Campinas, SP — O mercado de máquinas agrícolas deve seguir em ritmo moderado em 2026, com produtores mais cautelosos diante do custo elevado do crédito e de preços ainda pressionados das commodities. A leitura é de Rodrigo Bonato, vice-presidente de vendas e marketing da John Deere para a América Latina, ao analisar as demandas dos clientes em feiras e eventos, como ExpoAgro, Show Rural e até ExpoActiva, na Argentina.
Segundo ele, apesar das dificuldades recentes o clima no campo é mais positivo do que nos últimos anos: “É unânime que a produtividade este ano está melhor. O produtor do Paraná está bastante satisfeito, enquanto o Rio Grande do Sul sofreu muito com o clima nos últimos anos. Mesmo assim o ânimo é muito mais otimista olhando para frente.”
Bonato destacou que este otimismo, no entanto, não tem se traduzido diretamente em compras de máquinas: “Os produtores estão vindo em busca de tecnologia, e não necessariamente em busca da compra do equipamento. É atualização, conexão da frota, uso de dados para tomar decisão mais rápida. O movimento hoje é muito mais de planejamento e de aperfeiçoamento do uso dos dados”.
Na avaliação do executivo o principal fator que limita uma retomada mais forte é o custo do financiamento. “Com a Selic neste patamar, você chega facilmente a taxas de 18% a 20% ao ano. Isto traz um desafio muito grande para o tempo de pagamento do investimento. O produtor precisa pensar muito antes de fazer uma compra”.
Esse cenário também tem impacto direto sobre a operação industrial. A companhia adotou ajustes pontuais na produção, como na fábrica de Horizontina, RS, que lançou mão de férias coletivas e layoffs: “É um movimento normal de mercado. Em anos de alta ou de baixa a gente precisa ajustar a capacidade. Não podemos ter a rede de concessionários estocada com este nível de juros porque gera peso financeiro muito grande”.
Os números do início do ano refletem esta mudança no comportamento de compra: “Quando você olha colheitadeiras, que são investimentos mais altos, o primeiro trimestre veio um pouco menor. Já em tratores o mercado está mais neutro, mas com uma troca de perfil”, disse. “Hoje há mais demanda por tratores de menor potência, ligados à pecuária e ao café, que vivem um momento melhor”.
Para Bonato o produtor tem adotado uma postura mais estratégica diante do cenário: “Ele precisa conhecer bem o preço pelo qual vende, ter controle de custos e usar tecnologia para tomar decisão, não só no campo mas, também, na compra e na venda. Com produtividade boa, mesmo com preço mais baixo, ainda é possível manter a atividade”.
Apesar das incertezas no curto prazo o executivo reforçou a importância da visão de longo prazo no agronegócio: “A agricultura é feita de ciclos. Nem só de alta, nem só de baixa. Tanto nós quanto o produtor pensamos sempre no longo prazo”.