Multinacional brasileira tem fábricas em catorze países e usa flexibilidade para preservar bons resultados
São Paulo – A internacionalização do Grupo Iochpe-Maxion, multinacional brasileira que faz 75% de seu faturamento em operações fora da matriz, no Brasil, combinada com a estratégia de localizar a produção de rodas e componentes estruturais nos mercados onde estão os clientes, imunizou a companhia do principal problema geoeconômico da atualidade: as pesadas tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos, principalmente os 50% aplicados a Brasil e Índia.
Pieter Klinkers, novo CEO global do grupo – ele assumiu a posição em abril, em sucessão a Marcos de Oliveira –, reconheceu que o mundo inteiro e todas as empresas estão sendo afetados de alguma forma pela política comercial hostil do governo Trump, “mas precisamos fazer bem menos do que outras companhias”.
“Eu não conheço uma empresa no mundo que não tenha sido afetada pela tarifas, mas o impacto direto de tarifas é limitado sobre nossa empresa, porque nossa estratégia tem sido, há muito tempo, construir plantas ao redor do mundo para fornecer localmente”, assinala Klinkers. “Podemos exportar alguma coisa aqui e ali, mas não temos intenção de ser um grande exportador. No mundo de hoje isso é uma vantagem.”
Segundo o executivo a exposição do grupo às tarifas estadunidenses é “pequena e administrável”, porque as 33 fábricas da Iochpe-Maxion em catorze países – incluindo uma de rodas nos Estados Unidos – atuam predominantemente nos mercados locais: “Eu diria que algo como 0,1% do faturamento no Brasil é afetado pelas tarifas. No caso da Índia temos duas fábricas lá, uma não exporta nada e outra muito pouco, então menos de 10% das receitas são afetadas”.
E por ser uma empresa amplamente globalizada, com presença na Ásia, Europa, África, América do Sul e do Norte, também há a possibilidade, caso seja necessário, de transferir a produção de rodas para países que pagam tarifas menores: “Temos essa flexibilidade, somos ágeis. Podemos, por exemplo, passar rapidamente parte da produção da Índia para a Turquia se isto fizer sentido”.
Baixo impacto
A operação mais afetada por exportações aos Estados Unidos seria a de componentes estruturais para veículos pesados localizada no México, mas os itens produzidos lá estão dentro do acordo de comercial USMCA e não pagam tarifas. Neste caso, disse Klinkers, o impacto maior à fábrica mexicana é o da baixa demanda por caminhões no mercado estadunidense.
Estratégia de produção local atenua impacto de tarifas dos Estados Unidos. Fotos: Divulgação/Iochpe-Maxion.
Mas o executivo ponderou que as tarifas podem causar impactos indiretos aos negócios: “Claro que se a demanda por veículos for afetada [por causa de possíveis aumentos de preços provocados pela elevação de alíquotas de importação] nosso faturamento também pode cair. Esta é uma preocupação maior do que as tarifas propriamente ditas”.
Até o momento, afirmou Klinkers, não há planos de fechar nenhuma das fábricas em operação no mundo. Também não se vislumbra aumento de demanda suficiente para expandir a produção nos Estados Unidos, onde a Iochpe-Maxion produz rodas de aço em Sedalia, Missouri: “Para abrir uma nova fábrica são necessários pelo menos dois anos e grandes investimentos. Não vemos necessidade agora e não vamos tomar qualquer decisão apressada por causa das tarifas, que mudam a todo momento. Vamos esperar para ver”.
Expansão de fábricas
Atualmente a Iochpe-Maxion tem dois grandes programas de expansão em curso no mundo: um na Índia e outro na Turquia, com investimentos na casa de US$ 80 milhões em cada localidade.
A operação mexicana em Castaños está sendo ampliada para exportar componentes estruturais, chassis de veículos pesados aos Estados Unidos: “No momento o mercado de caminhões está em baixa na região, mas avaliamos que vai voltar a crescer e estaremos preparados para aproveitar esta oportunidade”.
Na Turquia, onde já são produzidas rodas de aço, uma nova linha de produção está em construção e deverá entrar em operação até o fim do ano para fabricar um produto inédito no portfólio da Iochpe-Maxion: rodas de alumínio forjado para veículos comerciais pesados, abrindo um novo e até então inexplorado mercado para a companhia.
Focos de crescimento
A Maxion Wheels, que tem fábricas em doze países, é a maior fabricante de rodas do mundo, com produção de cerca de 50 milhões de unidades por ano, incluindo modelos de aço e alumínio para veículos leves e pesados. Este ano os principais mercados em crescimento para a unidade de negócio são Brasil, Turquia, Índia e China: “Não somos os maiores em nenhum dos mercados onde atuamos, mas juntando todas as fábricas no mundo ficamos no primeiro lugar”.
Klinkers, antes de assumir a presidência global do grupo, era o CEO da divisão de rodas.
Já a divisão Maxion Structural Components produz estruturas de metal para chassis de veículos pesados em seis países e atualmente os focos de crescimento estão no Brasil e México.
Klinkers projetou que, nos próximos anos, as principais fontes de crescimento das receitas virão, principalmente, da Índia e do Brasil, com a conquista de novos clientes e a oferta de novos produtos – como, por exemplo, rodas de aço com desenhos estilizados, mais baratas, que competirão com as de alumínio.
“O Brasil é um mercado bastante favorável ao nosso negócio. Há poucos anos muitos reclamavam no País mas atualmente os resultados são bons”, afirmou Klinkers. “Na maior parte do mundo as vendas de veículos estão estagnadas enquanto o mercado brasileiro apresenta índices de crescimento acima da média mundial. Existe alguma retração agora nas vendas de caminhões, mas projetamos que voltarão a crescer.”
Na Ásia, que atualmente representa menos de 10% do faturamento global da Iochpe-Maxion, o maior crescimento virá da Índia, disse Klinkers, contrariando o senso comum de que as maiores oportunidades de expansão estariam na China, onde a companhia já tem duas fábricas de rodas: “No mercado chinês o crescimento é limitado pela enorme concorrência de preços. Quem chegou no país há trinta ou vinte anos colheu bons resultados, agora esta fase passou”.
Isto não quer dizer, no entanto, que os fabricantes chineses de veículos sejam desinteressantes para a Iochpe-Maxion. Muito ao contrário o plano é ganhar mais contratos de fornecimento, tanto dentro como fora da China: “Os chineses estão exportando cada vez mais e abrindo fábricas no Exterior, como no Brasil. Nossa intenção é ter com estes fabricantes a mesma participação de fornecimento de rodas que temos em cada mercado”.