Empresa que opera infraestrutura digital por trás do financiamento de veículos no Brasil vê potencial de crescimento também com redução de juros e conforme Estados forem automatizando os registros de veículos
São Paulo – A Tecnobank se autointitula um vagão que faz a ponte das instituições financeiras com os Detran no sistema de crédito automotivo. Criada em 2007 com o objetivo de desburocratizar o processo de financiamento e registro de veículos, que à época era manual e envolvia o périplo de ir pessoalmente ao Detran e reconhecer firma em cartório, a empresa de tecnologia só começou a operar, na prática, em 2014, quando o Estado da Paraíba iniciou o averbamento eletrônico de contratos e, em 2016, em que a Senatran, Secretaria Nacional de Trânsito, determinou a quebra do monopólio no processo de cadastro dos carros.
De acordo com Isaac Ferreira, diretor de produtos da Tecnobank, ao Agência AD Entrevista, “a compra de um veículo, que envolvia dar entrada no financiamento e realizar o registro no Detran, durava em torno de 35 dias. Hoje as transações nos estados que já têm seus sistemas integrados ocorrem em apenas seis segundos”.
A empresa é sediada em São Paulo e emprega 110 funcionários. Existem 44 destas companhias no mercado, do qual a Tecnobank diz ter fatia de 45%. Por enquanto este modelo de credenciamento é liberado em vinte de 27 estados.
“Acreditamos que, com o avanço em outros estados e também com a adesão progressiva ao Marco Legal das Garantias, será possível triplicar a quantidade de recursos da carteira de crédito, que somou, em todo o País, R$ 544,4 bilhões em 2025.”
Isto porque o prazo de retomada do bem, que no processo judicial demora 180 dias, no extrajudicial é de 22 dias corridos. Leia mais na entrevista abaixo.
Como a Tecnobank opera no mercado de crédito automotivo para facilitar o registro de veículos?
Somos um empresa de infraestrutura tecnológica e regulatória para crédito veicular, com operação direta junto a instituições financeiras e aos Detran, que visa a desburocratizar processos que, anteriormente, exigiam do comprador do veículo que fosse ao cartório, reconhecesse firma do contrato e que depois fosse entregá-lo assinado ao Detran. Naquele período o volume de veículos era menor, no financiamento não havia sistemas nem integrações, era tudo manual. Até que foi sancionado o Código Civil Brasileiro, em 2002, e com ele a necessidade de automatizar este processo. Foi quando nasceu o registro eletrônico de contrato. Ele, porém, era realizado por uma só empresa. Apenas em 2014 o primeiro Estado abriu o mercado para que fossem criadas concorrências, a Paraíba. Com isto até o preço foi impactado e reduzido em até 70%. Em 2016 a Senatran determinou a quebra do monopólio no País, mas este é um processo em curso.
Em quanto tempo foi reduzido o processo?
Antes demorava em torno de 35 dias para o cidadão assinar um contrato, obter o financiamento, pegar o documento e poder levar o carro. Hoje tudo é feito em 6 segundos, ou até em menos tempo.
Quantas empresas operam neste segmento hoje? Qual é a fatia de mercado da Tecnobank?
Atualmente existem 44 empresas concorrentes, mas detemos fatia de 45% deste mercado. Nem todos os estados, porém, já aderiram à automatização deste processo.
Em quais estados o credenciamento é feito hoje, e em quais estão presentes?
Hoje estamos em vinte dos 27 estados, todos em que há o credenciamento. Em cada um deles há uma portaria específica que regula todo o setor e cada um deles tem, no mínimo, dez empresas credenciadas. Mas o volume de veículos é muito grande. Se em 1999 falávamos em 350 mil veículos por ano em 2025 foram financiadas 7,3 milhões de unidades novas e usadas. Isto considerando que apenas 30% dos veículos comercializados, em média, são por meio de crédito. O restante, é à vista. Ou seja: o potencial deste mercado é enorme.
O papel de suas empresas, então, é dar celeridade a este processo? Quantos clientes têm hoje?
Usamos a expressão de que somos uma força invisível, fazemos o meio de campo. Nossos clientes são as instituições financeiras e nosso papel é dar celeridade à obtenção do financiamento e ao registro do veículo. O banco precisa, primeiro, incluir o gravame do veículo para garantir que ele só será financiado por meio dela, o que é realizado com a B3. Quando ela faz este apontamento um pedido de transação chega para nós, e nos comunicamos com os bancos, o que pode ser feito por mais de dez canais, à escolha dele. Nosso sistema identifica quais são os campos obrigatórios, de acordo com cada Estado, valida o documento e, se algum deles não estiver preenchido prontamente avisamos o cliente. Somente quando tudo está ôuquei entregamos ao Detran. Hoje temos aproximadamente 350 bancos em nossa carteira.
E qual o potencial de clientes neste mercado?
A maioria das instituições financeiras são nossas clientes. O potencial varia de acordo com o Estado e com o crescimento do mercado de crédito, o que é fomentado a partir de taxa de juros menor. Na verdade nós somos um vagão. Se o mercado financeiro liberar mais crédito maior é o número de financiamentos. E, à medida que entram mais estados, o volume cresce. Hoje, onde estamos presentes equivale a 85% do mercado, então temos a capacidade de entrar em mais 15%, mas alguns deles ainda têm concessões de até trinta anos com uma empresa de tecnologia, e o processo só pode ser modificado quando o prazo acabar. Hoje os estados que ainda não estão com esse modelo 100% implementado são Alagoas, Amazonas, Ceará, Goiás, Pará, Rondônia e Sergipe. Em alguns deles ainda demora de três a quatro dias para concluir o processo.
Além da redução dos juros e da adesão de outros estados o que é considerado crucial para que o negócio deslanche?
Em dezembro de 2024 o Contran estabelceu um divisor de águas ao determinar que este modelo de credenciamento para o registro de contrato seja obrigatório. Foi quando saímos de onze para vinte estados. Avançamos não só em volume de transações mas, também, em estrutura interna. Continuamos melhorando a tecnologia, o que vem sendo feito sistematicamente desde 2018, com as entradas das ISOs 27001, 27701 e das ISOs de compliance em nossos processos, o que nos deu mais relevância neste mercado. Todos os anos investimos mais de R$ 6 milhões em infraestrutura tecnológica.
Qual é a perspectiva para este ano?
Este é um ano com eleição, Copa do Mundo e muitos feriados. Quanto menos dias úteis menos veículos vendidos. Este é um ponto. O segundo é a expectativa em torno da redução da taxa Selic para a próxima reunião, ainda que na ponta seu efeito demore um pouco a aparecer e embora para o consumidor o que importa, de fato, é se a parcela cabe em seu bolso. O terceiro gira em torno da redução da inadimplência do consumidor, que já baixou de 7,6% para 5,5%, e precisa seguir baixando para que os bancos elevem a oferta de crédito. Isto tudo implicará o porcentual de veículos vendidos a prazo, as variáveis são tantas que este é um ano que nos deixa bastante ponderados com relação à expectativa de crescimento. Devemos manter uma neutralidade com relação aos últimos.
É possível traçar uma perspectiva para os próximos anos?Que impacto é esperado pelo Marco das Garantias?
Temos uma expectativa importante com relação ao impacto que a retomada extrajudicial do bem trará na oferta de crédito automotivo. Em setembro de 2023 foi publicada a lei 14 711 do Marco das Garantias, que, embora por enquanto funcione em apenas dois estados, São Paulo e Mato Grosso do Sul, ou seja, faltam outros 25, temos exemplos de onde isto funciona muito bem. Nos Estados Unidos houve um salto de 34% para 85% dos total de veículos financiados por causa da garantia da recuperação extrajudicial, o que trouxe maior segurança às instituições. Significa que, se hoje financiamos 30% das vendas no Brasil, podemos triplicar este porcentual. Ou seja: a carteira de R$ 544,4 bilhões em 2025 pode passar de R$ 1,5 trilhão.
Como a Tecnobank está se preparando para este potencial crescimento?
Criamos uma nova infraestrutura de mercado para atender ao Marco das Garantias, em que o banco usa nosso sistema para ter, de forma legal, todo o processo de ponta a ponta da recuperação e retomada do bem. Então, pela lei 14 711, ele precisa fornecer contrato e planilha de débitos. A partir disto passamos por processo de validação, integramos a informação ao Detran, enviamos ao Estado em que ele está registrado e, diante do sinal verde, nossa plataforma faz a comunicação ao comprador, com a notificação extrajudicial por meio de canais eletrônicos, e-mail, WhatsApp e SMS. Ao receber o comunicado ele pode entrar em contato diretamente com o banco e renegociar. Caso ele não opte por isto em vinte dias o Detran emite a certidão de busca e apreensão, nos fornece este arquivo e passamos à instituição que, por sua vez, executa a apreensão. Não precisa fazê-la por meio de oficial de Justiça, pode ser por meio de equipe terceirizada. Isto leva em média 22 dias corridos, enquanto que, no processo judicial, no Brasil, há uma média de 180 dias.