São Paulo – Os caminhos para a eletrificação e a importância de que venha a ser consolidada para direcionar recursos foi o principal foco de debate no painel O Futuro da Eletrificação Automotiva na Indústria Automotiva Brasileira, no Seminário Megatendências 2023 – O Novo Brasil, organizado pela AutoData Editora.
Moderado por Ricardo Bacellar, que integra o Conselho Consultivo da SAE Brasil, contou com a presença de representantes de três empresas em diferentes momentos: a Renault, uma das pioneiras em importar eletrificados para o mercado brasileiro, a GWM, novata em suas operações no País e que finca sua bandeira com os planos de produção local, e a empresa precursora dos caminhões elétricos, a Volkswagen Caminhões e Ônibus.
Diante do desafio de acesso ao crédito os carros elétricos, de maior valor agregado, tornam-se ainda mais distantes da realidade do brasileiro.
“Precisamos olhar não só o preço do carro, mas o custo do quilômetro rodado”, disse Ricardo Gondo, presidente da Renault. “A indústria também deve criar serviços que dêem acesso ao automóvel, como nosso Renault on Demand, programa de assinatura de veículos térmicos e elétricos. Por exemplo: vendemos o primeiro lote de 750 unidades do Kwid e-Tech em menos de sessenta dias.”
Estes carros, segundo o executivo, tiveram alta procura por consumidores em todo o País. Cerca de 70% possuíam geração de energia solar e usaram o simulador da Renault para fazer contas: “Nosso papel é também criar condições que facilitem a vida do cliente a ter acesso aos veículos”.
A GWM estuda o mercado brasileiro há doze anos, esperando o momento certo de entrar, revelou seu diretor comercial, Oswaldo Ramos. Se antes as empresas chinesas vieram ao Brasil para brigar por preço, e essa estratégia não vingou, a GWM entendeu que estava madura com qualidade e tecnologias apropriadas ao perfil do consumidor brasileiro: “A opção de vir agora foi a janela de oportunidades de tecnologia, e não um cenário macroeconômico”.
Para ele não existe solução única: “É preciso educar os consumidores a entender como funciona o híbrido leve, o híbrido autorrecarregável, o híbrido plug-in para diferentes aplicações, usos e consumidores”.
A GWM também olha o futuro e trabalha em tecnologias promissoras como o híbrido flex, o elétrico abastecido por fontes eólicas e fotovoltaicas, e o hidrogênio verde, a partir do etanol.
Há sete anos, quando a VWCO tomou a decisão de tornar elétricos os seus caminhões, sabia que não adiantava ter o produto: era preciso desenvolver todo ecossistema, as cadeias de valores do veículo e da bateria.
“Também percebemos que além de infraestrutura era preciso oferecer diferentes serviços”, contou Leandro Siqueira, vice-presidente de planejamento do produto, estratégia corporativa e digitalização. “E levar alternativas de transformar o capex em opex, como aluguel, ou oferecer um contrato com financiamento de instalação de energia solar atrelada à aquisição do veículo.”
Siqueira ressaltou que não há uma rota tecnológica única, mas ao explorar centenas de caminhos o País e suas indústrias terão dificuldade de direcionar seus recursos.
“Precisamos ter uma variedade, conforme a aplicação e o consumidor, mas devemos ter um direcional forte discutido pelos stakeholders para eleger as tecnologias predominantes e trazer a nossa competitividade para o cenário mundial. Se a gente não olhar e se unir nessa discussão, patinaremos na transformação das novas tecnologias.”
Para atrair investimento é preciso também ter estabilidade nas regras e previsibilidade, lembrou Ramos:
“Escolheremos nossa matriz energética e vamos incentivá-la? Porque se a gente não tiver direção e cada um gastar seu dinheiro no seu sentido, e se as regras mudarem a cada seis meses, e se cada um puxar sardinha para a tecnologia que desenvolveu em seu quintal, que não tem nada a ver com a tecnologia global, e ganhar vantagem tributária porque fez lobby, pode até ter um resultado em curto prazo. Mas em médio e longo prazos baterá nela mesma e matará o mercado brasileiro. Em vez de discutir parar a importação devemos saber como fazer a nacionalização”.