Fabricante de conectores e terminais automotivos aumenta investimentos e produção no Brasil para acompanhar evolução tecnológica dos veículos
Bragança Paulista, SP – Hoje um carro comum tem, em média, de 700 a 1 mil metros de cabos embarcados em chicotes – o número pode ser de até 4 quilômetros em um modelo de luxo com avançado nível tecnológico – que transmitem sinais e energia conectando mais de quarenta centrais eletrônicas, as ECUs, para comandar diversas funções, da luz de seta a sistemas avançados de direção autônoma. Nas pontas de cada um desses fios estão centenas de conectores dos mais diferentes tipos, alguns com dezenas de encaixes precisos. É exatamente este cenário de evolução acelerada que vem fazendo a TE Connectivity crescer no mundo todo e também no Brasil.
Daniel Malufi, vice-presidente da TE Connectivity responsável pela operação na América do Sul, classificou como positivo o atual momento da empresa na região, com fábrica que trabalha 24 horas por dia nos sete dias da semana: “Estamos bem posicionados com o aumento das tecnologias embarcadas nos veículos. Por isto nosso faturamento e investimentos vêm crescendo ano-a-ano mesmo quando a produção de veículos não cresce na mesma medida”.
Com faturamento global de US$ 17,3 bilhões em 2025 e mais de cem fábricas operacionais no mundo, trinta delas dedicadas ao setor automotivo, a fabricante de conectores e terminais automotivos tem atualmente mais de cem clientes no Brasil – os cinquenta maiores respondem por 90% do faturamento – e fornece seus produtos, principalmente, para grandes sistemistas que fornecem chicotes e ECUs às montadoras de veículos leves e pesados, além de máquinas agrícolas e de construção.
Na unidade automotiva da TE Connectivity nas Américas o Brasil, com cerca de 1,2 mil empregados, sedia uma das quatro fábricas na região – duas estão no México e uma nos Estados Unidos – e um dos cinco centros de engenharia, o único na América do Sul.
Operação alimentada por evolução tecnológica
A evolução tecnológica dos veículos produzidos no Brasil se reflete no atual ritmo frenético da fábrica localizada em Bragança Paulista, SP, inaugurada em 1976, duas décadas após a instalação da empresa no País. Hoje a unidade altamente automatizada opera com 55 injetoras, 27 prensas, dez linhas mecatrônicas e quatro de galvanoplastia, dentre outras instalações. Todos os ferramentais são produzidos dentro de casa e alguns são exportados para a empresa nos Estados Unidos.
A fábrica brasileira produz componentes com o mesmo padrão do resto do mundo — o que muda é a escala, assinalou Malufi: “Aqui é o único lugar no mundo onde precisamos produzir muitos itens sob um mesmo teto, porque nossos volumes são menores. Em outros países existem fábricas especializadas em determinados produtos”.
Diretora de vendas e marketing para a América do Sul Mônica Biazon relatou que a TE acompanha de perto as principais tendências tecnológicas para antecipar necessidades e ter o produto pronto para oferecer aos clientes: “Temos cerca de 10 mil engenheiros trabalhando em pesquisa e desenvolvimento no mundo e já temos doze sediados aqui em Bragança que trabalham para projetos globais”.
Em 2025 a TE Connectivity investiu US$ 830 milhões em pesquisa e desenvolvimento e registrou 15 mil patentes, somando requeridas e concedidas. Segundo a executiva, em muitos casos, é necessária certa proatividade para fazer todas essas soluções chegarem ao conhecimento de sistemistas e montadoras: “Sempre promovemos apresentações que indicam as tendências do setor e como podemos participar dos projetos dos clientes”.
“Temos no Brasil montadoras de todas as regiões”, observou Malufi, “e isto facilita o entendimento da engenharia para desenvolver soluções que servem para o mundo todo.”
Desenvolvimento localizado
No Brasil o salto evolutivo de exportar serviços de engenharia para outras unidades da TE no mundo começou há cerca de quatro anos. Mas pouco antes disto a empresa já havia escalado alguns degraus em sua capacidade de desenvolver conectores e terminais no Brasil, justamente para atender à maior demanda das montadoras por embarcar novas tecnologias nos veículos, principalmente propulsão eletrificada e sistemas avançados de assistência ao motoristas, os ADAS na sigla em inglês. Todos esses sistemas requerem centenas de conexões eletroeletrônicas.
Para encurtar o tempo de desenvolvimento de produtos no País e para atender às necessidades cada vez mais aceleradas dos clientes locais, em 2019 a empresa investiu US$ 1 milhão para instalar em Bragança Paulista uma área de laboratórios capazes de realizar centenas de ensaios, tanto para auditar a qualidade e validação de itens já desenvolvidos como para desenvolver novas soluções.
Desde então o centro já recebeu US$ 4 milhões em aportes para compra de equipamentos e instalação de mais laboratórios: “Antes a validação de um produto era feita em unidades no Exterior e podia demorar meses, hoje isso acontece em dias”, afirmou Xavier Jareno, gerente de marketing de produto da TE Connectivity.
Ele acrescenta: “Embora nossos maiores clientes sejam os sistemistas são as montadoras que nos encaminham os projetos e nos escolhem como fornecedor dos conectores que usarão em seus sistemas e chicotes. Por isto precisamos ter uma engenharia muito atuante”.
Nacionalização crescente
Apesar da indicação de localização crescente de desenvolvimento e produção de componentes cerca de metade dos itens comercializados pela TE no Brasil vem de fora, importados principalmente de unidades da empresa na Europa e nos Estados Unidos. Também é importada boa parte dos insumos utilizados nos processos industriais, principalmente metais e resinas. Na mão contrária cerca de 20% da produção em Bragança são exportados atualmente para a TE nos Estados Unidos e na Europa.
“Isto varia bastante de ano para ano: já foi mais de 30% e também já foi 10%”, disse Malufi. “Depende muito do fluxo de projetos dos nossos clientes.”
Mas os processos de nacionalização seguem avançando. Um dos exemplos é a produção em Bragança de conectores para cabos coaxiais que interligam telas e câmaras cada vez mais presentes nos carros nacionais. Há três anos também foi nacionalizada a antena de wi-fi, que torna possível outra funcionalidade cada vez mais oferecida pelas montadoras: a conexão com internet a bordo.
Outro exemplo são os cabos híbridos e seus conectores, que transmitem energia e dados, como acontece atualmente com os retrovisores externos que têm ajuste elétrico e uma câmara acoplada no mesmo componente.
Outra tendência que está trazendo novos negócios à TE Connectivity é a multiplicação de lançamentos de carros eletrificados produzidos no País. Tanto carros elétricos como híbridos utilizam mais cabos e mais conectores.
A adoção genérica de sistemas elétricos de 48V em substituição ao de 12V deverá causar mudanças na arquitetura elétrica dos veículos no futuro, prevê Malufi, com uso de cabos e terminais menores, o que economizará matérias-primas.
China, por enquanto, é oportunidade
A instalação no Brasil de montadoras de origem chinesa, ao menos por enquanto, não afeta nem para o bem e nem para o mal as operações da TE Connectivity. Para Malufi elas ainda são uma oportunidade distante: “Os chineses, neste momento, importam toda a parte eletroeletrônica dos carros que estão montando ou que montarão aqui. Primeiro eles nacionalizarão pneus, rodas, vidros e bancos, e a eletrônica vem por último. Portanto ainda está distante o fornecimento a estes fabricantes aqui”.
Mas o executivo apontou que a rápida evolução tecnológica dos fabricantes chineses é um importante vetor de crescimento para a empresa: “Com a acelerada eletrificação e adoção de tecnologias a China está acelerando o portfólio da TE. A maioria dos carros produzidos lá já usa nossos conectores fornecidos por nossas fábricas instaladas no país”.
Os chineses também estão se aproximando da operação no Brasil:
“Sempre recebemos visitantes da China, tanto da TE de lá como de clientes”, lembrou Mônica Biazon. “Eles têm interesse em observar e aprender como fazemos as coisas aqui.”
Afinal o negócio da TE Connectivity também é o de facilitar conexões.