Agência AD Entrevista conversou com Marcos Bento, chefe da divisão de vendas da Moto Honda
São Paulo – Responsável por quase 70% das vendas de motocicletas no mercado brasileiro de janeiro a abril a Honda é fonte obrigatória quando se quer discutir os rumos da indústria de duas rodas do Polo Industrial de Manaus. A operação industrial no Amazonas produz mais de 1 milhão de veículos por ano, uma referência global.
Agência AD Entrevista conversou com Marcos Bento, que em abril assumiu a divisão comercial da Moto Honda, passando a responder por vendas, treinamento, relacionamento com concessionários, dentre outras funções. Ele também é presidente da Abraciclo.
O momento do setor é positivo: o mercado de duas rodas apresentou crescimento de 9% no primeiro quadrimestre e a Honda avançou 5%.
De acordo com Bento o foco da Honda é a renovação de portfólio e a meta é fechar o ano com crescimento em linha com o mercado. A princípio o aumento da Selic não preocupa porque existem outros canais, como o consórcio, que ajudam a movimentar as vendas.
Confira os principais momentos da entrevista aqui.
As vendas de motocicletas chegaram perto de 2 milhões de unidades no ano passado. A Fenabrave e a Abraciclo acreditam que deverão superar este volume pela primeira vez na história em 2025. O que vem puxando as vendas da indústria?
Nos dois últimos anos temos registrado um crescimento sustentável. Em 2024 foi acima da média e os principais fatores estão relacionados com o pós-pandemia: a busca por uma solução de mobilidade mais eficiente e econômica, que é a motocicleta. Houve aumento de habilitados na categoria A, que permite o uso da motocicleta como um modal de geração de renda, e o acesso ao crédito. Acho que estes pilares impulsionaram o crescimento da vendas de motocicletas e continuarão fazendo parte do crescimento neste ano.
Quais faixas de mercado estão com melhor desempenho?
A Honda tem uma estratégia bem forte com relação à renovação de portfólio e uma grande rede de concessionárias. São mais de 1,1 mil pontos de vendas espalhados pelo País O destaque são os modelos de entrada: CG, Bis e Bros representam cerca de 60% do nosso volume.
No caso da Honda espera-se crescer em linha com o mercado ou um pouco acima do mercado?
A projeção é crescer igual o mercado. Apesar de todos os fatores positivos que foram apontados sempre existe a possibilidade de um susto, porque o mercado é assim. Existem fatores na economia, como o aumento da taxa de juros, o tarifaço que ainda põe impacto ao câmbio, ano passado tivemos a seca, então vamos manter a projeção de crescer com o mercado que já é um bom índice.
Um dos importantes motores do mercado de motocicletas é o financiamento. Com o aumento da Selic, que já chegou a 14,75%, existe algum risco de desaquecimento nas vendas do segmento? Qual poderá ser o impacto sobre os negócios da Honda?
É inegável que faz uma pressão muito forte no varejo, mas até o momento não sofremos impacto. Até o momento. Existe um balanceamento de vendas financiadas, à vista e o consórcio, que tira um pouco da influência do aumento da Selic nas vendas gerais. Existem também outros fatores como o aumento da população empregada, os atributos da motocicleta… Então, por enquanto, podemos dizer que os juros ainda não afetam as nossas previsões para 2025.
Nos últimos anos a falta de chuvas na região de Manaus, onde está instalado o Polo Industrial de duas rodas brasileiro, chegou a afetar a produção. Como a Honda, a maior fabricante da região, fez para contornar, ou minimizar, a situação? O que está planejado para 2025?
Em 2023 foi registrada a maior seca da história e a partir dali tivemos que passar a tomar medidas de planejamento, logística e mudança de fluxos. Eu acho que o sofrimento em 2023 foi tão grande que nos preparou para que em 2024 fosse menor. Foi grande o esforço das equipes de logística, combinado com a área de planejamento, e não podemos deixar de também enfatizar que houve atuação das autoridades ajudando com infraestrutura, dragagem, ações dos governos federal e estadual, que foram importantes para que não só a Honda, mas todos de Manaus, sofressem menos em 2024. E em 2025 temos este este ensinamento novamente, caso a questão climática volte a ser um problema.
Como está a operação industrial da Honda em Manaus? O que foi feito no último ciclo de investimento, de R$ 500 milhões, encerrado em 2023?
Este ciclo, iniciado em 2019, se encerrou. Durante ele passamos por queda de produção, e usamos este período para nos adaptar, o que nos permitiu nos preparar para o aumento de vendas que chegou. A adequação foi feita no momento certo e hoje, em outro momento, colhemos estes frutos.
Existem mais investimentos no horizonte? Quanto?
Ainda não temos uma definição do novo ciclo de investimento. Fizemos importantes alterações estruturais no último ciclo e agora estamos em uma fase de fortalecimento do portfólio, que é um investimento que nunca para. Existe também constante investimento para manter o parque fabril sempre atualizado.
Nos países vizinhos do Brasil é forte a presença de motocicletas asiáticas, sobretudo das chinesas. Sabemos que a falta de harmonização regulatória é um dos motivos para que o produto brasileiro não seja competitivo na região, pois motos menos seguras e mais poluentes são vendidas em outros mercados, a preços mais baixos, por terem menos tecnologia. Como a Honda tem feito para conseguir exportar? Quais são os mercados alvo?
Tem sido um grande desafio. Mas a Honda não exporta só para países da América do Sul, temos volumes indo para países da América do Norte, da América Central, Austrália e Nova Zelândia. Neste ano o mercado argentino tem apresentado uma melhora, o que é uma boa notícia, estamos exportando para os Estados Unidos. Desta forma conseguimos escoar produtos em uma determinada linha, em determinada faixa adequada a outros mercados.
Qual é a visão de eletrificação da Honda para o segmento de duas rodas no Brasil? Existem planos de motocicletas elétricas para Manaus?
Antes de falar sobre eletrificação preciso expor sobre como a Honda pensa a sua estratégia tecnológica global. Não é segredo para ninguém que a Honda trabalha forte na questão da neutralidade de carbono e, dentro deste contexto, definimos a tecnologia apropriada para cada região onde operamos. Há a questão de infraestrutura, de acessibilidade, os custos para o consumidor. E entendemos que, no momento, a melhor forma de seguir uma política de neutralidade de carbono no Brasil é com constante investimento na tecnologia flex. Então temos trabalhado neste horizonte, mas ressaltando que a Honda detém a tecnologia de eletrificação, que é usada em locais em que julga adequados. No momento entendemos que, para o Brasil, a mais adequada é a flex.
Hoje todo o portfólio Honda é flex?
A maior parte. Em torno de 65% a 70% das vendas são de motocicletas com tecnologia flex. É um grande número.