Quase fechados os números de vendas de veículos do primeiro trimestre de 2023 e o mercado segue patinando, com crescimento tímido, abaixo do esperado. O principal problema, desta vez, não é só a falta de carros a entregar, que persiste para alguns modelos, mas o que falta são clientes com renda e confiança suficientes para se endividar, assumindo financiamentos muito caros, de curto prazo e prestações altas.
O crédito mais acessível seria a única maneira de acomodar no bolso os elevados preços, que transformaram carros em bens distantes para a maioria da população.
Ocorre que os juros foram igualmente lançados à estratosfera: de acordo com levantamento da Anefac, com trinta bancos, a taxa média para compra de veículos no sistema do CDC, crédito direto ao consumidor, em janeiro passado chegou a quase 2,2% ao mês, 29,7% ao ano, o mais alto nível que se tem notícia desde a virada dos anos 2000 – e mais do que o dobro da atual taxa básica Selic, do Banco Central, estabelecida até esta semana em 13,75%. Para fazer comparação mais recente em novembro de 2020 este mesmo juro médio do CDC, já em rota de alta, era de 1,3% ao mês, 16,6% ao ano, e em janeiro de 2022 era de 1,9% ao mês e 25% ao ano.
Com custo tão elevado e prazos não maiores do que 36 meses ninguém em sã consciência tem disposição ou poder financeiro para assinar um contrato de financiamento.
E mesmo se topasse cometer tal desatino para comprar um carro zero a maioria das pessoas nem consegue, pois os bancos ficaram bem exigentes para conceder empréstimos diante do mais alto índice de inadimplência das últimas duas décadas: quase 5,5% dos financiamentos de veículos estão com prestações em atraso por mais de noventa dias.
Baixa recorde de financiamentos
O resultado da combinação de preços e juros altos com inadimplência elevada é que os financiamentos de veículos contraídos por consumidores caíram para níveis de baixa nunca vistos antes: no fim de 2022 apenas 32% das compras de carros foram financiadas, 64% foram pagas à vista – e a maioria destas por empresas, já que não há no Brasil tantas pessoas com poder para quitar no ato automóveis de mais de R$ 100 mil.
Historicamente estes porcentuais sempre foram opostos, quase sempre mais de 60% das vendas de carros no País eram a prazo. Nos últimos anos o crédito sustentou o crescimento do mercado brasileiro de veículos, inclusive em tempos de crises econômicas, como em 2008. Sem esta ferramenta a expansão das vendas é insustentável. Isto é, na verdade, história recorrente.
O pior é que esta não parece ser uma situação pontual ou momentânea, não vai passar tão cedo. Segundo recente reportagem da jornalista Rúbia Evangelinellis para a revista AutoData de março os juros podem até cair um pouco este ano mas continuarão em patamar elevado, acima dos dois dígitos porcentuais, ao mesmo tempo em que os bancos continuarão com o pé-atrás e só aprovarão financiamentos para quem pode pagar – e estes são um número reduzido.
Neste cenário parecem até otimistas demais as tímidas projeções de crescimento nas vendas este ano, estacionadas em expansão de não mais de 3% para os quase mesmos 2 milhões de veículos dos últimos três anos.
O fato é que em 2022, principalmente no primeiro semestre, havia muito mais clientes a atender do que carros a entregar, porque as fábricas estavam sofrendo com a falta de componentes eletrônicos e não conseguiam atender a toda a demanda. Então a restrição de crédito, que já estava sendo desenhada, não era um problema porque as montadoras vendiam tudo que produziam pelo preço que queriam.
Essa maré mudou e pode alterar o perfil do mercado. Algumas promoções já começaram a surgir mas ainda é cedo para dizer se conseguirão sustentar as vendas. Será um ano difícil.