Montadoras se renderam, enfim, às startups?

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Foto Jornalista  Bruno de Oliveira

Por Bruno de Oliveira

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21/01/2020

São Paulo – A indústria automotiva mostra sinais de que precisa buscar modelos de negócios alternativos ao tradicional produz-monta-vende que, dizem, está com os dias contados no futuro da mobilidade. Das casas matrizes na Europa, Ásia e Estados Unidos as notícias que chegam indicam que o caminho escolhido pelas fabricantes não é outro senão, por fim, ouvirem o que startups têm a dizer – e não o contrário.

 

A lógica é simples e parece que as centenárias companhias assumiram o papel: na rapidez do mercado atual, na fugacidade das tendências que moldam o consumo, nada melhor do que recorrer a uma empresa de estrutura leve e com negócio baseado em tecnologia para compreender e adaptar-se rápido às exigências do cliente moderno que, ao que parece, estão além das suas possibilidades.

 

“Por serem menores essas empresas conseguem entender, mais rápido do que as gigantes, as transformações pelas quais passa o mercado", reconhece Marco Saltini, diretor de relações governamentais e institucionais da Volkswagen Caminhões e Ônibus. "Em pouco tempo racionalizam algo que nós levaríamos anos para compreender porque atravessamos os séculos focados na manufatura.”

 

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Sua irmã de Grupo Traton, a MAN, mantém programa global de aceleração de startups com o objetivo de ter acesso às formas de visão que as novas empresas supostamente têm acerca do mercado. Reunindo as empresas em seus domínios por meio desses eventos, nos quais o conhecimento e as experiências são compartilhados, a montadora se atualiza e, também importante, fica perto de quem pode vir a ser um parceiro de negócios.

 

“Há também a questão do resultado social que esses novos negócios podem gerar nas cidades”, contou Lisa Guggenmos, a especialista em estratégia digital da MAN e responsável pelo programa MAN Impact Accelerator. Ela está no Brasil desde domingo, 19, para selecionar startups brasileiras para o programa global da companhia. Três foram escolhidas e, durante evento até 23 de janeiro, participarão dos debates e aconselhamentos dos técnicos da MAN e da VWCO que são chamados de mentorias.

 

Ainda que o programa seja global – estão no País também startups da África e da Europa – o evento mostra que, de alguma forma, a indústria nacional está alinhada a uma tendência mundial e, ainda, participa de articulação encabeçada pelas matrizes. No caso da VWCO, segundo Marco Saltini, inserir o Brasil no contexto, sob a ótica da companhia, é positivo por duas razões: a primeira porque o Brasil é o maior mercado de caminhões da VWCO em termos de volume, e seria ilógico deixar a subsidiária fora do planejamento. A outra razão tem a ver com o Volkswagen e-Delivery, o modelo de caminhão elétrico que será produzido em Resende, RJ, e sobre o qual está depositada muita expectativa.

 

Isso porque a montadora estuda novos modelos de negócio que giram em torno do caminhão. Pouco se sabe a respeito de como ele será explorado comercialmente pela fabricante. O que se sabe, e de onde se pode extrair pistas a respeito do tema, é que a montadora inseriu a cervejaria Ambev no e-Consórcio para que desempenhe papel de parceira na construção de novos modelos baseados também na oferta de serviços, algo que hoje começa a ganhar corpo nas fabricantes de caminhões e de automóveis.

 

“Não há dúvidas de que no futuro próximo os serviços serão parte importante da receita das fabricantes", observou Saltini. "Se não nos estruturarmos agora em torno do assunto perderemos espaço no mercado para outras companhias. Por isso a importância de que se estabeleça contato com essas novas empresas de tecnologia.”

 

Há outros exemplos de empresas que apostaram na parceria com startups com vistas a demandas futuras. A Renault mantém laboratório em Curitiba, PR, onde novas companhias desenvolvem ideias sobre mobilidade. O Nissan Kicks, um SUV, teve vendas realizadas por meio de sistema de inteligência artificial criado por uma startup. Afora o negócio automóvel a Randon, fabricante de implementos, também se aproximou de startups recentemente e a FCA, que mantém um HUB em Betim, MG, para ficar ligado com o ecossistema de startups.

 

O MAN Impact Accelerator começou em Munique, Alemanha, em novembro. Afora São Paulo o evento será realizado também em Lisboa, Portugal, e em Joanesburgo, África do Sul. Haverá cerimônia de encerramento oficial em Munique em junho.

 

Foto: Divulgação