Anfavea e Sindipeças participaram do Congresso AutoData Megatendências 2025
São Paulo – Pela primeira vez a Anfavea fala em possibilidade de redução dos investimentos da indústria automotiva no mercado brasileiro. As pressões vêm de fora, com o tarifaço de Donald Trump nos Estados Unidos e o crescimento das importações de veículos da China, e de dentro, com a demora na regulamentação do Mover, Programa Mobilidade Verde e Inovação, e a resistência do governo em retomar imediatamente os 35% de imposto de importação para veículos eletrificados.
O ponto de atenção foi levantado por Márcio de Lima Leite, presidente da Anfavea, junto com Cláudio Sahad, reeleito presidente do Sindipeças, no Congresso AutoData Megatendências 2025, na terça-feira, 8, em São Paulo. Há outro fator de risco que corre pelos corredores do governo, segundo ele: um pleito, de empresas chinesas, para reduzir os impostos de importação de CKDs e SKDs.
Lima Leite voltou a tocar no assunto na entrevista coletiva de imprensa da Anfavea, logo após sua participação no Congresso – e a última a que ele esteve como presidente da entidade: “A Anfavea tem 27 associadas, que geram mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos, e a posição delas é que dizer sim a este pleito vai gerar impacto nos investimentos e na geração de empregos. É um ataque ao NIB [Nova Indústria Brasil, programa de reindustrialização do governo federal]. Este pedido não pode prosperar”.
Segundo a Anfavea os pleitos pedem a redução dos atuais 20% a 35% de imposto de importação de CKD e SKD para 5% e 10%. O presidente não quis dizer qual foi a empresa, ou empresas, que fez o pedido.
Da mesma forma seguem os pedidos para que suba para 35%, imediatamente, o imposto de importação para eletrificados, que seguem um cronograma estabelecido pelo governo no fim de 2023 e só têm previsão de alcançar esta tarifa em 2026.
Risco México
Em outra frente existe o risco de deslocamento de produção para o México, país com o qual o Brasil mantém acordo comercial bilateral automotivo. Segundo Lima Leite o tarifaço de Donald Trump, que elevou para 25% o imposto de importação de veículos nos Estados Unidos, poderá gerar capacidade ociosa no México e perda de atratividade do Brasil em investimentos: “Se está ocioso no México por que investir em mais capacidade no Brasil?”.
Fotos: Patrícia Caggegi.
Existem no México 37 fábricas de veículos e outras 1 mil de autopeças, que produzem em larga escala: “Então o Brasil pode ser destino dos produtos mexicanos, principalmente pelo acordo que tem o Mercosul com o México. É natural que comece a haver um deslocamento de produção da América do Sul para o México”.
Outro impacto no mercado será a queda da demanda global: “Só nos Estados Unidos prevemos uma queda de 1 milhão de veículos em mercado de 15 milhões de unidades”
Atraso na regulamentação do Mover
Lima Leite observou, também, sobre o atraso na regulamentação do Mover, que vem postergando a aplicação de investimentos e, diante do novo contexto global, poderá resultar em cancelamento de valores já anunciados.
“A indústria não convive com imprevisibilidade. Não temos ainda o valor que foi impactado, mas empresas, não só montadora, autopeças também, estão postergando e revisando investimentos porque as regras não saem. O IPI Verde é todo mês adiado, prometido para o mês seguinte.”
Ele citou também que os recursos de P&D destinados para todo 2025 foram esgotados no primeiro trimestre: “Estes recursos já são insuficientes”.
Só com aumento de competitividade
Para Cláudio Sahad, presidente do Sindipeças, que participou do painel com Lima Leite, a China obrigou o resto do mundo a repensar suas práticas e a reanalisar os negócios. Outra verdade para Sahad é que, para fazer frente a essa concorrência da China o Brasil precisará atacar cada vez mais a competitividade.
Fotos: Patrícia Caggegi.
“Precisamos cada vez mais investir em novas tecnologias, em inovação, em digitalização, em inteligência artificial. Isso exigirá das empresas uma capacidade de investimento muito grande. Para que as empresas possam ter essa capacidade de investimento, essa musculatura, haverá a necessidade de consolidação de empresas, não porque querem, mas porque precisam”.
Sahad fez uma analogia dizendo que o mercado brasileiro é como uma estrada cheia de pedras e algumas políticas adotadas ajudam a retirar apenas algumas pedras.
O presidente do Sindipeças coloca vários desses obstáculos a serem enfrentados para tornar o setor mais competitivo: renovação de frota, inspeção técnico-veicular, problemas com ex-tarifários, recomposição do imposto de importação, além da busca de novos acordos bilaterais: “Nosso aumento de volume não está no mercado local, está na exportação. E para termos esses acordos precisamos ser mais competitivos”.
Outra oportunidade para o Brasil, aponta Sahad, é a pegada de carbono que onerará o custo do produto final: as empresas terão que buscar economias de baixo carbono para produzir os seus produtos. E o Brasil pode ser um polo atrativo de empresas do mundo inteiro para produzirem aqui.
“Nós temos uma matriz energética que nos permite produzir emitindo muito menos carbono que lá fora. E para isso nós precisamos ter políticas que atraiam essas empresas. Isso precisa acontecer”.