São Paulo – A Anfavea mantém o sinal de alerta contra possíveis movimentações junto ao governo para a renovação das cotas de importação de CKD e SKD livres de impostos, criada em agosto passado pela Camex, Câmara de Comércio Exterior, após disputa com, especialmente, a BYD, que pedia redução no imposto de importação destes kits. Embora não exista informação de pleito vigente a entidade armou sua defesa com relação ao tema, que, na visão do seu presidente, Igor Calvet, teve na última decisão da Camex o seu “máximo aceitável”. O prazo encerra em 31 de janeiro.
Calvet disse que uma eventual nova mudança nas regras estabelecidas pode emitir um sinal negativo às matrizes, que aprovaram mais de R$ 140 bilhões em investimentos nos últimos anos. E prejudicar a cadeia como um todo: “Existe o risco do empobrecimento da base industrial brasileira. A sinalização com uma prorrogação seria a de um processo produtivo cada vez menos denso porque estes kits chegam prontos. Aço, processos de estamparia, soldagem, são feitos nos países de origem”.
Em agosto, após uma briga que extrapolou o bom senso da Anfavea com a BYD, com troca de acusações e a companhia chinesa chamando as montadoras há tempos aqui estabelecidas de dinossauros por inibir a inovação, foi estabelecida cota de US$ 436 milhões para importação de veículos híbridos e elétricos semidesmontados ou completamente desmontados. Superada a cota, as alíquotas variam de 10% a 35%, dependendo da tecnologia adotada. Em janeiro de 2027 sobem para 35%, todas as tecnologias.
Custo de mais de R$ 100 bilhões
A Anfavea calcula que este valor permitiu a importação de cerca de 30 mil veículos desmontados isentos de imposto. E fez contas do possível impacto desta renovação na cadeia: nada menos do que R$ 103 bilhões deixam de ser aplicados na compra de peças e componentes na indústria brasileira, em um cenário extremo.
O presidente explicou o cenário extremo: seria como, da noite para o dia, as associadas à Anfavea trocassem o modelo de produção por montagem de kits CKD e SKD: “Claro que este cenário é hipotético e inviável, porque existem contratos a serem respeitados e investimentos feitos. Mas precisávamos criar um teto. E é este”.
Além do dinheiro que deixaria de ser aplicado na economia local a entidade calcula que 69 mil empregos seriam cortados nas montadoras e 227 mil no parque de fornecedores. Hoje a indústria de veículos emprega 109,7 mil trabalhadores e a de autopeças em torno de 305 mil, segundo o Sindipeças.
Calvet disse, também, que a intenção não é vilanizar a importação de kits CKD e SKD, que pode funcionar para determinados processos de baixo volume, até para experimentar o mercado: “A Anfavea é contrária à produção em alto volume com kits CKD e SKD. Este processo não deve ser banalizado. Pensando no setor como um todo, é prejudicial”.
Por fim Calvet demonstrou otimismo: na sua visão o governo deverá manter o cronograma estabelecido em agosto, sem novas mudanças de regras.
BYD ampliará nacionalização a partir de abril
Procurada pela reportagem a BYD não informou se pretende fazer pleito pela renovação das cotas. Está em seus planos, no entanto, a expansão da produção em Camaçari, BA, com a incorporação de fornecedores locais e início de operações de soldagem, estamparia e pintura.
Ao jornal Valor Econômico o vice-presidente Alexandre Baldy afirmou que os processos deverão começar de abril a maio. Segundo ele “os equipamentos, embrulhados, já estão na fábrica”.
O cronograma original, estabelecido com o governo da Bahia, permite a montagem em SKD até junho, de acordo com a BYD.