São Paulo – Não. Não foi das melhores a estreia da motorização Euro 6 diante da trombada na mudança de tecnologia Euro 5 para 6 com as incertezas no cenário macroeconômico, o maior rigor na aprovação de financiamentos, os juros nas alturas, e em meio a um PIB que recuou 0,2% no último trimestre do ano passado junto ao contexto turbulento na transição para um novo governo. Dados da Anfavea mostraram que, do total de vendas de caminhões 0 KM no primeiro trimestre apenas 6,4%, ou 1,8 mil unidades, eram Euro 6.
Ou seja: quase a totalidade dos 28,6 mil emplacamentos, 93,6% ou 26,7 mil, eram Euro 5. As montadoras tinham até 31 de março para vender seus estoques com a motorização antiga.
Virada a página no mês de abril quando, obrigatoriamente, apenas unidades Euro 6 podem ser comercializadas no atacado, ou seja, às concessionárias, a situação começou a mudar. Durante o painel de caminhões do primeiro dia do Fórum de Veículos Comerciais 2023 realizado de forma online pela AutoData Editora na segunda, 17, e na terça-feira, 18, o diretor executivo de caminhões da Volvo, Alcides Cavalcanti, trouxe a informação que as vendas começaram a reagir.
“Até o momento, de janeiro a abril, apenas 12% dos caminhões emplacados são Euro 6. E, considerando o volume vendido neste mês, 39% são Euro 6.”
Embora ainda pouco representativa a participação nos licenciamentos de caminhões novos praticamente dobrou com relação ao porcentual registrado no acumulado de janeiro a março, o que se torna ainda mais abrangente se considerado somente o mês de abril.
“Depois de vendas recorde em dezembro 2022 ficamos com baixo estoque de Euro 5 e, na segunda metade de janeiro, começamos a produzir as novas versões. Se olharmos o market share de caminhões a Volvo lidera mercado acima de 16 toneladas”, disse Cavalcanti, que projeta que 2023 deva ter mercado de 75 mil unidades – em 2022 foram emplacados 98 mil veículos desse porte e, se confirmada a expectativa, haverá redução de 23,4% no segmento.
No geral, considerando caminhões acima de 7 toneladas, a Anfavea projeta a venda de 112 mil veículos em 2023. Embora ainda não tenha sido feita nenhuma revisão nas expectativas, o que deve acontecer apenas na metade do ano, após os resultados do primeiro semestre, Jefferson Ferrarez, diretor de vendas e marketing caminhões da Mercedes-Benz, ponderou que o mercado deverá ficar de 15% a 20% abaixo desse número.
A depender do comportamento da economia no decorrer deste ano, e caso a diminuição seja de 15%, são esperadas 95,2 mil unidades comercializadas. E, se for de 20%, chegarão a 89,6 mil unidades.
“Embora a tecnologia Euro 6 entregue maior valor agregado, com menor consumo, menores emissões e maior TCO, houve uma soma de fatores, juros altos, restrição ao crédito, insegurança em questões políticas à espera de posicionamento do governo. A junção disso tudo é desafiadora, mas acredito que esse momento seja transitório e o mercado se comportará dentro de expectativas de crescimento.”
A recuperação, no entanto, é aguardada para o segundo semestre. Ricardo Alouche, vice-presidente de vendas, marketing e serviços da Volkswagen Caminhões e Ônibus acredita que isto deverá ser calcado a partir da estruturação da política econômica do governo, com novos programas, como o Renovar, e melhores taxas de financiamento a partir do Finame BNDES, que darão consistência ao mercado de caminhões.
As perspectivas continuam positivas para o setor de caminhões e ônibus, assinalou Alouche, ao mencionar nova concorrência do Caminho da Escola, que está sendo alinhada pelo governo federal com volumes representativos. Em março o FNDE, Fundo de Desenvolvimento da Educação, confirmou a AutoData que novo edital será divulgado neste primeiro semestre:
“A agricultura também continua pujante, com projeção de incremento de 7% a 13% para o PIB agrícola em relação ao ano passado. Ou seja, essa demanda não parou por conta de Euro 6 ou por troca de governo: ao contrário, ela continua ativa. Passada essa fase atípica e desafiadora do primeiro trimestre, portanto, o ano segue sendo bastante promissor”.