Ford Taboão dá adeus com desejo de até logo

Imagem ilustrativa da notícia: Ford Taboão dá adeus com desejo de até logo
Foto Jornalista  Bruno de Oliveira

Por Bruno de Oliveira

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29/10/2019

São Paulo – Foi de cima de uma plataforma instalada sobre um Ford Cargo 712 cor cinza, com placa de São Bernardo do Campo, SP, que representantes do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC se dirigiram pela última vez aos funcionários da produção da Ford Taboão na terça-feira, 29, em assembleia realizada em uma das áreas de estacionamento da unidade.

 

Grupo formado por cerca de quinhentos trabalhadores, parte deles integrantes do contigente de 1,2 mil já demitidos pela companhia, ouviu atento a Wagner Santana, o Wagnão, lá de cima discursar sobre a lógica do lucro no mercado financeiro e sua relação com os acionistas da Ford, a liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, principalmente, sobre as temas que cercam o futuro da fábrica instalada ali.

 

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Segundo o representante da entidade ainda há incertezas e as negociações da Ford com a Caoa Montadora, interessada no ativo, seguem em curso e estão direcionadas no estágio atual para a questão do financiamento do negócio: “A Caoa já tem parte do dinheiro de que precisa para fechar o negócio, e a outra parte depende de financiamento do BNDES, de uma autorização do [ministro da Economia] Paulo Guedes”.

 

O BNDES é apontado pelos trabalhadores como peça que une uma série de interesses que pairam sobre a unidade produtiva do ABCD paulista. Para eles uma possível liberação de recursos federais para financiar a compra da fábrica significa recontratação certa de parte do quadro que, a partir da quarta-feira, 30, último dia de produção da unidade, poderá ser chamado de ex-Ford.

 

“As bases salariais todas já estão negociadas com a Caoa se ela confirmar a compra da fábrica. Em linhas gerais os funcionários da área produtiva concordaram em receber 80% do salário que recebiam da Ford, e os funcionários mais técnicos, como ferramenteiros, por exemplo, receberiam 70% do que antes era oferecido.”

 

Para a Ford, um sim do BNDES para a liberação de linha de crédito pode representar uma espécie de final feliz para um negócio que foi apontado como fonte recorrente de prejuízos. Passado o capítulo, a montadora poderia se concentrar de forma integral em sua outra unidade, a fábrica de Camaçari, BA, onde são produzidos o compacto Ka, nas versões hatch e sedã, e o SUV Ecosport.

 

Pelos lados da Caoa Montadora o acesso ao dinheiro do banco representaria um processo de expansão de suas operações, hoje mantidas em Anápolis, GO, e em Jacareí, SP, onde são montados, por ora, veículos Hyundai e Caoa Chery. Durante reuniões com o sindicato dos metalúrgicos representantes da empresa já teriam afirmado estar claros os seus planos para a unidade:

 

“Nos foi dito que a empresa tem em mãos recursos próprios e de outros parceiros asiáticos. Precisam financiar o restante do valor da fábrica para começar a produção de caminhões e de dois modelos de automóveis aproveitando a vocação que a unidade já tem para produzir este tipo de produto”, contou Santana, sem citar, no entanto, qual seria o preço de venda da fábrica. “É um valor alto que, talvez, seria inviável obter por meio de um banco de varejo”.

 

Embora esteja claro para o tripé de interessados no negócio Ford Taboão que a solução esteja concentrada nas mãos do braço financeiro federal, são poucos aqueles que se arriscam – ou se manifestaram – a palpitar sobre as razões pelas quais o BNDES não teria, até agora, aberto o cofre para resolver um tema que começou municipal e se tornou, em nove meses, um caso nacional.

 

Wagnão, do alto do carro de som, deu sua versão dos fatos aos trabalhadores que, naquele momento, comentavam que muitas eram as bravatas e poucas as novidades sobre a aquisição da fábrica: “Acredito que o BNDES não tenha liberado os recursos por uma questão política. No passado montadoras nacionais como a Caoa sofreram pressões daquelas que já estavam estabelecidas aqui para que deixassem de crescer. O Doria tinha dito que Paulo Guedes era um parceiro. E cadê?”.

 

Desde fevereiro, quando a Ford comunicou ao mercado sua saída do negócio caminhão na América do Sul, o ministro da Economia se encontrou em diversas ocasiões com o governador-mediador João Doria e representantes da Caoa, como o fundador Carlos Alberto de Oliveira Andrade, e Mauro Correia, presidente da companhia. O banco teria oferecido um valor abaixo do desejado, o que emperrou as negociações.

 

Se há um mês, quando foi anunciado o processo de diligência na Ford Taboão, o prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando, descartava a possibilidade de um plano B caso a Caoa saísse das negociações, hoje a possibilidade é considerada pelo governador diante da dificuldade de se obter crédito, contou Wagnão: “O Doria deu sinais de que outras empresas, no caso chinesas, estariam interessadas na fábrica se o negócio com a Caoa não desse certo. Se isso acontecer teremos um desfecho só em 2020”.

 

O governador tem adotado discurso de distanciamento do assunto nas vezes em que foi questionado sobre a questão, uma postura antagônica à vista no princípio da novela, quando trouxe para si a responsabilidade de achar um comprador para a unidade. De todo modo ele e seus secretários chegaram a ir à China em agosto e também têm recebido representantes de empresas e do governo daquele país. Um anúncio sobre a possível aquisição é esperado até a quinta-feira, 31.

 

O fim da produção de caminhões na unidades está marcada para a quarta-feira, 30. Será feita uma filmagem do último caminhão saindo das linhas que funcionam desde 1967, e a comissão de fábrica tem agendado um almoço-confraternização de despedida que será realizado ali. A partir da quinta-feira começam a ser realizados os desligamentos de cerca de seiscentos funcionários -- serão cem demissões por dia.

 

O quadro administrativo fica no prédio localizado na Portaria 1 até março e, depois, segue para novo endereço em São Paulo. A fábrica, por fim, terá a presença de funcionários em seus domínios até o fim de novembro para a realização de manutenção nas edificações. Depois disso ninguém, pelo menos os funcionários presentes na assembleia derradeira, sabe se vai ou se fica.

 

Foto: Bruno de Oliveira.