Hunzhou, China – Felipe Daemon está há menos de cinco meses na liderança da operação da Leapmotor na América do Sul. Executivo com passagens por outras marcas do Grupo Stellantis afirmou que este curto período tem sido uma “experiência incrível, com uma agilidade muito maior em todos os aspectos”, como no desenvolvimento dos produtos e nas tomadas de decisões.
Há também, por outro lado, um pragmatismo da cultura chinesa presente na relação com seus pares do outro lado do planeta que é comum à cultura ocidental que orienta os trabalhos e as decisões para a busca de resultados: “Como é uma marca muito nova, mesmo aqui na China, para atingir nossos objetivos é preciso construir a identidade da marca e isso demanda muita consistência e um pouco de tempo também”.
A maior novidade, no entanto, é a rotina de trabalho, que precisa se adequar aos horários das reuniões na China, geralmente à noite e nas madrugadas no Brasil: “Brinco que a única época que dormi pior do que durmo hoje foi quando meu filho nasceu”.
Dentre suas missões no Brasil estão ampliar a rede, dobrando o número de casas ainda este ano, manter consistente a estratégia de vendas dos dois produtos, o C10 e o B10, e preparar o terreno para as novidades, com o C16, de seis lugares. Também está no radar ampliar o portfólio ainda este ano: “Estamos observando todas as oportunidades”.
Confira os principais momentos dessa entrevista exclusiva feita na LeapPower, o complexo de produz os componentes essenciais para os veículos da Leapmotor em Hunzhou, China:
Qual é o seu objetivo como dirigente da Leapmotor?
O principal é construir consistência com a marca no nosso mercado e, obviamente, crescer. Temos dois produtos disponíveis, o C10 e o B10, vamos localizá-los em 2027, mas ainda este ano queremos aumentar não apenas o line-up. Já anunciamos o C16, expandiremos a rede, passando de 36 para setenta pontos, dobrando o tamanho da nossa cobertura para sessenta cidades. Obviamente traremos outros produtos, que eu ainda não posso falar quais, mas traremos. Então eu diria que é a combinação da expansão com a consistência: uma das vantagens de ter a Stellantis com a Leapmotor não é crescer a qualquer custo, é crescer da forma correta e sustentável.
Como está sendo trabalhar diretamente com os chineses de uma marca tão nova como a Leapmotor?
Construir marca é um processo que demanda muita consistência e um pouco de tempo também. Você não constrói uma marca do dia para a noite. Acho que ter a oportunidade de trabalhar em marcas icônicas, como Jeep, Fiat, Peugeot e Citroën [Felipe já esteve em diversas posições no Grupo Stellantis] de alguma maneira acho que ajuda. E eles são muito abertos nesse diálogo. Há uma certa expectativa por parte dos chineses principalmente quando explicamos a diferença do cliente brasileiro com relação ao cliente chinês. Falamos muito em tropicalização para sensibilizar a equipe da Leapmotor da China. Isso quando precisamos tomar decisões estratégicas no Brasil que nos ajudem a tropicalizar a estratégia e o produto para aproximar a marca do brasileiro.
Além do C16 estão preparando mais alguma novidade?
Temos novidade, temos novidade também de tecnologia, há muita coisa legal em que estamos trabalhando. O motivo de mostrar estes carros para vocês aqui na China é justamente para conhecerem mais no pormenor as oportunidades que temos para o Brasil. Escutamos muito o cliente e, claro, já mapeamos as prioridades, mas não vou poder dizer quais são…
A Leapmotor também está expandindo sua operação na América do Sul?
Faz todo o sentido. Temos um cronograma que começa em agosto, com o início das operações na Argentina e a venda do C10 e do B10. Em setembro será a vez da Colômbia e no último trimestre estaremos com nossos veículos no Uruguai e no Equador.
Há um número mágico do volume que esperam para a região?
Não costumamos trabalhar com um número mágico, mas fazemos projeções, é claro. Medimos o quanto os negócios estão agregando para a companhia em termos de resultado. Seja market share ou resultado financeiro. E principalmente o quanto é saudável para a operação da Leapmotor.
A competição está crescendo no segmento dos eletrificados. Isto pode motivar um posicionamento ainda mais agressivo nos preços, mesmo com o imposto de importação em 35%?
Preço é um tema bem interessante. Preço quem define é o mercado. Vejo que as marcas chinesas chegaram para quebrar um paradigma do ponto de vista de custo-benefício. O que o cliente pode ter com aquele montante de dinheiro mudou. E isto é ótimo para o cliente. A cabeça das pessoas já mudou, carro chinês é sinônimo de tecnologia. Confiamos muito na nossa proposta de valor porque trazemos uma tecnologia exclusiva que é a REEV, ou ultra híbrido, que resolve uma dor muito grande do cliente no mercado como o Brasil, que é a agonia ou a ansiedade da recarga, tudo isso combinando uma experiência 100% elétrica na condução. As tarifas são apenas mais uma variável nessa equação de preços que não muda nossos planos.