São Paulo – Com boa parte das empresas associadas afetadas pelos aumentos das tarifas de importação promovidos pelo governo dos Estados Unidos, em especial fornecedores de componentes para veículos pesados, o Sindipeças decidiu concentrar as negociações com o setor privado, sem depender de conversas dos governos. Segundo seu presidente Cláudio Sahad a pressão está sendo feita pelos clientes das empresas brasileiras, localizados no território estadunidense.
“Se formos depender de negociações do governo esta situação levará muito tempo”, disse a jornalistas após a abertura do Simea, Simpósio Internacional de Engenharia Automotiva, na quarta-feira, 13. “Optamos pelo seguinte: as empresas daqui estão conversando com os clientes dos Estados Unidos para que eles convençam a chancelaria de que é preciso resolver o problema criado, de aumento de custos para eles, e incluir na lista de exceção”.
Em nota enviada à reportagem após a publicação deste texto o Sindipeças reforçou que tem agido para mitigar os efeitos das sobretaxas. “O Sindipeças tem atuado em diversas frentes, participando de audiências e conversando presencialmente com autoridades do alto escalão do governo e com a área técnica do MDIC, além de outros fóruns que tratam do tema. Já foram feitas dezenas de reuniões, internas e externas, e a área de Comércio Exterior realizou detalhado estudo sobre a abrangência das medidas”.
O que a entidade e suas associadas buscam é que as peças para veículos acima de 5 toneladas sejam incluídas na seção 232, como os componentes para leves, até 5 toneladas, foram inseridos. Eles pagam 27,5% de imposto de importação, enquanto as alíquotas de pesados subiram para 52,5% desde 6 de agosto.
O que ocorreu foi justamente uma inversão: até 6 de agosto as peças para pesados tinham alíquota de 12,5% e as para leves 27,5%, desde abril, quando Donald Trump promoveu o primeiro aumento de tarifas. Não se sabe a razão da decisão dos Estados Unidos, mas o presidente do Sindipeças garante não ter a ver com questão comercial, uma vez que o Brasil é deficitário na balança comercial com o país da América do Norte.
Sahad disse que mais de 90% das exportações para os Estados Unidos, que de janeiro a junho somaram US$ 623,3 milhões, ou 15,7% da pauta brasileira, têm como destino fabricantes locais. “É pouca coisa para o segmento de reposição. Então não é tão simples mudar a origem da compra, porque é preciso investir em ferramental, por exemplo. Assim, a pressão junto à chancelaria pode ser eficaz”.
Ele teme, porém, que uma demora na resolução possa significar perda de clientes por lá. “É difícil conquistar clientes para exportação, mas é muito fácil perder. E depois que perde fica bem mais difícil reconquistar”.
E o Sindipeças? “Nosso movimento é esperar. Existem ainda componentes em navios, e o que foi embarcado antes de 6 de agosto chegará lá com a tarifa antiga. Não conseguimos ainda calcular o tamanho do impacto no setor: passou um caminhão na estrada de terra e levantou poeira, ninguém consegue enxergar nada. Nós vamos esperar a poeira baixar para depois agir”.
N.E.: O texto foi atualizado na tarde da quinta-feira, 14, com a nota enviada pelo Sindipeças para reforçar que tem atuado junto ao governo, ao contrário do que, alega a entidade, o título da reportagem deixou transparecer.