São Paulo – Foi-se o tempo em que, se dizia, a agenda ESG era a moda da vez, a vedete das estratégias de marketing. A preocupação com as emissões de CO2 da atividade produtiva e os riscos ao meio ambiente, com isonomia de salários, diversidade e inclusão, e com o entorno, o que inclui ajudar a reduzir diferenças socioeconômicas e gerar oportunidades, é condição fundamental para a sobrevivência das empresas.
Nelmara Arbex, sócia líder de ESG da KPMG, e Felipe Salgado, diretor de descarbonização da KPMG, contextualizaram o cenário diante de uma agenda em aceleração e que vai tirar do jogo quem não se adaptar a ela, durante o primeiro dia do Seminário Brasil Elétrico + ESG, realizado de forma online por AutoData até terça-feira, 24.
Diferencial competitivo ainda é ponto que atrai quando o assunto é investir e organizar pontos positivos nos âmbitos ambiental, social e governamental da companhia. Os bônus, porém, vão além. É possível obter também redução nos custos das operações, maior acesso a capital, atração de novos clientes e investidores e melhores reputação e relacionamento com stakeholders.
A adoção a práticas ESG define a qualidade da liderança do negócio dentro desse novo contexto. E traz, como recompensa, capital intangível que as torna muito bem avaliadas e com reputação elevada: “Estudo recente mostra que, no caso do setor automotivo, de 45% a 50% do valor das empresas do setor automotivo estão no capital intangível”.
A agenda ESG também funciona como espécie de régua para fabricantes que exportam para a União Europeia, que dentro do compromisso de reduzir 55% das emissões até 2030 estabeleceu mercado regulado de carbono.
Regra em prazo de adequação chamada CBAM, na tradução para o português, mecanismo de ajuste de fronteira do carbono, tem o objetivo de regular a emissão de gases de efeito estufa embutida em determinados bens, como matérias-primas.
Ou seja: quem exporta para a Europa tem de informar a pegada de carbono de seus produtos. Se os produtos estiverem em um limite superior terão de pagar por esse excedente, cuja tonelada de CO2 é estimada em US$ 80, contou Salgado. Nessa primeira fase estão enquadrados os setores de eletricidade, ferro e aço, cimento, alumínio e fertilizantes.
Arbex citou que mesmo fornecedores que não exportam, ou exportam, mas não para a União Europeia, precisam ficar atentos, pois serão afetados: “Acho perigoso quem diz que não tem nada com isso e que verá depois pois isto tudo está acontecendo agora”.
Por exemplo: quem embarca para a China insumo que será processado e enviado para a União Europeia será incluído. Além disso quem não souber sua pegada de carbono corre o risco de perder espaço para o concorrente. Salgado disse que no intervalo de um ano esta regra será completamente adotada e que todas as empresas dessa cadeia terão de se movimentar.
Além disso destacou que o Brasil está em vias de aprovar um mercado regulado de carbono que está em linha com o mercado da União Europeia: “Estamos caminhando para fixar limite para que as empresas mantenham emissões abaixo dele. Se o ultrapassarem precisarão negociar”.
Arbex completou dizendo que o Brasil traz vantagens a quem produz localmente por causa das opções de biocombustíveis, incluso o etanol, a possibilidade de gerar energia limpa com as vertentes de hidrelétrica, eólica e solar, e os estudos com hidrogênio: “Isto tudo contribui para que as empresas se posicionem bem neste jogo”.