Produção cresce no primeiro trimestre mas cai em março

São Paulo – Apesar da queda na produção em março, 2,9% na comparação anual e 12,6% na mensal, somando 190 mil unidades, o ritmo das linhas de montagem brasileiras foi 8,3% superior no primeiro trimestre, com relação aos primeiros três meses de 2024.

Segundo a Anfavea, que divulgou seu balanço na terça-feira, 8, foram produzidos 582,9 mil automóveis, comerciais leves, caminhões e chassis de ônibus de janeiro a março.

O presidente Márcio de Lima Leite disse que a queda de março foi resultado da menor quantidade de dias úteis, por causa do carnaval, e para ajustar estoques – em março a redução foi de 8 mil unidades, segundo os cálculos da entidade.

Foram criadas 2,3 mil vagas de trabalho desde o começo do ano, ponto que foi destacado pelo presidente da Anfavea. Em um ano foram quase 8 mil novos trabalhadores nas empresas fabricantes de veículos.

“O emprego está crescendo, mas permanecerá diante de todas estas incertezas? Diante de tudo que poderá acontecer? Precisamos de previsibilidade e de conter o ataque de importados.”

Contextos interno e externo podem refletir em menos investimentos no Brasil

São Paulo – Pela primeira vez a Anfavea fala em possibilidade de redução dos investimentos da indústria automotiva no mercado brasileiro. As pressões vêm de fora, com o tarifaço de Donald Trump nos Estados Unidos e o crescimento das importações de veículos da China, e de dentro, com a demora na regulamentação do Mover, Programa Mobilidade Verde e Inovação, e a resistência do governo em retomar imediatamente os 35% de imposto de importação para veículos eletrificados.

O ponto de atenção foi levantado por Márcio de Lima Leite, presidente da Anfavea, junto com Cláudio Sahad, reeleito presidente do Sindipeças, no Congresso AutoData Megatendências 2025, na terça-feira, 8, em São Paulo. Há outro fator de risco que corre pelos corredores do governo, segundo ele: um pleito, de empresas chinesas, para reduzir os impostos de importação de CKDs e SKDs.

Lima Leite voltou a tocar no assunto na entrevista coletiva de imprensa da Anfavea, logo após sua participação no Congresso – e a última a que ele esteve como presidente da entidade: “A Anfavea tem 27 associadas, que geram mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos, e a posição delas é que dizer sim a este pleito vai gerar impacto nos investimentos e na geração de empregos. É um ataque ao NIB [Nova Indústria Brasil, programa de reindustrialização do governo federal]. Este pedido não pode prosperar”.

Segundo a Anfavea os pleitos pedem a redução dos atuais 20% a 35% de imposto de importação de CKD e SKD para 5% e 10%. O presidente não quis dizer qual foi a empresa, ou empresas, que fez o pedido.

Da mesma forma seguem os pedidos para que suba para 35%, imediatamente, o imposto de importação para eletrificados, que seguem um cronograma estabelecido pelo governo no fim de 2023 e só têm previsão de alcançar esta tarifa em 2026.

Risco México

Em outra frente existe o risco de deslocamento de produção para o México, país com o qual o Brasil mantém acordo comercial bilateral automotivo. Segundo Lima Leite o tarifaço de Donald Trump, que elevou para 25% o imposto de importação de veículos nos Estados Unidos, poderá gerar capacidade ociosa no México e perda de atratividade do Brasil em investimentos: “Se está ocioso no México por que investir em mais capacidade no Brasil?”.

Fotos: Patrícia Caggegi.

Existem no México 37 fábricas de veículos e outras 1 mil de autopeças, que produzem em larga escala: “Então o Brasil pode ser destino dos produtos mexicanos, principalmente pelo acordo que tem o Mercosul com o México. É natural que comece a haver um deslocamento de produção da América do Sul para o México”.

Pelo menos dois casos já foram registrados, embora Lima Leite não possa garantir que sejam diretamente relacionados: a Nissan encerrará suas operações na Argentina, onde produz a picape Frontier, que passará a ser feita no México. E a Volkswagem passará a importar o SUV Taos, que atualmente vem de General Pacheco, também na Argentina, de sua unidade mexicana

Outro impacto no mercado será a queda da demanda global: “Só nos Estados Unidos prevemos uma queda de 1 milhão de veículos em mercado de 15 milhões de unidades”

Atraso na regulamentação do Mover

Lima Leite observou, também, sobre o atraso na regulamentação do Mover, que vem postergando a aplicação de investimentos e, diante do novo contexto global, poderá resultar em cancelamento de valores já anunciados.

“A indústria não convive com imprevisibilidade. Não temos ainda o valor que foi impactado, mas empresas, não só montadora, autopeças também, estão postergando e revisando investimentos porque as regras não saem. O IPI Verde é todo mês adiado, prometido para o mês seguinte.”

Ele citou também que os recursos de P&D destinados para todo 2025 foram esgotados no primeiro trimestre: “Estes recursos já são insuficientes”.

Só com aumento de competitividade

Para Cláudio Sahad, presidente do Sindipeças, que participou do painel com Lima Leite, a China obrigou o resto do mundo a repensar suas práticas e a reanalisar os negócios. Outra verdade para Sahad é que, para fazer frente a essa concorrência da China o Brasil precisará atacar cada vez mais a competitividade. 

Fotos: Patrícia Caggegi.

“Precisamos cada vez mais investir em novas tecnologias, em inovação, em digitalização, em inteligência artificial. Isso exigirá das empresas uma capacidade de investimento muito grande. Para que as empresas possam ter essa capacidade de investimento, essa musculatura, haverá a necessidade de consolidação de empresas, não porque querem, mas porque precisam”.

Sahad fez uma analogia dizendo que o mercado brasileiro é como uma estrada cheia de pedras e algumas políticas adotadas ajudam a retirar apenas algumas pedras. 

O presidente do Sindipeças coloca vários desses obstáculos a serem enfrentados para tornar o setor mais competitivo: renovação de frota, inspeção técnico-veicular, problemas com ex-tarifários, recomposição do imposto de importação, além da busca de novos acordos bilaterais: “Nosso aumento de volume não está no mercado local, está na exportação. E para termos esses acordos precisamos ser mais competitivos”.

Outra oportunidade para o Brasil, aponta Sahad, é a pegada de carbono que onerará o custo do produto final: as empresas terão que buscar economias de baixo carbono para produzir os seus produtos. E o Brasil pode ser um polo atrativo de empresas do mundo inteiro para produzirem aqui. 

“Nós temos uma matriz energética que nos permite produzir emitindo muito menos carbono que lá fora. E para isso nós precisamos ter políticas que atraiam essas empresas. Isso precisa acontecer”.

Montadoras reagem ao tarifaço de Trump

São Paulo – Desde que entraram em vigor no sábado, 5, os aumentos nas tarifas de importação impostos pela administração Donald Trump vêm desencadeando ações em série que chegaram a afetar a operação de montadoras nos Estados Unidos. A Stellantis suspendeu temporariamente os contratos de trabalho de 1 mil trabalhadores em cinco unidades de Michigan e Indiana, reflexo da interrupção da produção em algumas fábricas do Canadá e do México.

Segundo reportagem da Automotive News a unidade da Stellantis em Windsor, Ontário, onde são fabricadas as minivans Chrysler Pacifica e Voyager e o Dodge Charger Daytona elétrico, suspendeu sua operação por duas semanas, a partir da segunda-feira, 7. Em Toluca, México, de onde saem o Jeep Compass e o novo Jeep Wagoneer S elétrico, a produção ficará parada até o fim do mês.

A Audi está retendo todos os veículos produzidos no México e no Exterior, que seriam entregues aos portos dos Estados Unidos desde 2 de abril, enquanto a Volkswagen interrompeu os embarques ferroviários de carros mexicanos, como o Jetta, o Taos e o Tiguan. A Jaguar Land Rover também informou que suspenderá, temporariamente, o envio de veículos aos Estados Unidos ao longo deste mês, enquanto avalia os novos termos comerciais.

Mas há montadoras com planos de impulsionar a produção em fábricas estadunidenses. Caso da Nissan, que atravessa crise e havia planejado encerrar um turno em uma fábrica no Tennessee mas reverteu sua decisão por causa das tarifas, com o objetivo de manter o fornecimento do Rogue fluindo.

A Mercedes-Benz está avaliando a possibilidade de transferir a produção de outro modelo para sua unidade em Tuscaloosa, Alabama. E a General Motors, por sua vez, está aumentando a produção das picapes Chevrolet Silverado e GMC Sierra um uma fábrica de Indiana.

Para o presidente do UAW, sindicato dos metalúrgicos local, Shawn Fain, as tarifas aumentarão rapidamente a produção industrial dos Estados Unidos em fábricas que têm capacidade a ser ocupada. Dados da GlobalData apontam que no ano passado as montadoras, na média, utilizaram 70% da capacidade.

Brasil acompanha a situação

O Brasil, de acordo com a Anfavea, não exporta veículos aos Estados Unidos. Quando o assunto são as autopeças, porém, o país é o segundo maior cliente das fábricas brasileiras, tendo comprado, no ano passado, total de US$ 1,4 bilhão, respondendo por 17,5% das exportações.

Ainda está sendo avaliado o impacto, uma vez que a taxa de 25% adicional ao imposto vigente para itens como motores, transmissões, sistemas elétricos e componentes eletrônicos automotivos começará a valer a partir de 3 de maio e, segundo empresas consultadas pela Agência AutoData, é vista oportunidade de incrementar os negócios uma vez que seus concorrentes estão sendo taxados com porcentual maior.

Para o restante dos produtos made in Brazil a tarifa adicional é de 10% e começou a valer no sábado, 5. Mas, para países como a China, é de 34%. Com a ameaça chinesa de impor a mesma taxa aos Estados Unidos, Trump declarou que, se não houver desistência desta ideia até terça-feira, 8, a partir da quarta-feira, 9, o porcentual subirá 50%.

Hyundai, Nissan e Chevrolet registram queda no primeiro trimestre

São Paulo – Apenas três marcas dentre as dez mais vendidas do mercado brasileiro registraram números inferiores no primeiro trimestre, comparado com o mesmo período do ano passado. A Hyundai foi a que mais caiu, com vendas 7,3% inferiores no período, para 34,5 mil unidades.

No mês passado, quando consultada pela Agência AutoData, a empresa disse que a razão foi o plano adotado no fim do ano passado, de virar o ano com estoque de fábrica zerado. Vieram as férias coletivas e, em janeiro, a companhia viu suas vendas caírem bastante pela ausência de veículos em estoque.

De fevereiro para março a queda foi reduzida: de 17% no primeiro bimestre para os 7,3% no fechamento do primeiro trimestre, o que indica que a situação foi contornada.

Chevrolet e Nissan registraram queda leve: 1,9% da terceira do ranking e 1,2% da décima. A Nissan foi superada pela Honda e pela BYD na comparação com o fim do primeiro trimestre de 2024. As duas registraram crescimento superior a 40%.

A liderança ficou com a Fiat, com 21,4% de participação, seguida pela Volkswagen, 15,2%.

Veja o ranking:

Concept Be Safe investe R$ 5 milhões em fábrica de blindagem para eletrificados

São Paulo – A blindadora Concept Be Safe investiu R$ 5 milhões em uma nova fábrica de blindagem especializada em veículos eletrificados. Instalada em Sumaré, SP, tem capacidade para blindar trinta carros por mês e pode subir para cem unidades mensais conforme a demanda do mercado avançar.

Segundo a empresa a nova fábrica tem como diferencial o trabalho da engenharia, processos e materiais para garantir a segurança balística, sem comprometer a integridade do veículo eletrificado. O processo envolve o isolamento reforçado dos circuitos elétricos para evitar curto-circuito, dentre outros trabalhos:

“No processo de blindagem de carros elétricos, por exemplo, é fundamental considerar o impacto da proteção sobre a distribuição de peso e a autonomia da bateria, o que exige cálculos mais precisos e materiais mais leves”, disse Rogério Garrubbo, conselheiro de inovação e tecnologia. “Além disso é preciso garantir que a blindagem não interfira nos sensores, radares, conectores de alta tensão e na refrigeração da bateria.”

A nova fábrica conta com funcionários que já possuem experiência no segmento de blindagem e passaram por um programa de aprimoramento focado nas novas tecnologias veiculares, caso da eletrificação e da digitalização.

John Deere prevê mercado de máquinas agrícolas igual ou menor do que em 2024

Campinas, SP – O mercado de máquinas agrícolas em 2025, no melhor dos cenários, terá resultado igual ao de 2024, projetou Antônio Carrere, vice-presidente de vendas e marketing para a América Latina da John Deere. Outro cenário, mais pessimista, indica queda de até 5% na comparação com o ano passado.

A taxa de juros, segundo o vice-presidente, pode afetar bastante os negócios do setor: “Quando sobem os juros os efeitos no mercado de máquinas são maiores. Hoje a nossa projeção é de estabilidade ou de leve queda, mas pode mudar por diversos fatores, como novas elevações das taxas”.

Os efeitos negativos dos juros mais altos, atualmente em torno de 20% para o financiamento de novos equipamentos, já afetam os negócios, segundo o diretor de vendas da John Deere, Horácio Meza. Ele afirmou que o custo mais alto tem pesado para os clientes, principalmente os menores, e duas alternativas têm sido adotadas: consórcios e financiamento em dólar para os produtores maiores. 

Com relação aos negócios da John Deere em 2025 Carrere não revelou os números, mas disse que a empresa adequou seu ritmo produtivo e o estoque da rede para encarar o ano de forma saudável, mesmo com tanta volatilidade. De acordo com Carrere no primeiro bimestre do ano as fábricas e a rede registraram um bom desempenho, conseguindo vender e exportar o que está sendo produzido. 

Linha amarela em alta

O segmento de máquinas de construção, no qual 30% das vendas são para o agronegócio, começou o ano com desempenho acima do esperado. A projeção inicial da John Deere era de alta de 7%, mas as vendas avançaram 11,5% no primeiro bimestre, segundo Thomas Spana, gerente de marketing da divisão de construção. 

A expectativa agora é de que esse ritmo seja mantido até o fim do ano, pois as taxas de juros para financiamentos da linha amarela não subiram tanto, de acordo com o executivo, seguindo em linha com os anos de 2023 e 2024: “Os juros já estavam altos em anos anteriores e, por isto, o mercado se adaptou e não tem sofrido tanto”.

Novo Centro de Distribuição

A John Deere duplicará o tamanho do seu centro de distribuição de peças instalado em Campinas, SP, com a construção de um segundo prédio que funcionará em paralelo ao atual, no mesmo distrito industrial. O seu vice-presidente disse que a empresa já comprou o terreno e agora avançará com o projeto:

“Estamos em fase de planejamento para definir os pormenores, mas no mínimo o segundo prédio terá a mesma capacidade do atual, que tem cerca de 100 mil m² e 170 mil códigos de peças estocados”.

Hoje o estoque da John Deere já é o maior do segmento de máquinas, segundo Carrere, e a empresa consegue mandar uma peça para qualquer lugar do Brasil em menos de 24 horas, sendo que em alguns casos o item chega em duas horas, quando o cliente está mais próximo do centro de distribuição.

O novo centro faz parte dos investimentos que a John Deere aplica anualmente no Brasil, somando R$ 3,3 bilhões nos últimos cinco anos, segundo a companhia.

Dona do Oxxo e Select adota caminhão elétrico e tentará entregas noturnas

São Paulo – O Grupo Nós contratou a EVolution Mobility, gestora de frotas de veículos elétricos, para a distribuição de produtos em suas lojas Shell Select e Oxxo. Serão destinados caminhões 100% elétricos e infraestrutura de recarga com objetivo de reduzir o consumo de combustível, emissões e promover entregas noturnas.

Como os caminhões elétricos não fazem barulho como os a combustão um projeto piloto de entrega noturna será aplicada em lojas da rede localizadas na região central de São Paulo. Deste modo as entregas podem ser feitas em horário alternativo e a distribuição otimizada.

Segundo Eny Hsu, gerente de logística do Grupo Nós, o objetivo é que cada veículo faça ao menos dois carregamentos por dia e reduzam as emissões da empresa em 175 toneladas de CO2 por ano.

“A adoção dos veículos elétricos reforça nosso compromisso em buscar soluções inovadoras e mais sustentáveis para o varejo. Queremos garantir uma operação mais eficiente, econômica e ambientalmente responsável, beneficiando não apenas a nossa empresa mas, também, a sociedade como um todo.”

Os caminhões são da Jac e podem circular pela zona de restrição durante o horário comercial.

Produção de veículos na Argentina cresce 10% no primeiro trimestre

São Paulo – Mesmo com um leve recuo em março a produção de automóveis e comerciais leves, na Argentina, encerrou o trimestre com alta de 10,4% sobre iguais meses do ano passado. Foram produzidas 114 mil unidades, contra 103,3 mil de janeiro a março de 2024, de acordo com dados divulgados pela Adefa, entidade que representa as montadoras instaladas no país.

No mês passado a indústria fabricou 43,2 mil veículos em dezoito dias úteis, queda de 3,7% na comparação com março de 2024 e retração de 2% com relação a fevereiro:

“Os volumes produzidos no primeiro trimestre seguem a tendência de alta que projetamos para 2025″, disse o presidente da Adefa, Martín Zuppi. “A desaceleração em março é reflexo de mudanças que estão ocorrendo em algumas fábricas para a produção de novos produtos e de alguns ajustes logísticos. Mesmo assim crescemos 10,4% no acumulado”.

As exportações somaram 57,9 mil unidades no trimestre, volume 7,1% menor do que o do no mesmo período de 2024. Em março foram embarcadas 24,3 mil unidades, crescimento de 3,4% com relação a idêntico mês do ano passado e de 8% sobre fevereiro.

Segundo Zuppi a Adefa trabalhará ao longo do ano para promover o crescimento das exportações, que são essenciais para a geração de empregos. Os impostos pagos pelas montadoras será um tema que a entidade pretende debater com o governo, pois entende que há espaço para redução, o que ajudaria no avanço das exportações. 

As vendas, conforme divulgado pela Agência AutoData, cresceram 90,2% no trimestre, com 161,2 mil unidades comercializadas. Em março foram vendidos 47,1 mil veículos, alta de 82,6% sobre igual mês do ano passado e de 5,8% com relação a fevereiro.

Alta nas vendas desafia juro alto, por enquanto

O emplacamento de 517,7 mil automóveis e comerciais leves no primeiro trimestre de 2025, em alta de 7,4% sobre o mesmo período de 2024, garantiram o melhor resultado para os últimos cinco anos, em contraposição à maior taxa média de juros da história aplicada aos financiamentos.

Esta contradição, no entanto, não parece ter fôlego para durar muitos meses mais. Na tentativa, débil, de conter a escalada da inflação em três meses o Banco Central já subiu 3 pontos porcentuais a taxa básica Selic, que saiu de 11,25% ao ano no início de dezembro passado para 14,25% em março – e a perspectiva é chegar a 15% até o fim deste semestre.

O resultado já reflete nos juros cobrados nos financiamentos de veículos, que alcançaram o maior nível histórico segundo monitoramento do próprio BC. Em janeiro deste ano, último dado disponível, a taxa média para pessoas físicas chegou a inacreditáveis 29,5% ao ano, uma alta de 3,4 pontos porcentuais em doze meses, com spread de também inacreditáveis 16,25 pontos sobre a Selic catapultada de 12,25% para 13,25% no fim daquele mês.

Esta alta no custo do financiamento de veículos ocorreu apesar do cenário de inadimplência no menor nível histórico, de 4,4% em janeiro.

Também está em vigor há mais de um ano a regulação do Marco de Garantias, que permite aos bancos retomar mais rapidamente o carro de clientes inadimplentes sem necessidade de autorização judicial, o que em tese deveria reduzir riscos e taxas e aumentar o apetite das financeiras em aprovar o crédito – este sistema, no entanto, ainda está sendo morosamente adotado e até agora fez pouco efeito prático, segundo dizem representantes da indústria, das revendas e dos bancos.

Financiamentos crescem com juro alto

Mas se até o momento o risco menor não serviu para reduzir taxas, a alta dos juros também não conteve o crescimento da concessão de financiamentos. Segundo dados da B3, no primeiro bimestre, o número de veículos vendidos a prazo atingiu o maior nível em dez anos. Em fevereiro 82 mil automóveis e comerciais leves zero-quilômetro foram financiados, em crescimento de 20,6% sobre o mesmo mês de 2024 e expansão de 13,6% ante janeiro.

Mesmo com a média de 65% de aprovação nos pedidos de financiamentos, segundo a Fenabrave, que representa os concessionários, o volume de veículos leves financiados representou somente 47,4% dos emplacamentos de fevereiro, demonstrando que há, ainda, muito espaço para crescer e chegar ao patamar histórico de 70% das vendas fechadas a prazo, como era corriqueiro até 2019.

As novas concessões de crédito para compra de veículos também continuam em crescimento: em janeiro, segundo o BC, os contratos para pessoas físicas somaram R$ 16,5 bilhões, alta expressiva de 30,1% em doze meses.

O cruzamento de volumes de carros financiados e valores concedidos a pessoas físicas expõe uma tendência que se solidificou nos últimos cinco anos: o aumento dos preços dos automóveis, hoje na média de R$ 140 mil quando se considera todos os modelos à venda, fazendo com que o avanço no número de veículos vendidos a prazo seja menor do que o de valores de crédito concedido para a compra. Em resumo se vende menos por mais.

Vendas diretas e promoções puxam o mercado

Embora o crédito seja instrumento fundamental para sustentar as vendas de veículos neste início de ano o crescimento do mercado foi lastreado por promoções – que reduzem os preços e fazem a prestação caber em mais bolsos – e pelas vendas diretas de modelos mais baratos a frotistas.

As vendas a locadoras aceleraram no fim de março, com 30 mil emplacamentos somente no último dia do mês, provavelmente em um movimento para aproveitar descontos oferecidos por fabricantes que começam a sentir certa retração do mercado, fazendo o faturamento direto representar mais da metade, 50,8%, dos negócios.

Dentre os veículos mais vendidos de março nota-se maior participação de modelos hatchback que estão na base de preços do mercado e que são tipicamente comprados por frotistas, incluindo locadoras e empresas.

Por exemplo: o Fiat Argo ascendeu ao posto de carro mais vendido do País no mês passado, com 78% dos emplacamentos contabilizados na classificação de venda direta, em que o fabricante fatura o veículo diretamente ao cliente final, em boa parte das vezes com participação de concessionárias no negócio.

Existem exemplos ainda mais gritantes: o Renault Kwid foi o décimo veículo mais emplacado em março e o quarto por venda direta, que representou 96% dos negócios – o mais alto porcentual de faturamento direto dentre todos os modelos do mercado.

Neste ranking de alto porcentual de faturamento direto a vice-campeã foi a picape Volkswagen Saveiro, oitavo modelo mais emplacado de março, mas o terceiro por venda direta, responsável por 94% dos negócios no mês. O Fiat Mobi, no ranking geral o décimo-primeiro mais vendido, foi o sexto mais emplacado por venda direta, que representou 92% das compras.

Varejo para poucos

Nos outros 49,2% do mercado em março, das vendas de varejo intermediadas por uma concessionária, o topo do ranking é ocupado por quatro SUVs – pela ordem Honda HR-V, Toyota Corolla Cross, Hyundai Creta e Volkswagen T-Cross, todos modelos mais caros vendidos à vista ou que absorveram a maior parte dos valores das concessões de crédito.

O carro mais vendido no varejo em março, com 89% das compras nesta categoria, foi o HR-V, que ficou em nono na classificação geral do mês. O modelo foi seguido pelo Corolla Cross, sexto no geral e segundo no varejo, que representou 68% das compras.

O Creta, pouco vendido por faturamento direto, mostra com clareza a flutuação do mercado em direção a modelos mais baratos e compras por frotistas. O carro foi o oitavo mais vendido de 2024 e o quinto no primeiro trimestre de 2025, mas em março caiu para a décima-terceira posição geral e ficou em terceiro no varejo, que respondeu por 89% dos negócios.

O ranking de vendas no varejo comprova que comprar carros como pessoa física em uma concessionária virou aventura de gente com conta bancária bem fornida. Dos dez carros mais vendidos no varejo em março seis têm preços acima dos R$ 200 mil.

Neste segmento as promoções também fazem efeito, o que colocou o híbrido plug-in BYD Song como sétimo carro mais vendido no varejo em março. No mesmo embalo o elétrico BYD Dolphin Mini ficou na décima posição, fixando presença na lista dos dez mais.

Perda de tração

Estas nuances do mercado no primeiro trimestre, com maior procura por modelos mais baratos, já apontam para perda de tração dos negócios nos próximos meses. O aperto dos juros deve prejudicar tanto as vendas que ainda restam no varejo, embaladas por promoções, como também tira o apetite de frotistas – que inclusive podem estar comprando mais agora para evitar os aumentos de custos que estão contratados no horizonte.

A Abla, associação das locadoras, que nos últimos anos ficaram com 25% a 30% das vendas de veículos no País, reportou crescimento de 9,9% nas compras de 2024, com 649,4 mil unidades adquiridas. Para este ano, no entanto, a entidade estima apenas estabilidade, com projeção que locadoras comprarão 650 mil veículos, ou até um pouco menos.

Portanto não deve ser por aí que o mercado poderá lastrear seu crescimento este ano. Também há pouca esperança no varejo diante da alta dos juros e inflação incontida que reduz a renda e a confiança do consumidor.

A Fenabrave projeta – e até agora sustenta – projeção de crescimento moderado de 5% nas vendas de automóveis e comerciais leves este ano, para 2,6 milhões de unidades. Já a Anfavea, que reúne os fabricantes, segue esperando um pouco mais: 6,6%, para 2 milhões 650 mil.

Apesar do desempenho de certa forma surpreendente do mercado no primeiro trimestre o cenário prospectivo é de desaceleração. Baseada neste horizonte a Bright Consulting já revisou para baixo sua projeção, tirando 50 mil veículos leves da conta deste ano. A consultoria estima vendas pouco abaixo de 2,6 milhões de unidades e leve alta de 4,7% sobre 2024.

O resumo das análises é que o mercado brasileiro deu um efêmero suspiro de crescimento no primeiro trimestre, sustentado por promoções e grandes compras de frotistas, o que tende a não se repetir nos próximos meses.

Contudo, políticas de descontos – tanto nos preços dos veículos como nas taxas devido à elástica distância de spread existente da Selic para o efetivo juro cobrado no financiamento – e a sempre esperada alguma ajuda do governo podem mudar o horizonte.

Cláudio Sahad é reeleito presidente do Sindipeças

São Paulo – Cláudio Sahad, diretor da Ciamet, foi reeleito presidente do Sindipeças e da Abipeças para a gestão 2025-2028. Ele já tomou posse para seu segundo mandato consecutivo, após suceder a Dan Ioschpe.

Na última gestão o Sindipeças teve participação decisiva na criação do Mover e de outras políticas importantes relacionadas ao setor, como a lei do Combustível do Futuro. Após a criação do programa a entidade colaborou para auxiliar suas associadas a aproveitar os programas prioritários, como já havia feito no antecessor Rota 2030.

Também com Sahad à frente o Sindipeças expandiu a participação de suas associadas em feiras e missões comerciais dentro do projeto Brasil Auto Parts, parceria com a Apex-Brasil que foi renovada para 2025-2026.

Para o próximo triênio as metas incluem seguir participando da discussão de políticas públicas para o setor, implementar o Renovar, programa de renovação de frotas, incluindo inspeção técnica veicular, e manter os esforços para ampliar a localização de peças e componentes.

Para Sahad e apesar das adversidades, “o setor de autopeças brasileiro nunca sequer cogitou a possibilidade de desistir de sua histórica vocação de produzir e integrar a complexa e apaixonante cadeia de produção automotiva, enfrentando com resiliência todos os desafios no caminho”.

O presidente participou, também, da inauguração da Galeria dos Presidentes, na sede do Sindipeças e Autopeças, no qual os ex-presidentes foram homenageados com quadros do artista Gilberto Marchi. São doze quadros, no total, em exposição.

Ex-presidentes Dan Ioschpe, Claudio Vaz, Luis Eulálio de Bueno Vidigal Filho e Paulo Butori, com Cláudio Sahad, na inauguração da Galeria dos Presidentes. Fotos: Divulgação Sindipeças.

Encontro de Autopeças

O Sindipeças organiza, em paralelo à Automec, seu 5º Encontro da Indústria de Autopeças.  Serão debatidos temas relevantes da atualidade do setor, como o programa Mover e inteligência artificial. Será em 24 de abril, no São Paulo Expo e as inscrições estão abertas.