São Paulo – Frequentemente apontado como o combustível do futuro, o hidrogênio começa a dar seus primeiros passos concretos no Brasil. Durante o Seminário Brasil Eletrificação e Descarbonização, promovido por AutoData, GWM e Hyundai revelaram planos ambiciosos para trazer a tecnologia ao mercado nacional, com foco nos veículos pesados, e soluções inovadoras que fazem uso da infraestrutura brasileira de biocombustíveis.
Thiago Sugahara, gerente de ESG da GWM, destacou que a empresa não enxerga a eletrificação como fim em si mesma. “A GWM não faz eletrificação pela eletrificação, ela faz eletrificação pela descarbonização.”
A montadora chinesa trouxe ao Brasil, em julho, um caminhão de 39 toneladas classe 8 movido a hidrogênio para testes de validação em condições brasileiras. Na China, a divisão GWM Hydrogen já opera mais de 2 mil caminhões com essa tecnologia.
A Hyundai, por sua vez, acumula 27 anos de experiência com hidrogênio. Fernando Yamaguchi, supervisor sênior de desenvolvimento de negócios de hidrogênio da montadora sul-coreana, explicou a filosofia: “O hidrogênio é o progresso para a humanidade. Ele é considerado limpo e sustentável, seguro, não é tóxico e é acessível, pode ser produzido de qualquer lugar”.
A companhia já comercializou 38 mil unidades do Nexo, veículo de passeio a célula de combustível mais vendido no mundo, além de operar frotas de caminhões e ônibus em diversos países.
Parcerias estratégicas como caminho
As duas montadoras enfatizaram que o sucesso do hidrogênio no Brasil depende fundamentalmente de parcerias. “A ideia não é importar caminhões e células da China. A ideia é buscar parcerias estratégicas no Brasil para pensar em desenvolver esse mercado”, explicou Sugahara. A GWM firmou termo de engajamento com o governo do Estado de São Paulo e colabora com IPT, USP e Senai Cimatec.
A questão da infraestrutura, frequentemente apontada como obstáculo, pode se transformar em oportunidade. Sugahara propôs uma visão inovadora: “Talvez a grande beleza do hidrogênio é que ele pode ser produzido a partir de diferentes materiais.”
O executivo imaginou um futuro onde caminhões possam abastecer com diferentes tipos de hidrogênio ao longo de suas rotas – desde o hidrogênio cinza, vindo da reforma de gás natural, até o verde, eletrólise com energia renovável.
Hyundai e GWM convergem ao identificar o transporte pesado como aplicação prioritária. Yamaguchi justificou: “Um caminhão elétrico tem bateria muito pesada, que demora para recarregar e perde o payload.”
A viabilidade econômica também favorece esse segmento. Para atingir o ponto de equilíbrio de uma HRS, sigla para estação de abastecimento, seriam necessários 700 veículos de passeio circulando, contra apenas 15 caminhões, disse o executivo da Hyundai. “Conseguimos estimar o percurso do caminhão, que roda muito mais, e também o consumo de hidrogênio desse tipo de transporte é maior”.
Etanol brasileiro como diferencial
Uma das apostas mais promissoras para o Brasil é o uso do etanol na produção de hidrogênio. Yamaguchi explicou o processo: “Seria o aquecimento do etanol em altíssimas temperaturas, quebrando as moléculas. Com isso, divide as moléculas e gera o hidrogênio.”
A Hyundai participa de um projeto pioneiro desenvolvido pela USP em parceria com o RCGI, Research Centre for Greenhouse Gas Innovation, Shell, Toyota, Raízen e Senai.
“Imagina utilizar toda a infraestrutura de rede de distribuição de etanol, que são os postos espalhados no Brasil inteiro, colocando um reformador de etanol e podendo abastecer os veículos pesados?”.
Desafios e perspectivas
Os obstáculos são significativos. Yamaguchi citou o alto custo do hidrogênio e do veículo a célula de combustível, cinco vezes mais que um veículo a combustão normal. A ausência de infraestrutura e a concorrência com biocombustíveis de baixo carbono também figuram entre os desafios.
Porém, avanços recentes animam o setor. A legislação de 2024 começou a regulamentar o tema, programas como PNH2, Rehidro e Mover trazem incentivos, e universidades desenvolvem pesquisas. “Sem ajuda de política pública, a gente não vai conseguir”.
Durante a COP 30, a chinesa e a sul-coreana planejam ações para demonstrar suas tecnologias. A GWM apresentará um barco desenvolvido em parceria com o Grupo Náutica, equipado com célula a combustível. A Hyundai anunciará o envio de seis caminhões fuel cell para operação no Uruguai, voltada à descarbonização da indústria madeireira.
“Acreditamos que o hidrogênio é o combustível do futuro”, concluiu Yamaguchi, sintetizando o otimismo cauteloso do setor diante de um caminho reconhecidamente longo, mas promissor.