seja, ela vai armazenando as informações da viagem e, assim que o telefone retorna para uma área de cobertura, os dados são compartilhados com o sistema.”
Nos planos para o ano que vem também está incluído o avanço de fronteiras com disponibilização do aplicativo no idioma espanhol a países da América do Sul, como Argentina e Chile, que têm condições de estradas semelhantes às brasileiras e, de acordo com Gautier, carecem de soluções do tipo. “Mas, antes, queremos ampliar a atuação no Brasil, onde o mercado é muito grande. São gastos R$ 500 bilhões por ano com transporte de carga. Os nossos R$ 8 bilhões em dois anos nos orgulham, mas também nos mostra o potencial enorme que temos.”
O executivo apontou que a razão de ser da empresa é simplificar a logística rodoviária movendo caminhoneiros. “No Brasil, mais de dois terços do transporte de cargas se fazem por esse modal. Mas, ao mesmo tempo, esse país de dimensões continentais que tem dezesseis vezes o tamanho da França possui infraestrutura obsoleta e muitos processos desatualizados, com maneira obscura de se fazer as coisas. Logística burocrata, cara e com pouco compliance, pouca segurança e a fraude sendo esporte nacional nesse setor. Então simplificar é torná-la mais inteligente e eficiente.”
Para o CEO, diferencial do aplicativo é que ele não funciona como um classificado apenas, trocando os contatos. É realizado filtro no cadastro de profissionais e mercadorias: “Garantimos que a carga existe e que realmente será entregue a um preço já comunicado para o terceiro. Assim ele rentabiliza mais seu ativo. Filtramos o acesso para que a pessoa mal intencionada não entre e haja mais segurança. Validamos o cadastro do profissional com carteira de motorista, antecedentes judiciais, gerenciamento de risco. Depois o acompanhamos em toda a sua jornada. Com base no comportamento ou nível de serviço ele tem acesso às melhores cargas.” O acesso não tem custo ao caminhoneiro.
Foto: Divulgação.